Coluna do cólon
O risco da perfuração retal

Os pacientes de Crohn e de colite ulcerativa sabem que, de vez em quando, precisam fazer um exame de co­lonoscopia para ver se as paredes do seu intestino ­es­tão livres de inflamações. Fala-se muito da co­lo­nos­co­­pia. Fala-se que seu preparo é demorado – de fato, é qua­se um dia perdido; que além de demorado é desagra­dá­vel e desconfortável – também é verdade, pois o intes­ti­no tem que ser completamente esvaziado e limpo; que é­ um exame agressivo – na verdade, agressivo é o seu pre­­paro já que o exame em si nem se percebe, pois é fei­to com a pessoa sedada. Mas o que pouco se fala é se há­ ou não risco de o intestino ser perfurado durante o exa­me.
Se você nunca pensou nisso não se assuste à-toa, pois o risco de perfuração intestinal na colonoscopia é qua­se nulo.
Para esclarecer essa questão do risco, a ABCD em Foco conversou com dois médicos especialistas. “A co­lo­­noscopia é encarada como um procedimento simples,­ de­ baixa morbidade”, diz o Dr. Paulo Roberto Arruda Alves, professor associado do Departamento de Gastro­­entrologia da Faculdade de Medicina da USP, médico­ do serviço de cirurgia do colo e reto do Hospital das Clí­nicas e colonoscopista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. “E como todo método de imagem, é ‘operador de­pendente’, ou seja, para ser bem feito depende de téc­nica adequada, cuidado na execução e experiência na­ interpretação.” Um dos aspectos mais importantes nos­ cuidados técnicos é o de evitar complicações durante o exame, como a perfuração do reto.
“As perfurações retais durante a colonoscopia ocorrem raramente, apenas entre 0,02 a 0,23% dos casos, mas ocorrem”, afirma o Dr. Paulo Alves. As perfurações têm gravidade variada. Podem ser muito pequenas, quando são incompletas. E podem ser muito significativas, quando são perfurações em peritônio livre, com a introdução de contraste baritado ou fezes na ca­vi­dade. As perfurações mais graves requerem tratamento cirúrgico. Naturalmente, o ideal é evitar as perfurações, mas, quando acontecerem, nada é mais importante que agir rápido. “Duas coisas são muito importan­tes: introduzir a sonda cuidadosamente após o toque retal, e saber reconhecer prontamente uma perfuração”, diz o Dr. Paulo Alves.
O Dr. Jacob Szejnfeld, chefe do Departamento de Diag­nóstico por Imagem da Unifesp (Universidade Fe­de­ral de São Paulo), e diretor do Laboratório Cura Ima­gem e Diagnósticos concorda com o Dr. Paulo Alves: “É praticamente improvável e muito raro de acontecer uma perfuração, pois o esfíncter, o orifício anal, relaxa e a sonda passa para uma cavidade maior, que é o reto”, explica o Dr. Szejnfeld. “Mas se após o exame houver ma­nifestações de dor e febre, é importante que o pacien­te procure imediatamente um médico.”
Como vimos, é muito raro ocorrer uma perfuração durante o exame de colonoscopia e a ABCD em Foco não pretende, de maneira alguma, assustar o leitor. Por que então chamar a atenção para este assunto? Com a pa­lavra o Dr. Szejnfeld: “Ainda que o risco seja ­remoto, é melhor o paciente saber que ele existe. Isso tranqüiliza a nós, os médicos.” E dá um conselho bastante útil: “Não vale a pena se preocupar com essa possibilidade. Na hora de fazer o exame o paciente deve é lembrar dos benefícios da colonoscopia, estes sim, muito grandes”, diz o médico.

Ainda sobre o tratamento da retocolite ulcerativa
Mais algumas informações sobre a retocolite ulce­ra­ti­va, que pode afetar desde apenas o reto até todo o cólon. Quando, porém, há demora para se fazer o diag­nós­tico correto desta doença e, consequentemente iniciar o seu tratamento, o processo inflamatório no intes­tino pode piorar. “Para uma avaliação inicial, é feito um estudo endoscópico com biópsia, de forma a ­definir a cronicidade da doença e excluir outras causas de colite, como colite aguda autolimitante por agentes químicos, trauma, drogas e doenças sexualmente trans­mis­síveis”, explica a Dra. Marta Brenner Machado, gastroente­ro­lo­gis­ta responsável pela filial da ABCD em Porto Alegre (RS). Segundo a médica, o tratamento ideal deve ser ra­pidamente efetivo, ter poucos efeitos colaterais e manter o paciente em remissão prolongada dos sintomas. “No caso de proctite ou retite (doença localizada na por­ção final do intestino grosso) o uso de ­tratamento tó­pico atende a todas essas necessidades”, diz a ­médica. E para o alívio imediato dos sintomas? “Como mostra a tabela abaixo, a grande maioria dos pacientes res­pon­­de ao uso de supositórios de 5 ASA, aos cor­ti­cói­des tópicos ou, quando necessário, a associação de ambos.”

Saídas para os casos severos de retocolite
É muito raro um paciente com colite ulcerativa não res­ponder ao tratamento médico convencional normalmente sugerido, assim como está cada vez mais difícil alguém, hoje, ter indicação de colectomia (a remoção do intestino grosso). Ainda bem!! Na verdade, os médicos costumam ir adequando, passo a passo, o tratamento da colite ulcerativa segundo a resposta que o pa­ciente dá ao procedimento que lhe foi indicado. Inicialmente, os médicos costumam indicar o uso de cor­ti­­cóide oral, mas, se não houver melhora no quadro do paciente, é utilizada a corticoterapia venosa, que já demonstrou ser mais eficaz. A associação com antibio­ti­coterapia venosa é necessária para alguns casos. “Hoje dispomos da ciclosporina, um potente imunossupressor indicado inicialmente por via endovenosa e que deve ser utilizado só em centros com experiência no seu uso, pois necessita de acompanhamento dos níveis séricos da medicação”, diz a Dra. Genoile Oliveira Santana, coordenadora do ambulatório de DII do Hospital Uni­ver­sitário Professor Edgard Santos da UFBA (Universidade Federal da Bahia), onde é médica da equipe de Gas­troenterologia, professora da residência em Gastro­en­terologia e faz tese em DII.
No final do ano passado, inclusive, foi liberado pelo FDA, o órgão americano que controla o uso de medica­mentos, o uso do Infliximabe (Remicade) para os ­casos de colite ulcerativa. “Acreditamos que esta seja uma boa opção para os casos refratários”, diz a Dra. Ge­noile. “Vale ressaltar que o tratamento de formas graves da retocolite deve sempre ser realizado por especialistas com ampla experiência no assunto e atuem numa equipe multidisciplinar”, aconselha a médica.