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A revolução dos biológicos
Opções de medicamentos contra Crohn e Colite Ulcerativa chegam ao mercado
Por Valquíria Sganzerla


Basta pensar que há cerca de 10 anos os pacientes que sofriam com os sintomas das doenças inflamatórias intestinais não podiam contar com nenhum medica¬mento que lhes trouxesse alívio para as suas crises de diarréia, febre e dor abdominal, o que se está assistindo hoje no mercado farmacêutico destinado a esses diag¬nósticos é uma verdadeira festa. Acaba de chegar no Brasil, com a aprovação da ANVISA, a Agência de Vigi¬lância Sanitária, o tão aguardado Humira, o anti-TNF total¬mente humanizado, que está indicado para doença de Crohn, nos casos de moderado a severo, e que tem trazido benefícios para alguns portadores desta doença que já faziam uso deste medicamento em virtude de ele ter sido aprovado, anteriormente, para casos de artrite reumatóide. Agora, acabou de uma vez por to¬das a preocupação desses pacientes que, muitas vezes, tiveram que entrar com mandados judiciais para obter o Humira. Este é o segundo anti-TNF a desembarcar por aqui. O primeiro medicamento biológico anti-TNF aprovado pela Anvisa foi o Infliximabe, ou melhor, o Remicade, que chegou em 1998, trazendo uma grande melhora na qualidade de vida dos pacientes. “O Remicade é uma poderosa alternativa para os casos graves da doença de Crohn ou para aqueles casos que não respondem aos tratamentos convencionais”, afirma o Dr. Flavio Steinwurz, gastroenterologista presi¬dente da ABCD. “O Remicade é capaz de prolongar a remis¬são de sintomas, ajudando na cicatrização da mu¬cosa intestinal, o que pode evitar a necessidade de cirurgia para a retirada de uma parte do intestino”, com¬ple¬menta o presidente da ABCD.
Vale lembrar que TNF-alfa é uma citocina(ou proteína) que promove a inflamação no intestino e em outros órgãos e tecidos do corpo. Ela tem um papel deci¬sivo na doença de Crohn porque induz à produção de outras citocinas e, para combatê-la, os medicamentos anti-TNF têm papel fundamental. Em geral com o Remicade, o resultado dos tratamentos foi tamanho que, há dois anos, o Infliximabe foi aprovado também para colite ulcerativa e pouco tempo depois, para o uso em crianças. Somente este ano a European Medicines Agency, a EMEA, a agência que regula o setor de medica¬mentos na Europa, aprovou o Remicade para pacientes com a doença de Crohn que não respondem adequa¬da¬mente às terapias convencionais com o uso de corti¬cóides ou imunossupressores. A chegada do Humira mostra a revolução, no bom sentido, que estes medicamentos biológicos estão fazendo no mercado, mantendo cada vez mais aquecida a indústria farmacêutica, espe¬cial¬mente voltada para as doenças que não têm cura, como é o caso das inflamatórias intestinais. “Se ainda não se conseguiu descobrir o que causa a doença de Crohn, sem dúvida nenhuma, o tratamento para esta doença está se aperfeiçoando de uma forma muito inte¬ressante com base no maior conhecimento da fisio¬pa¬tologia da doença”, diz a Dra. Andréa Vieira, médica-assistente da Clínica de Gastroenterologia do Departa¬mento de Medicina da Santa Casa de São Paulo. “Descobriu-se que o TNF era uma citocina pré-inflamatória im¬portante na gênese da doença e antes sequer sabíamos que existia o TNF. Com o advento dos medicamentos biológicos estão chegando outras drogas e ainda tem muita coisa que provavelmente vai ser lançada”, cha¬ma a atenção a médica. Estão confirmados os lança¬mentos do Tysabri, cujo princípio ativo é o Natali¬zu¬mabe, que inibe a migração de leucócitos, e do Certolizumabe Pegol, que se chamará Cimzia, mas existem muitos outros que estão sendo estudados, alguns deles que são somente proteínas(veja tabela). “Hoje é valo¬rizado não só o paciente deixar de ter sintomas e seus exames de laboratório estarem normais, como é fun¬damental que haja cicatrização comprovada pelo exame de endoscopia, como a que os biológicos propor¬cionam”, diz o Dr. Flavio Steinwurz. “Parece não haver ne¬nhuma dúvida de que os medicamentos biológicos são superiores aos outros convencionais no que se refere à cicatrização endoscópica”, ressalta o médico.
O quadro das doenças inflamatórias intestinais está, de fato, mudando a uma velocidade bastante acelerada e os cientistas de centros do mundo todo não se can¬sam de estudar a fisiopatologia das doenças para obter uma melhor adequação das terapias que são in¬dicadas aos pacientes. Os estudos já mostraram que há um monte de células envolvidas no processo de inflamação do intestino, como as interleucinas, a inter¬leucina 2, a interleucina 12, a CD3, a CD4 e até o TNF(é um monte mesmo!) e, na proporção de causa e efeito, os médicos conseguem controlar muito mais as doen¬ças inflamatórias intestinais, indicando menos cirurgias do que eles faziam no passado. “Cada vez mais vão aparecer medicações mais aperfeiçoadas, com melhores formas de aplicação e com menos efeitos colaterais”, diz a Dra. Andréa. Esta é a esperança que todos os pacientes têm, até para não ficarem à mercê de uma medicação que tem vida útil curta, levando-se em conta que esses medicamentos, depois de algum tempo de uso, deixam de ter o mesmo efeito do início das aplicações. “O estudo de citocinas e de mediadores inflamatórios tem sido importante tanto para a compreensão dos processos inflamatórios crônicos intestinais quanto para a possibilidade de intervenção terapêutica. A terapia biológica oferece uma vantagem sobre as medicações convencionais empregadas no tratamento das doenças inflamatórias intestinais por apresentar uma atuação mais focada”, avalia a Dra. Cyrla Zaltman, profes¬sora adjunta de Gastroen¬te¬ro¬logia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e uma das médicas res¬ponsáveis pelo ambulatório de DII do Hospital Univer¬sitário HUCFF-UFRJ e também, médica responsável pela filial da ABCD na capital carioca. “Diferente dos corticóides que tendem a suprimir o sistema imune do paciente por inteiro, provocando importantes efeitos colaterais, os agentes biológicos atuam seletivamente contra proteínas que estão em excesso ou que estão deficientes, provocando as doenças inflamatórias intestinais”, conclui a Dra Cyrla.

Dois anos atrás, a ABCD em Foco contou a história de Thereza Priscila, a garota de Fortaleza que, desde os dois anos de idade, convive com um tipo muito agressivo da doença de Crohn. Depois de seis anos utilizando o Remicade, este remédio deixou de fazer o efeito esperado e a chegada do Humira foi uma bênção na sua vida. Primeiro porque, apesar de já ser colos¬to¬mi¬zada, as crises da doença ainda persistem e depois, porque ela recebeu o novo medicamento através da doação de uma paciente bastante generosa. Até hoje, sua famí¬lia agradece a solidariedade recebida porque, caso contrário, não poderia adquirir o Humira(cerca de R$ 7.000 a dose). “No início, o Remicade foi um grande sucesso, mas com o passar do tempo, o organismo de Thereza acostumou e não mostrou mais efeito algum. Depois de três aplicações do Humira, não só este me¬di¬ca¬mento controlou as crises, como diminuiu muito as inter¬nações”, conta a sua mãe, Antonia Rejane, que sempre acompanha a filha nas suas viagens quinzenais à São Paulo para fazer a aplicação do medicamento. “É só uma picadinha subcutânea na barriga e logo as crises vão embora e a vida volta ao normal. O bom deste medi¬camento é que o paciente não precisa ficar internado, nem tem efeitos colaterais”, diz Rejane. Em novembro deste ano, Priscila vai fazer 15 anos e, conversando com a garota ou vendo as suas fotos, é difícil ima¬ginar as batalhas pelas quais ela passou para controlar a sua doença, tamanha é a sua doçura e delicadeza. Boa sorte sempre Priscila!

Esta é a história de João Marcos, nome fictício de um advogado de São Paulo de 29 anos que, por razões profissionais, prefere não ser identificado. Durante dois anos, João Marcos, que é portador da doença de Crohn, tomou Remicade e, como descobriu depois, o seu organismo parecia ter criado anticorpos contra este medicamento, pois já não fazia efeito algum sobre as suas constantes crises de diarréia. “A minha vida estava muito ruim. Não conseguia fazer nada, não podia estudar para o exame de promotor de justiça que eu pretendia, nem namorar com tran¬qüi¬lidade”, lembra João Marcos, que ficava imaginando um jeito de sair daquela situação e passar a ver a vida com mais otimismo. “Comecei por mudar de médico que, diante do meu quadro, me propôs experimentar um medicamento que ainda não estava aprovado no mercado brasileiro para a doença de Crohn. Aceitei a sugestão imediatamente, abandonei o concurso de promotor e entrei com uma ação na justiça para conseguir a medicação que, na época estava autorizada para artrite reumatóide”, conta João Marcos que, ganhou a causa e do final de 2006 até hoje fez aplicações quinzenais do Humira. “Este medicamento devolveu a minha vida”, comemora João Marcos, que, além de trabalhar em um escritório de advocacia, faz pós-graduação na sua área na GVLaw, a Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.

Valéria Vianna, uma jovem de 23 anos que mora em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, leva uma vida bastante atribulada: além de fazer duas faculdades, a de Biologia na UERJ e de Medicina Veterinária, no UFF(ela cancelou a matrícula na UniRio da terceira, de Nutrição), ela também trabalha duas vezes por semana no Ambulatório de DII do Hospital Universitário do Fundão-UFRJ. E ainda tem mais: uma vez por mês, Valéria faz parte de um grupo de pacientes ostomi¬zados(ela não é ostomizada), ajuda o grupo de auto-ajuda do ambulatório de DII do Fundão e ainda arruma um tempinho para ajudar na administração de um site sobre ostomia(www.ostomizados.com). Ufa é muita atribulação mesmo! Mas tudo isso é compreensível na vida de Valéria que, desde 1994, apresenta sintomas de retocolite que se encontra em um estágio delicado. Por conta da doença, ela já passou por 15 internações, fez quatro cirurgias(duas ressecções parciais e duas totais) e chegou a ficar quatro anos sem estudar depois que concluiu o ensino médio. Ela experimentou diversos medicamentos, como Prednisona e Azatioprina e tornou-se córtico-dependente, mas, em outubro de 2005, Valéria fez a primeira aplicação de Infliximabe, o medicamento que poderia lhe trazer novas perspectivas. “Tive uma melhora definitiva após o início do tratamento com Infliximabe”, diz Valéria que passou a ter um outro olhar sobre a vida, se aproximando de pessoas para quem ela pode prestar solidariedade com o seu trabalho voluntário e, ao mesmo tempo, correndo atrás dos estudos. “Embora a possibilidade da cirurgia de ostomia não esteja descartada, retomei muita coisa após o início do uso do Infliximabe. Eu ainda não desmamei do corticóide, mas já consegui uma grande melhora clínica”, conta Valéria.

Há 10 anos, Tatiane Faride Cohen, que é de São Paulo e tem 22 anos, sabe que tem a doença de Crohn, que foi diagnosticada em setembro de 1997, quando ela estava em plena adolescência. Conviver com os sintomas da diarréia até que não foi problema para ela que já conhecia a doença, pois a sua avó paterna tem Crohn, mas passar pelas fases de inchaço que a cortisona lhe provocava, aí a coisa ficou feia. ”Foi a pior época da minha vida porque não é nada fácil para uma adolescente engordar 10 quilos e a gordura que a cortisona provoca, além de muito feia, é diferente”, diz Tatiane que só se livrou desta medicação quando lhe indicaram o Remicade. “Só que eu não passei bem nas duas aplicações que fiz: na primeira, tive herpes e na segunda, além de herpes, eu tive uma reação muito forte enquanto estava tomando o Remicade que me deixou bastante assustada”, conta a jovem que tem um namorado que lhe dá muito apoio. Desde outubro do ano passado, Tatiane está fazendo, a cada duas semanas, aplicações do Humira, sendo que, no começo, isso foi também graças a uma liminar judicial. “A aplicação subcutânea é ardida e dolorosa, mas 30 segundos depois você não sente mais nada”, conta Tatiane, que é formada em Economia e trabalha numa construtora com pesquisa de mercado. Embora os médicos digam que a doença de Crohn não tem, comprovadamente, nenhuma influência genética, além da sua avó e do seu próprio caso, a família descobriu, há três anos, que o seu irmão de 21 anos também é portador de Crohn. Para felicidade geral, ele está muito bem.

MAPA DA ESPERANÇA

Alguns desses medicamentos, como o Infliximabe e o Natalizumabe já estão no mercado brasileiro; outros, porém, ainda não saíram da fase de estudos e testes clínicos, o que mostra que, nos próximos anos, os pacientes de DII terão muitas opções de tratamento. Confira!