Encontro marcado

Uma crise do Crohn mostrou a Michel o amor do pai e o valor da sua família

A primeira vista, a vida de Michel Amaral Duarte, um jovem mineiro, de 26 anos, que é arquiteto e mora em Belo Horizonte só tem como diferencial o fato de ele trabalhar no mesmo lugar, a Secretaria de Estado de Defesa Social, desde os seus 19 anos. Mas levando-se em conta a onda de desemprego que assola o país e, o que é pior do que isso, o fato de Michel ser portador da doença de Crohn, não fica difícil imaginar o número de vezes em que o rapaz precisou se ausentar do trabalho em função de crises de diarréia e internações. Mas a vida de Michel sempre contou com uma boa dose de sorte, ou de ajuda do destino, ou da bênção dos astros, ou do plano espiritual, enfim, seja lá o que for. Primeiro, porque ele começou neste emprego como digitador, um cargo pouco valorizado, e ao longo do tempo passou por vários setores deste órgão estadual, aprendendo outros serviços e garantindo mais conhecimento para si mesmo. Resultado deste empenho: ele foi promovido a um cargo melhor, chegando a supervisor de toda a área administrativa da unidade, onde está atualmente. “Acredito que os primeiros sintomas de inflamação no intestino surgiram devido ao stress causado pelo trabalho intenso, associado ao ritmo puxado da faculdade e a problemas familiares e em relacionamentos afetivos”, conta Michel que cursou a faculdade no turno da noite, conciliando com a jornada diária de trabalho de oito horas.
Com relação à sua doença, diagnosticada em 2003, a situação se agravou no início de 2005, quando o rapaz voltou a sentir dores abdominais que foram se tornando intensas e cada vez mais freqüentes. Foi nesta época que uma colega de trabalho o convidou para assistir a uma palestra que tinha como tema as doenças inflamatórias intestinais. “Eu estava muito ruim, dezessete quilos mais magro (ele tem 1,72m e normalmente pesa 57 quilos), mas insistia em trabalhar e estar presente no escritório todos os dias, mesmo não tendo forças para subir sequer um degrau de uma simples escada”, lembra Michel que, naquele encontro médico descobriu uma profissional que realmente entendia de doença de Crohn e que lhe indicou outros caminhos de tratamento, como a cirurgia para retirada de uma parte do íleo-intestinal. “Os médicos disseram que foi retirada uma parte muito pequena, mas fiquei 41 dias internado no hospital. Nunca em toda minha vida havia ficado tanto tempo longe de casa e, o que foi pior, preso em um hospital. Os dias eram intermináveis”, lembra o rapaz.
Novamente contando com um empurrãozinho do destino, ou com a bênção dos astros, ou do plano espiritual, foi durante este período que Michel teve uma surpresa que o deixou bastante feliz: seu pai, que havia se distanciado da família desde que se separou da sua mãe, quando ele tinha 9 anos de idade, e que ele chegou a ficar dois anos sem ver, passou a visitá-lo no hospital todos os dias. “Ele demonstrou uma grande preocupação comigo. Trocamos confidências, rimos juntos, choramos juntos e em poucos dias, conseguimos dizer “Eu te amo”, um pro outro, com uma facilidade incrível”, conta Michel.

Atualmente, Michel está bem e não tem nenhuma queixa. Toma 6 comprimidos de 400mg de Mesalazina diariamente (é nessas ocasiões que ele se lembra do Crohn) e vai ao consultório médico só para conversar e levar exames de sangue de rotina. “Faço questão de continuar trabalhando para ocupar e minha mente e garantir minha independência financeira, mas aprendi que não devo fazer mais do que eu consigo, exaurindo meu corpo e tirando meu sono, apenas para garantir o meu emprego e o bom desempenho do meu trabalho. Agora faço tudo dentro dos meus limites. Passei a valorizar muito mais meus amigos e familiares”, diz Michel, que é solteiro e mora com sua mãe, a irmã de 21 anos e seus avós. Como todo jovem, ele também gosta do bate-papo com amigos, de freqüentar barzinhos e de ouvir música de praticamente todos os gêneros musicais.