Tendência indesejada
Cresce o número de crianças e adolescentes com DII


Esta é uma notícia que ninguém gostaria de dar: de 1991 a 2004 houve um aumento na incidência da doen­ça inflamatória intestinal em crianças e adolescentes. “Num estudo recente o ambulatório de Gastroente­ro­lo­gia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM) demonstrou essa tendência, estatisticamente crescente, e mais especificamente entre as crianças com até 10 anos de idade”, diz a Dra. Vera Lucia Sdepanian, professora Adjunta da Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica da UNIFESP-EPM (veja os quadros a seguir).
Por que será que isso está acontecendo? Segundo a Dra. Vera Lucia, é provável que sejam vários os fatores responsáveis pelo aumento do número de casos de doen­ça inflamatória intestinal e, por incrível que pareça, ­alguns deles estão relacionados ao desenvolvimento do país onde o paciente mora. “Na medida em que há me­lhoria das condições de saneamento básico notamos redução dos casos de diarréia de causa infecciosa e, por outro lado, evidenciamos o aumento dos casos de diar­réia de causa inflamatória”, diz a médica. “Possivelmen­te, esta seja uma das razões do aumento da prevalência da DII na cidade de São Paulo.” A alimentação ­também pode ter a ver com o crescimento das doenças de natureza imunológica, como é o caso da doença inflamatória intestinal, pois o consumo de alimentos industrializados acontece com mais freqüência nas regiões mais desenvolvidas. “Na realidade, essas afirmativas são apenas suposições para tentar explicar o aumento da incidência da DII no nosso país, mais especificamente nos grandes centros”, ressalta a Dra. Vera Lucia.
A Dra. Dorina Barbieri, professora do curso de Pós-Gra­duação do Departamento de Pediatria do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo, inclui um outro fator na explicação do aumento da DII. “Os pediatras estão dando mais atenção ao diagnós­ti­co precoce”, diz ela. “Eles já não demoram tanto para pen­sar que a causa das crises crônicas de diarréia dos seus pacientes pode ser uma das doenças inflamatórias intes­tinais e logo pedem uma colonoscopia, exame que fa­cilita o diagnóstico correto.” Há ainda outra informa­ção importante: até alguns anos atrás, era a retocolite que predominava nos diagnósticos - hoje o quadro mudou e é a doença de Crohn que está à frente.
Diante deste triste cenário, a única coisa que os pais e familiares podem fazer para se precaver de alguma ma­neira é prestar sempre atenção aos sinais de alerta das doenças inflamatórias intestinais, que, aliás, são mui­tos. O quadro clínico da doença de Crohn e da colite ulce­rativa é caracterizado por diarréia, dor abdominal e perda de peso. Logicamente, os pais não devem esperar que os sintomas evoluam para levar a criança ou o adolescente ao médico. Outro sinal de alerta é a ­diarréia prolongada por mais tempo e com a presença de ­sangue e ou muco nas fezes.
É relativamente normal que em alguns dias o intesti­no das crianças, sobretudo das que estão em fase de cres­cimento, esteja mais preguiçoso e não funcione mui­to bem. Ora são dias de ressecamento intestinal ou ­prisão de ventre, como se diz, ora são dias de diarréia, com seu intestino funcionando feito água. Se isso acontece uma vez ou outra, nenhum problema. Mas se essa de­sordem intestinal não for resolvida dentro de 10 dias, aí, sim, já se pode imaginar uma luzinha vermelha piscando, como um aviso de que alguma coisa não vai mui­to bem com a saúde daquela criança. É hora, ­então, de investigar uma causa não infecciosa para a diarréia. Outras queixas comuns relacionadas à DII são as mani­festações extra intestinais, como dor e ou inflamação nas articulações, presença de nódulos avermelhados na pele, inflamação dos olhos, problemas no fígado, no pân­creas ou até osteoporose. Há ainda um sintoma bas­tan­te característico da doença de Crohn: a fístula peri­anal, que sempre é precedida por um abscesso. Muitas vezes aparece àquela ferida no corpo do filho e os pais não fazem a menor idéia do que se trata. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais fácil será tratar do pro­blema - principalmente porque os jovens em geral têm dificuldade para lidar com as doenças ­inflamatórias intestinais. “As crianças não gostam de fazer repouso e os adolescentes se revoltam com o seu diagnóstico, o que é compreensível, pois essas doenças podem limitar as suas atividades sociais”, diz a Dra. Dorina Barbieri. “A doença de Crohn, por exemplo, pode provocar fístu­las, o que acaba atrapalhando o uso do biquíni por uma paciente jovem.”
Agora vai uma notícia boa: o laboratório Ferring, com o apoio da ABCD (Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn), lançou em agosto último um guia para os pais de portadores de DII. Bastante útil, a publicação esclarece as principais dúvidas e temo­res sobre como lidar com a criança ou adolescente que tem uma doença inflamatória. O que é a retocolite ulce­ra­ti­va? E a doença de Crohn? Que informações devo pas­sar para o meu filho? Ele pode freqüentar a escola ou praticar esporte? É possível levar uma vida normal com esse diagnóstico? Esses e outros esclarecimentos estão disponíveis nesse guia para ajudar ­principalmente os pais e familiares novatos no assunto. A publicação pode ser encontrada em salas de espera de gastroentero­­logistas, na sede da ABCD (Al. Lorena, 1304, cj. 802, São Paulo, SP) ou na própria Ferring (0800 772-4656).