Crohn, Colite e o fator emocional

Será que uma coisa tem mesmo tudo a ver com a outra? Sim, tem. Os pacientes de DII viveriam muito melhor se conseguissem, como diz a velha música, "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo"
Por Marc Tawil

Legenda1: O psiquiatra Cássio Pitta: "Seria absurdo afirmar que as causas da Doença Inflamatória Intestinal (DII) são psíquicas"

Legenda2: A cirurgiã-geral Maria José Femenias Vieira: "Mesmo as atitudes mais simples, como uma ida ao banheiro ou ao médico, já causam estresse para muitos"

É quase certo que você já tenha passado, uma ou mais vezes, por esta experiência: ao sentir os primeiros sinais de que uma crise de Colite Ulcerativa ou Crohn está a caminho, sua ansiedade começa a subir e, quando as dores chegam com força, você se vê diante da mesma dúvida. Será que sou eu mesmo, com a dificuldade que tenho em controlar meu estresse, que estou atraindo - ou agravando - a crise? Ou não: será que é a crise que está provocando o estresse? A questão também se coloca numa circunstância algo diferente. Você está estressado - pelo trabalho, preocupações financeiras, problemas familiares, ou pelo fato puro e simples de ser, naturalmente, uma personalidade tensa - e quando a crise aparece sua tendência é perguntar se foram seus nervos que a provocaram. Ou então, como ocorre no primeiro dilema, se não é a consciência de saber-se um portador de doença inflamatória intestinal que faz de você uma pessoa sempre ansiosa, ou transforma em episódios de estresse aqueles problemas de trabalho, dinheiro, família...

Não se tratam de dúvidas tolas, que só servem para perturbar a sua cabeça e não levam a nada. É um dilema e tanto, pois em qualquer das variantes descritas acima você acaba sempre sendo conduzido à uma questão muito concreta: o que eu faço?
Se você não pode eliminar sua doença com um ato de vontade - e você não pode - a perspectiva permanente de vir a sentir dores é um claro, real e objetivo fator de estresse. E o estresse, não apenas nos casos de DII, mas numa longa lista de outras moléstias, é, sim, um complicador relevante. Bem, se a primeira coisa puxa a segunda, e se a segunda puxa a primeira... Como desatar esta charada? A solução pode não ser fácil, mas existe - e começa por um esforço para pensar com clareza, colocando-se na frente o que é mais importante.
O mais importante é um fato científico, e é por esse fato que você deve começar a organizar a sua cabeça: não, não é o estresse que provoca a Doença de Crohn e a Colite Ulcerativa. "Seria absurdo afirmar que as causas da Doença Inflamatória Intestinal (DII) são psíquicas, embora seja inegável que exista correlação entre ela e a condição emocional do paciente", diz o psiquiatra Cássio Pitta, professor assistente do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina. O surgimento e a evolução da DII estão ligados a fatores genéticos, fisiológicos - e, portanto, a doença pode atingir tanto pessoas de natureza estressada como pessoas emocionalmente tranqüilas e bem resolvidas. Em segundo lugar, é preciso admitir uma realidade simples: ser portador de Crohn ou de Colite Ulcerativa é motivo mais do que razoável para provocar ansiedade em qualquer pessoa, por mais zen que ela seja. Há a expectativa da dor. Há as diarréias infindáveis. Há a possibilidade da internação em hospital. Há as preocupações profissionais, diante da perspectiva de interromper o trabalho durante as crises. A própria vida cotidiana dos pacientes é diferente da vida que o resto da população conhece, a começar pelos hábitos alimentares e sociais. "Mesmo as atitudes mais simples, como uma ida ao banheiro ou ao médico, já causam estresse para muitos", diz a cirurgiã-geral Maria José Femenias Vieira, especializada em proctologia e aparelho digestivo. "É uma sensação de ansiedade que não pára." Conclusão: a presença do estresse é perfeitamente natural para pacientes de DII, e ninguém deve perder seu tempo tentando bloquear, prevenir ou eliminar seus estados de ansiedade. Muito menos, ainda, deve sentir-se de alguma forma culpado por eles. A saída está em aprender a lidar com a realidade do estresse, cuidando de controlá-lo (até com apoio clínico e psicológico, se for o caso) e tratando de diminuir e limitar seus efeitos.

O estresse, termo originado na física e engenharia - onde designa o grau de pressão que faz um metal romper-se - é o conjunto de reações que dificultam a adaptação emocional das pessoas às "agressões" que a vida lhes traz, na forma de dificuldades de todos os tipos.
Como tal pode ser tratado - e é. Na verdade, o estresse não tem apenas desvantagens; há também aspectos positivos, e valer-se deles é um passo importante para reduzir seus efeitos nocivos. O "lado bom" da ansiedade é quando ela se apresenta como o contrário da passividade - é o incentivo que ela cria para nos ajudar a lidar com uma nova situação, um problema, uma ameaça ou perigo. O "lado ruim" é quando ela se apresenta de maneira exagerada ou desproporcional à pressão que a causou, sufocando a capacidade de reagir racionalmente ou dominando por completo o aparelho emocional da pessoa. "O estresse pode nos fazer crescer", diz a Dra. Maria José. "Quando o ser humano é obrigado a fazer algo, ele evolui." Em situações de pressão, assim, o paciente de DII deve esforçar-se para canalizar sua ansiedade na busca de soluções e respostas capazes de diluir os problemas que o estão pressionando.
Na verdade, esses esforços para aprender a administrar o estresse são essenciais - e fazem parte de todo o conjunto de ações terapêuticas recomendadas para combater a DII. É certo, como foi dito no início, que a doença não é causada por fatores psíquicos, mas é igualmente verdade que eles têm um papel relevante no quadro. "O sistema imunológico não é um cavaleiro sem cabeça", diz a Dra. Maria José. "Ele está ligado ao sistema endócrino e ao sistema nervoso." De fato, o estresse pode influir negativamente nas crises, tornando as dores mais intensas ou prolongadas. Em condições severas de tensão nervosa, a moléstia pode ser agravada. Há indícios, também, de que o impacto das emoções pode favorecer o desenvolvimento de outras enfermidades como tuberculose, gripe ou herpes. A própria evolução do tratamento, enfim, se vê afetada pelo estado emocional do paciente - quanto menores forem os seus níveis de estresse, melhores serão suas perspectivas de progresso.
As receitas para lidar de maneira construtiva com o estresse variam de pessoa para pessoa, de acordo com as circunstâncias individuais de cada uma delas. A jornalista Maria Amalia Bernardi, 43 anos, diagnosticada desde 1994, aprendeu a não atribuir suas crises a episódios de estresse. "Geralmente as crises ocorrem após um longo período de complicações, estresse e pressão", diz ela. "É claro que eu tenho medo das dores, porque já passei por elas, mas sei que as dificuldades da vida não são as responsáveis pelas crises. Todo mundo que está vivo tem problemas."

Muitas crises, na verdade,
ocorrem em situações onde não
se detecta estresse algum.
"Houve vezes em que enfrentei dias difíceis da doença sem passar por um momento de tensão", recorda a gerente de tesouraria e faturamento do Hospital Oswaldo Cruz de São Paulo, Elizabeth Krause, de 50 anos. Elizabeth diagnosticou a Doença de Crohn 22 anos atrás e, desde então, teve sucessivas crises intestinais. Em algumas delas, é certo, estresse e doença andaram juntos. "Lembro-me que, em 1993, passei por um momento muito difícil e de muita pressão no emprego, além de problemas na família", conta Elizabeth. "Naquela ocasião, o estresse foi seguido por uma crise forte". Nem por isso, entretanto, ela acha que seu estado emocional seja o responsável pela doença. Elizabeth não costuma deixar de trabalhar quando entra em crise. Quando está com febre, chega a se internar por um ou dois dias. "Não é difícil. Trabalho em um hospital e basta caminhar alguns passos para chegar ao quarto", diz ela. "Depois, volto para minha mesa."

Os pacientes com Crohn e Colite Ulcerativa
não têm freqüência maior
de diagnóstico de doenças psiquiátricas
que o restante da população.
"Os problemas vividos no dia-a-dia são os mesmos para todos", explica a educadora de Saúde Pública Sonia Maria Lagoa, de 49 anos. Quando sofreu a primeira crise de Crohn, dez anos atrás, Sonia vivia um momento de tensão profissional. "Eu passava por uma fase de pressão muito forte no meu emprego quando aconteceu a crise", recorda. "Hoje digo que meu Crohn 'é comportado', isto é, costuma atacar com pouca freqüência." Sonia tem procurado lidar de maneira positiva com as pressões. "Neste momento estou envolvida em uma reforma de casa", conta. "Mas nem os problemas gerados por este tipo de atividade têm me irritado. Sei que posso resolvê-los. O que me estressa profundamente é sentir-me impotente diante de uma situação que tenho de resolver."
Falar sobre o que se sente, segundo os médicos, é algo que faz bem. Pacientes que participam de grupos onde possam discutir sua doença e desabafar com os outros sobre o que estão passando têm experimentado progressos em sua convivência com as pressões da vida diária. O estresse e a ansiedade, como outros problemas, costumam ser assuntos comentados nas reuniões realizadas na sede da ABCD (Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn), em São Paulo. O empresário Paulo César Giacomelli, de 40 anos, já presenciou colegas se queixando sobre os males causados pelo estresse. "É um assunto bastante comentado", afirma. De 1998 para cá, o empresário não sofreu mais ataques e hoje toma apenas um remédio. "Fui operado assim que a doença foi descoberta e fiz outra cirurgia quatro meses depois. Vivo sem o intestino grosso e posso dizer que é melhor." A rotina de trabalho frenética de Giacomelli é compensada por um investimento na qualidade de vida: "Pratico esportes, cuido do lazer e viajo bastante", diz ele.
O Dr. Cássio Pitta também acredita que as reuniões em grupo podem ser ótimas oportunidades para a troca de experiências. "É interessante em todos os sentidos. Os pacientes se sentem confortáveis e acolhidos por lidar com o problema e avaliar as dificuldades dos outros", diz o psiquiatra. Pitta refuta a idéia de que o tratamento não é válido em certos casos: "A possibilidade de uma evolução em relação ao Crohn é muito maior com o acompanhamento. Para os aspectos emocionais da doença é muito útil."

Uma recomendação que os médicos fazem com freqüência é a busca por terapia psicológica.
"O paciente de Crohn vive uma guerra. Por isso, ele tem que tentar controlar sua parte emocional para lidar com as tensões do dia-a-dia", diz a Dra. Maria José. "Existem portadores que respondem bem à terapia; outros preferem não ir. O importante é não ter uma expectativa exagerada de que a doença vai melhorar com o tratamento psicológico."
Outro ponto a ser combatido é o sentimento de culpa que, muitas vezes, aflige os portadores de DII. "Ninguém deve ter culpa por estar sujeito a uma enfermidade", diz a Dra. Maria José. "Isso foge ao nosso controle. Não somos criadores, somos criaturas. Você não é tenso porque quer. Não é ansioso porque quer. Não é triste porque quer." O psiquiatra Cássio Pitta concorda com a colega. "Ninguém pode esperar que um portador de DII viva tranqüilo e despreocupado", diz ele. "A tristeza e o desânimo, nesses casos, são reações perfeitamente esperadas. O contrário é que seria estranho".