Doença de Crohn e Desnutriçã
Por Céres Maltz Bin*
A Doença de Crohn pode levar a uma desnutrição protéica calórica devido ao comprometimento das funções digestivas e absortivas do intestino delgado associadas à influência de tabus alimentares. Pacientes com Crohn desenvolvem desnutrição lenta por longo período de tempo, e, portanto, podem sofrer múltiplas e graves deficiências nutricionais.
A orientação nutricional é muito importante também na fase de remissão da doença de Crohn. Esta foi a conclusão de um trabalho de mestrado realizado no Hospital das Clínicas de Porto Alegre com 75 pacientes com doença de Crohn, sem atividade.
Os pacientes precisam de um acompanhamento adequado para ter uma dieta que deve ser balanceada, contendo todos os principais grupos de alimentos (carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais). O que é importante e fundamental na hora de comer para quem tem doença de Crohn é evitar restrições exageradas e sem propósito a alguns alimentos. Levar uma vida saudável e uma alimentação adequada é o ponto de partida para o sucesso do tratamento realizado. Devido a isso, a conduta dietoterápica para pacientes que têm este diagnóstico deve ser individualizada, pois cada organismo funciona de uma maneira; o que faz bem para um paciente pode fazer mal para outro.
Os médicos e nutricionistas são unânimes em afirmar que a alimentação não provoca as crises, nem tira o paciente delas, mas pode, sim, prejudicar a situação.
O inquérito dietético é parte fundamental na avaliação do estado nutricional do nosso paciente, pois permite a identificação de deficiências de macro e micronutrientes, além do conhecimento dos hábitos alimentares. Alguns pesquisadores têm estudado a possibilidade de estimar a ingestão diária do individuo e de populações, em um determinado período de tempo, previamente estabelecido, através de métodos dietéticos. São eles: questionário de freqüência alimentar durante sete dias, recordatório de 24 horas e inquérito alimentar de 72 horas.
Na pesquisa realizada no HCPA, utilizamos o inquérito alimentar de 72 horas. Cada paciente registrou o que comia, a que horas comia e a quantidade do que era ingerido durante dois dias na semana e um dia no final de semana. Para o cálculo do recordatório foi utilizado o programa Nutwin da Escola Paulista de Medicina, em que concluímos:
• na amostra estudada foi comprovado um alto consumo de carne, compatível com os hábitos alimentares de nossa população, dieta rica em carne;
• observou–se um baixo consumo de gorduras, provavelmente relacionado à deficiência de vitaminas lipossolúveis A e D, encontradas nos pacientes examinados;
• cerca de 20% dos pacientes consumiam menos calorias que o GEB estimado;
• 63 pacientes dos 75 que foram estudados (84,0%) tinham um consumo abaixo do normal de cálcio;
• 40 pacientes dos 75 estudados (53,3%) tinham um consumo abaixo do normal de ferro;
• 66 pacientes dos 75 estudados (88,0%) tinham um consumo abaixo do normal de vitamina A;
• 62 pacientes dos 75 estudados (82,7%) tinham um consumo abaixo do normal de vitamina D;
• 66 pacientes dos 75 estudados (88,0%) tinham um consumo abaixo do normal de Zinco.
Apesar de não ter a doença em atividade, esses pacientes estavam com a ingestão de macro e micronutrientes muito alterada. A boa nutrição é essencial nas doenças crônicas, principalmente naquelas em que a patologia é de caráter inflamatório, podendo verificar-se sinais de má absorção. Devido a isso, uma boa alimentação se faz necessária, tanto para as fases agudas como para os períodos em que não há atividade da doença.
Nutricionista, mestre em Gastroenterologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul