Manobra estratégica
Como é o tratamento de bolsite em pacientes com colite ulcerativa

Há situações que, embora sejam mais delicadas para os pacientes de doenças inflamatórias intestinais, também precisam ser encaradas com otimismo. É o caso de alguns pacientes de colite ulcerativa que, mesmo após a cirurgia para a retirada do intestino grosso, continuam apresentando diarréia como se não tivessem feito nada para melhorar esse quadro. Este efeito pós-cirúrgico chama-se bolsite, que é a inflamação da bolsa feita na cirurgia, unindo as paredes do intestino delgado e formando uma bolsa interna ao organismo que é costurada no ânus do paciente. Com esta bolsa, o paciente passa a ter menos crises de diarréia e um controle melhor sobre as fezes, que não saem tão moles. Por outro lado, existe o risco de essa bolsa interna ficar novamente inflamada, o que provocaria um quadro igual ao da retocolite que o paciente apresentava antes da cirurgia. “É comum esta inflamação da bolsa, que pode ser passageira ou pode se tornar crônica”, diz a coloproctologista Profa. Dra. Magaly Gemio Teixeira, supervisora do serviço de cirurgia do colo e reto do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas, em São Paulo, que conta que 26% dos casos que chegavam até ela em 2003 tinham como causa problemas de bolsite. “Hoje este número chega a 50% dos casos”, diz a médica que também informa que se este quadro de bolsite for passageiro, o problema pode ser resolvido em 72 horas com medicamentos cujo princípio ativo é o metronidazol.
Os médicos não se cansam de investigar terapias para tratar deste problema. É muito comum serem feitos estudos sobre bolsite e, recentemente, foi divulgado o estudo realizado por um grupo de médicos do Centro de Doenças Inflamatórias Intestinais da Clínica Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos com pacientes de colite ulcerativa que apresentavam bolsite de forma crônica. Neste estudo os médicos adotaram uma terapia nova de medicamentos com a combinação de dois antibióticos, o Ciprofloxacina e o Tinidazole. Du¬rante quatro semanas, os pacientes tomaram doses diárias desta combinação e, ao final, os médicos concluíram que esta terapia foi bem tolerada pela maioria dos pacientes e que ela poderia ser eficaz para o tratamento de bolsite crônica.
A ABCD em Foco conversou com dois dos médicos que fizeram parte deste estudo e que, aliás, são parceiros no trabalho diário da Divisão de Doenças Inflamatórias Intestinais na Clínica de Cleveland, o Dr. Bo Shen, e o Dr. Aaron Brzezinski. Nos quadros abaixo, registramos os seus comentários:
“Um dos desafios do tratamento de bolsite é determinar quem vai ou não ter essa colite e síndrome da bolsa irritável. Como foi demonstrada, a diferenciação dos sintomas é muito im¬portante para saber o diagnóstico, mas, muitas vezes, é preciso fazer uma endoscopia da bolsa para definir melhor o quadro. No momento da endoscopia, o íleo posterior a essa bolsa deve ser visualizado para excluir condições como a doença de Crohn e enteropatias induzidas por drogas antiinflamatórias não esteróides. Tendo inflamação na bolsa é importante determinar a extensão e o seu grau. Se a inflamação for somente na bolsa, se diz que o paciente tem bolsite. O tratamento inclui antibióticos em longo prazo, preparações de derivações de 5Asa, imunossupressores, corticóides, infliximabe, probióticos e outros, mas a combinação de dois antibióticos parece ser mais efetiva, como foi mos¬trado no trabalho, e superior ao uso de medicações derivadas de 5 ASA. Há pacientes que necessitam de manutenção de longo prazo com antibióticos e outros para quem o antibiótico pode ser cíclico, devido ao vai e vem de sintomas. É importante ressaltar que quando a cirurgia é feita em paciente com colite ulcerativa refratária, cronicamente ativa, a qualidade de vida melhora para a maioria dos pacientes, mas quando ele tem bolsite, esta qualidade pode voltar a se deteriorar, em função da diarréia, da incontinência fecal, dor pél¬vica, febre, fadiga, etc. Depois que a inflamação é controlada, a maioria dos pacientes retorna à qualidade de vida de como ele tinha antes da inflamação” - Dr. Aaron Brzezinski:
“O tratamento da bolsite manifestada cronicamente é sempre desafiante. Neste momento, a combinação de Cipro­flo­xacina e Tinidazole é provavelmente a opção mais forte. Quando esta terapia não obtém resultado favorável, o prog­nós­tico não é bom e muitos dos pacientes que apresentaram este quadro tiveram que desfazer a bolsa. O desafio, con­for­me o que foi mostrado no estudo, é que 20% dos pacientes po­­dem não responder à terapia. Se isso se confirmar, não se pode identificar quem vai responder ou não a este tratamento. O estudo foi feito por quatro semanas, mas os pacientes precisam de um tempo maior de uso da terapia com anti­bióticos que, na maioria dos casos, poderia perder a sua efi­cácia por um tempo prolongado”. - Dr. Bo Shen