Instabilidade no casamento

Os pacientes não gostam de admitir, mas o Crohn pode interferir na sua vida sexual

A vida de Eliane Pereira, 32 anos, que é de Garopaba, cidade a 70 Km de Florianópolis, em Santa Catarina, não fugiu à regra do histórico que os pacientes da doen­ça de Crohn geralmente têm para contar: consulta a vá­rios gastroenterologistas, várias endoscopias, exames de fezes repetidos e 9 anos de diarréia diária sentindo muita fraqueza. Alguns dias chegava a ir de 10 a 12 ve­zes ao banheiro, mas, apesar desses sintomas, os médi­cos, não sabiam dizer o que ela tinha, muito menos fa­zer o seu diagnóstico. Chegaram até a pensar que po­de­ria se tratar da doença celíaca, mas o resultado do exa­me que confirmaria esta suspeita foi negativo. Já não tinha mais apetite para se alimentar e passava os dias com muita febre. Por fim, vieram as dores ­insuportáveis no abdome que a impediam de ficar de pé ou mesmo de sentar, pois eram muito fortes. “Quiseram me ­indicar um psicólogo, porque as pessoas achavam que as ­dores que eu sentia não eram reais”, lamenta Eliane.
Emocionalmente falando, Eliane estava completamente desanimada. Quase não saía mais de casa. Fazer passeios longos? Nem pensar. Ela vivia de mau humor e se irritava facilmente com qualquer pessoa. Ninguém ­ficava impune, nem amigos, nem seus parentes. O casa­mento com Emerson, 34 anos, seu primeiro e único na­morado, ba­lançou. “Chegamos quase à separação. Nós vivíamos bri­­gando e eu sempre estava indisposta para os ­momentos de carinho entre nós, reclamando de dor aqui e dor ali, em várias partes do meu corpo. Era tão desconfortável que o meu interesse por sexo aca­bou”, conta Eliane que até chegou a mandá-lo embo­ra de casa. Ele foi e ficou por uma semana. Hoje ela re­conhece que estava muito cha­ta, ranzinza e que a falta de sexo contribuiu para criar o clima de instabilidade do seu casamento, mas pen­­sar em sexo naquela situa­ção em que estava, com dor e diarréia, era impossível. “Quanto mais longe ele fi­casse de mim, era melhor” lem­bra. Eliana admite também que Emerson esteve sempre ao seu lado durante todos aqueles anos de sofrimen­to (Eles estão casados há dez anos).

As coisas finalmente melhoraram em 2004, ­quando, como ela diz, “encontrou uma luz no fim do túnel”. Por indicação do ginecologista da sua melhor amiga, Adria­na, ela descobriu um gastroenterologista, que rapi­da­­mente chegou ao diagnóstico dos seus sintomas: doença de Crohn. Após fazer o exame de colonoscopia veio a con­firmação. “A notícia caiu como uma bomba, para mim, meu marido e minha família. Eu nunca ­tinha ouvi­do falar dessa doença, e ficou pior quando o médi­co disse que ela não tem cura. Ao mesmo tempo em que ele explicava que a doença estava muito avançada e que eu poderia precisar fazer uma cirurgia, ele me dei­xou com esperanças quando disse que era possível tratá-la e deixar que os sintomas ficassem em remissão”, completa. Após um tratamento rigoroso tomando Pen­ta­sa e cor­ti­so­na, veio a fase em que ela ficou muito in­chada e tornou-se cortico-dependente, ou seja, cada vez que diminuía a dose da cortisona para tirá-la de uma vez os sinto­mas voltavam. “Nenhuma roupa que eu tinha me servia e a minha auto-estima despencou”, lem­bra. Hoje, Eliane toma azatioprina (3 cápsulas de 50 mg por dia) e faz aplicação bimestral de Remicade, o medi­camento que lhe trouxe a “vida” novamente, como ela diz. Os dois medicamentos ela consegue gratuitamente do Governo. Mas o melhor, segundo ela, é que com a doença descoberta e agora acompanhada de perto ela tornou-se uma outra pessoa. Faz caminhada, anda de bicicleta, come de tudo, controlando apenas o que lhe faz mal e tudo isso, na maioria das vezes, de bom humor. “Antes eu não comia nada e não falava com ninguém. Agora ­estou mais sociável e o meu casamento está muuuuito melhor. Tanto é que eu estou tentando engravidar, pois queremos muito ter um bebê”, diz Eliane. A ABCD em Foco torce para que ela tenha uma gravidez feliz e que chegue um bebê muito sadio. Ao mesmo tempo, agradece pela entrevista, sobretudo por Eliane ter exposto problemas tão íntimos que ela e seu marido souberam vencer.