Entrevista do Mês

Cada paciente é único

Um especialista de Israel fala sobre a sua experiência em pesquisas e diz que a manifestação da DII é diferente em cada doente


Profissionalmente, o Dr. Daniel Rachmilewitz sempre se voltou para as doenças inflamatórias intestinais. Praticamente recém-formado na Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos, ele foi indicado para liderar a ­Divisão de Gastro­ente­rologia do Hos­pital Universitário de Hadassah, de Jerusalém, em Israel. Atual­men­te, ele é professor e presidente da Divisão de Me­di­cina do Centro Médico Shaare Zedek, na mesma cidade. Em sua vida acadêmica seu maior inte­resse é a DII (Doença Inflamatória Intestinal), tanto que está a frente de um laboratório de pesquisas que trata principalmente desta área. Como membro da orga­nização Internacional de Doenças Inflamatórias Intes­tinais (IOIBD), ele orga­niza, desde 1981, sim­pó­sios internacionais sobre este assunto a cada quatro anos.
Ocupadíssimo por conta de seus compromissos profissionais no hospital e em viagens para even­tos cien­tíficos, o Dr. Rachmilewitz abriu um espa­ço em sua agen­da para falar com a ABCD em Foco.
Sim­pa­­ti­cís­simo, fez questão de dizer que tem uma ­esposa maravi­lhosa, duas filhas casadas e 5 netos. Vamos à entrevista, em que o médico, hoje com 65 anos de idade, ­passa toda a experiência de uma vida:

Alguns estudos de epidemiologia de DII sugerem que o fator mais importante para explicar a fre­qüên­cia diferente entre populações diversas é a pre­­disposição genética. Como o senhor vê isso?
Não há dúvida de que o fator genético tem um importante papel na predisposição das doen­ças infla­matórias intestinais. Isso está baseado no fato de que 20% dos pacientes com DII tem pelo menos um membro da família que também tem a doença. Os genes sempre são identificados, mas, infelizmente em apenas 25% dos ­casos. Também está claro que há mais de um gene envolvido neste processo e que o fator genético não é identificado em todas as doenças inflamatórias intestinais.
 
Sabe-se que alguns fatores podem contribuir para o desenvolvimento dessas doenças, como o meio ambiente e certos hábitos alimentares, sobretudo a junk food. Em sua opinião, quais desses fatores são os mais agressivos para os pacientes?
Até onde se sabe, pouquíssimos aspectos do meio ambiente foram identificados. Um deles é fumar, o que é benéfico para quem tem colite ulcerativa e faz mal para quem tem a doença de Crohn. Os hábitos alimen­tares, incluindo a junk food, não estão envolvidos.

O senhor acredita que a suscetibilidade genética ainda é o fator mais importante para o aparecimento de novos casos?
Apesar de nem todos os fatores genéticos terem sido identificados, a genética é, sim, crucial. O histó­rico genético, mais os fatores do meio ambiente, são responsáveis por vários casos que se vê atualmente. Está associado também o fato de que os médicos estão mais infor­mados com relação às doenças inflamatórias intestinais e os diagnósticos são feitos precocemente.

Nos últimos anos, o aparecimento dessas doen­ças está mesmo maior ou tem sido assim ­devido à comunidade médica estar mais e melhor preparada para fazer os diagnósticos?
Definitivamente é a segunda opção. Os médi­cos ­estão mais informados sobre essas doenças.

Existe um padrão de evolução no quadro ­clínico dos pacientes ou das complicações que essas doen­ças provocam?
A manifestação de uma doença inflamatória intestinal é diferente em cada pessoa, apesar de haver uma ten­dência de sintomas que é compartilhada por muitos pacientes.

Existe uma tendência de se classificar a doen­ça de Crohn e a colite ulcerativa como uma do­en­ça só. O senhor concorda com isso ou acha que elas são doenças similares que têm as suas próprias par­ticularidades?
A doença de Crohn e a colite ulcerativa são duas doen­­ças diferentes com muitos aspectos em comum.

Pelo que se sabe, a maior incidência de DII ­ocorre nos países mais ricos. O senhor tem algu­ma expli­cação para isso?
A explicação é a teoria de higiene, segundo a qual a su­jeira poderia proteger as pessoas da inflamação intes­tinal. Portanto, as bactérias presentes em grandes quantidades no trato ­digestivo das pessoas oriundas de ­países de baixa renda poderiam ser protetoras.

Temos informações de que o número de casos de DII tem aumentado nas populações mais jovens, de crianças e adolescentes. O senhor pode dar algu­ma explicação para isso?
As duas doenças têm afetado pacientes que estão na sua segunda década de vida ou na terceira e esta é a razão para o número de casos em pacientes jovens ­estar alto.

Qual é o medicamento mais indicado para o tra­ta­mento de manutenção da doença de Crohn?
O melhor medicamento para manter a doença de Crohn em remissão é a azatioprina (imu­nos­supressor).

A respeito dos testes clínicos que vêm sendo ­feitos com novos medicamentos, o senhor acredita que eles representam uma esperança de tratamento para essas doenças?
Os novos medicamentos estão prometendo, embora nenhum deles tenha mostrado que pode levar à cura da maioria dos pacientes. Eles dão esperança aos pacien­tes que não respondem aos medicamentos que normalmente são mais indicados.

Qual é a sua opinião sobre o uso de imunos­su­pres­sores e do infliximabe nas doenças inflama­tó­rias intestinais?

Até o momento, os imunossupressores são a melhor indicação para manter em remissão tanto os pa­cientes da doença de Crohn quanto os de colite ulce­ra­tiva que recidivam muito com o uso apenas de derivados do 5-ASA (mesalazina). O infliximabe também é muito po­tente para levar à indução de remissão de sintomas e para tratar de fístulas nos pacientes de Crohn. Ele é igual­mente eficaz nos pacientes que têm muitas crises enquanto estão sendo tratados com outros medicamentos.