Os sintomas muitas vezes podem ser os mesmos, diarréia e dor abdominal, causados pela inflamação crônica que ocorre no intestino dos pacientes que têm doença de Crohn ou colite ulcerativa. Muitas vezes também os pacientes dessas doenças inflamatórias intestinais até podem ser tratados com o mesmo medicamento. Mas a semelhança entre elas pára por aí. Um estudo realizado por médicos do Max Planck Institute of Infection Biology, na Alemanha, e publicado na edição de dezembro do Journal of Clinical Investigation, mostrou que a expressão do proteosoma envolvido na regulação da inflamação da mucosa intestinal dos pacientes de Crohn é diferente da que ocorre na mucosa dos pacientes de colite ulcerativa. “A doença inflamatória intestinal ocorre em conseqüência de uma resposta exagerada do sistema imune às bactérias presentes no intestino. Quando as células do sistema imune são ativadas, elas produzem uma substância que desencadeia a resposta inflamatória e é conhecida como citoquinas. As citoquinas são proteínas de baixo peso que têm a propriedade de atuar sobre outras células do organismo pertencentes ou não ao sistema imunológico”, explica o Dr. André Zonetti de Arruda Leite, gastroenterologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O Dr. Zonetti tem mais informações sobre este assunto: “O volume de citoquinas secretadas e liberadas pelas células produtoras é pequeno e a sua liberação ocorre por um período bastante curto. Os seus efeitos, porém, são desproporcionalmente acentuados: as citoquinas lançadas na circulação unem-se a receptores específicos existentes na membrana das células que vão estimular, iniciando, assim, um efeito cascata de transmissão intracelular de um sinal capaz de ativar uma determinada resposta celular.
Esta sinalização intracelular é regulada pelos proteosomas que, em última análise, facilitam ou dificultam o estímulo de um determinado sinal”, diz o Dr. Zonetti. Ainda segundo o médico, os autores deste trabalho mostraram que os probióticos VSL#3, que são bactérias selecionadas, foram capazes de alterar os proteosomas em modelos experimentais, de maneira a reduzirem a resposta inflamatória exagerada que ocorre neste modelo de doença de Crohn. “Este trabalho esclarece mais uma etapa do complexo mecanismo envolvido na resposta inflamatória da DII e pode permitir no futuro a exploração de medicações que atuem de uma maneira mais específica sobre esta etapa”, diz o Dr. Zonetti.
Explicação 1: proteosoma é uma parte do RNA ribossômico envolvido na produção de proteínas intracelulares e, neste trabalho especificamente, as proteínas que diferiram eram endopeptidases responsáveis pela hidrólise do inibidor e do precursor do NF-kB no citoplasma das células.
Explicação 2: esta nota é dedicada à comunidade médico-científica.
Para conhecimento geral
No final do ano passado, a Federação Européia das Associações de Crohn e Colite Ulcerativa apresentou em Copenhague, na Dinamarca, os resultados da primeira pesquisa que foi feita com cerca de 5.000 pacientes dessas doenças inflamatórias intestinais, revelando mais do que apenas sintomas, como dores abdominais e diarréia. Na verdade, parece que esses pacientes “olharam” para a câmara da verdade e disseram o que realmente pensam e sentem sobre como é conviver com esses diagnósticos de doenças. Vamos a algumas respostas:
1. Enquanto alguns pacientes têm bom nível de satisfação dos seus tratamentos, incluindo as medicações, outro grande número deles admite que esses sintomas continuam afetando as suas vidas diariamente, comprometendo, inclusive, o seu trabalho;
2. Por outro lado, não houve empate nas avaliações das cirurgias como forma de tratamento: enquanto muitos disseram que melhoraram depois de passar por uma cirurgia, um número ainda maior confirmou que teve novas crises de sintomas, relatando sérias complicações.
Pode-se dizer que a maioria dos pacientes (60% de colite ulcerativa e 47% de Crohn) tinha experimentado os sintomas das doenças durante um ano antes de procurar um gastroenterologista, enquanto que 17% com colite ulcerativa e 24% com Crohn demoraram mais de 5 anos para procurar um médico. Finalmente, somente 52% dos pacientes de colite ulcerativa e 59% dos pacientes com Crohn tinham falado com seus médicos sobre o impacto que os sintomas das doenças tinham causado nas suas vidas. Sobre os medicamentos mais usados pelos pacientes, os grupos se dividiram segundo suas doenças. Para os portadores de colite ulcerativa apareceram os imunomoduladores, os esteróides e os antiinflamatórios 5ASA como os mais usados, sendo que esses últimos 66% dos pacientes adotam. Já os pacientes de Crohn usam numa escala crescente os esteróides, os imunomoduladores e os antiinflamatórios aparecendo em 48% dos casos. Sobre o Infliximabe mais de 77% dos pacientes de Crohn utilizavam e relataram que melhoraram muito com este tratamento.
Longe do stress
Que as doenças inflamatórias intestinais têm um forte componente emocional já era mais do que sabido, tanto pelos médicos, quanto pelos próprios pacientes. Agora, porém, está confirmado que o stress não só é ruim para os pacientes com DII como piora bastante o quadro dos pacientes de colite ulcerativa. É que cerca de 25 pacientes com esta doença controlada e 11 voluntários saudáveis participaram de um teste experimental de stress. Depois de se manterem em situações de stress, tendo o seu físico monitorado o tempo todo, incluindo o batimento do seu pulso e a pressão arterial, os pesquisadores constataram que o stress também reduzia em 22% o fluxo sanguíneo da mucosa retal. Quem poderia imaginar?