Os efeitos da nutrição enteral
Conheça os resultados desta terapia para os pacientes
de doença inflamatória intestinal
Nos últimos anos, o tratamento das doenças inflamatórias intestinais tem apresentado significativas modificações, beneficiando e melhorando a qualidade de vida de inúmeros doentes de colite ulcerativa e de Crohn. Isto não está ligado somente ao surgimento de novos medicamentos no mercado, como freqüentemente se tem notícia. A informação que está em evidência nos últimos tempos é que a terapia nutricional enteral, aquela que por meio de uma sonda chega diretamente ao estômago ou ao intestino do paciente, é atualmente um método terapêutico importante, sobretudo na doença de Crohn.
A partir de um estudo feito por uma equipe de médicos da Universidade de Toronto, no Canadá, e publicado numa edição deste ano da revista Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, que abordou a importância da modificação da dieta para os pacientes com DII (principalmente com doença de Crohn), com ênfase nas fórmulas enterais, a ABCD em Foco convidou dois profissionais brasileiros, bastante experientes na área de nutrição, para nos dar a sua opinião sobre este assunto. Leia a seguir:
Ricardo Rosenfeld
é professor do Instituto de Nutrição da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e Coordenador da Equipe de Terapia Nutricional do Rio de Janeiro (ETERNU)
“No momento, a nutrição enteral com suas novas formulações é vista como terapia primária na redução da inflamação intestinal. Esta visão não é unânime, sendo que alguns países, incluindo os Estados Unidos, discutem a melhora da inflamação e redução das agudizações. O importante é que a maioria dos estudos mostra uma melhoria clínica de 50% a 60% com o uso de nutrição enteral na DII.
O modo de ação das fórmulas enterais continua precisando ser esclarecido, mas já aprendemos muito nesses últimos anos. Esse modo de ação seria pela repleção nutricional, o oferecimento de nutrientes específicos para o intestino, a eliminação de antígenos alimentares, a diminuição da produção de substâncias inflamatórias pela redução da gordura ingerida e alteração da microbióta intestinal (bactérias que habitam os intestinos e são importantes para a manutenção da saúde). A ênfase dos estudos mais recentes está focada sobre o papel das gorduras na inflamação e a presença de determinadas bactérias saudáveis.
O uso de ácidos graxos poli-insaturados da família ômega-6, encontrados nas carnes dos animais (gado, aves, suínos) e alguns óleos (soja, milho), por exemplo, aumentam a inflamação do intestino por produzirem substâncias inflamatórias durante o seu metabolismo. Ao contrário, os ácidos graxos poli-insaturados da família ômega-3, encontrados nos peixes e em alguns óleos (linhaça), inibem a produção de substância inflamatória. Portanto, as dietas enterais enriquecidas com ômega-3 podem prevenir as recidivas ou melhorar uma doença inflamatória intestinal. Os efeitos não são tão significativos na colite ulcerativa, mas mesmo assim podem quebrar o ciclo de ativação do sistema imunológico e redução da função de barreira exercida pelo intestino. Estudos têm utilizado ácidos graxos mono-insaturados ômega-9, contido na oliva (azeite) com resultados variáveis.
O efeito da nutrição enteral na microbióta intestinal é um novo e interessante campo de estudos, já que esses microrganismos estão sendo implicados no aparecimento e piora da doença inflamatória intestinal. A nutrição enteral pode modificar a interação das bactérias com a mucosa intestinal, reduzindo a inflamação. Quanto à proteína ingerida, esta parece não alterar a doença, no entanto é sabido que as dietas chamadas de elementares contêm menos gordura e assim poderiam melhorar a inflamação, mas o gosto dessas fórmulas ainda é um fator limitante ao seu uso. Novas substâncias, como o fator transformador de crescimento (TGF-beta), incorporados às fórmulas enterais, estão trazendo importantes resultados na resposta inflamatória da doença de Crohn, reduzindo o processo inflamatório e as recidivas.
O uso parcial das fórmulas enterais não parece ter grande sucesso na melhora da inflamação, sendo assim é importante que a nutrição enteral seja exclusiva, e não apenas uma parte da alimentação do dia. O custo com a aquisição da dieta, o paladar e a monotonia da alimentação são fatores que podem impedir o sucesso do tratamento. A demonstração em muitos estudos do benefício a longo prazo com o uso das dietas enterais, principalmente em crianças, pode justificar os inconvenientes. O uso da dieta quando do primeiro episódio pode levar a períodos maiores de remissão da doença nas crianças e reduzir o uso de corticosteróide e seus efeitos colaterais, facilitando o crescimento normal. Portanto, em crianças e adolescentes com DII, o tratamento nutricional pode oferecer importantes vantagens terapêuticas não vistas em adultos. Já os adultos se beneficiariam, assim como as crianças e os adolescentes, de menor necessidade de medicamentos e recidivas menos freqüentes, com prevenção da desnutrição.”
Maria Izabel Lamounier Vasconcelos
é nutricionista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da ABCD
“Para melhorar o estado nutricional dos pacientes com DII a nutrição enteral ou parenteral tem sido preconizada. A tendência favorável é a utilização da nutrição enteral. Entre as vantagens consideradas estão custo menor, administração mais simples, menos complicações e estímulo fisiológico para a contração da vesícula biliar, diminuindo a probabilidade de estase biliar e formação de cálculos. Outras vantagens importantes são a melhora dos mecanismos de defesa imunológica e preservação da mucosa intestinal, prevenindo a passagem dos microorganismos da flora intestinal para o interior do organismo. Convém salientar que, diferentemente da nutrição parenteral, os nutrientes administrados por via enteral liberam vários hormônios gastrintestinais que podem ter efeitos importantes sobre o intestino, como alimentar a mucosa. Atualmente, a indicação de nutrição parenteral se restringe aos pacientes com síndrome do intestino curto, obstrução intestinal, megacólon tóxico, perfuração intestinal e hemorragia colônica maciça. Na prática clínica, contudo, alguns pacientes não conseguem tolerar a nutrição enteral, sendo recomendado nestes casos, o tratamento com a nutrição parenteral.
A nutrição enteral está contra-indicada nas situações em que o trato gastrintestinal não se encontra íntegro ou funcionante, como por exemplo, no íleo adinâmico, em obstruções intestinais e hemorragias digestivas altas. Nestes casos indica-se a nutrição parenteral. No entanto, a nutrição enteral pode ser de extrema valia em doentes graves, com tubo digestivo funcionante e que apresentam funções metabólicas modificadas, balanço nitrogenado negativo e desnutrição protéico-calórica. Esforços têm sido feitos nos últimos anos para desenvolver métodos nutricionais eficientes não apenas em termos de acesso e formas de administração, mas também de formulação de dietas mais adequadas para cada condição clínica.
Em todas as eventualidades, a utilização da nutrição enteral garantirá pelo menos igual, e possivelmente melhor, desfecho em relação a Nutrição Parenteral Total, nos cuidados dos pacientes hospitalizados, requerendo terapia nutricional. É comum o crescimento linear ser prejudicado antes do diagnóstico da doença de Crohn pediátrica no seu início, bem como durante os anos subseqüentes, o mesmo podendo acontecer na maturidade, com a altura. Dos múltiplos fatores que contribuem para isto, a inadequação nutricional crônica e os efeitos inibitórios do crescimento direto das citocinas produzidas pelo intestino inflamado são os mais importantes. Portanto, uma nutrição adequada e uma redução da inflamação intestinal é vital para o manejo. Méritos especiais da nutrição enteral em crianças vêm do potencial que a terapia tem de facilitar a consecução destes dois objetivos. A nutrição enteral é empregada no manejo de pacientes pediátricos com doença de Crohn não apenas para melhorar a sua ingestão de calorias e o seu estado nutricional, intensificando através disto o crescimento, mas também como um tratamento básico da inflamação intestinal ativa. A modalidade de ação da nutrição enteral como tratamento básico ainda se encontra em nível de conjectura.
As hipóteses têm incluído alteração na flora microbiana intestinal, eliminação da ingestão de antígenos dietéticos, diminuição da síntese intestinal dos mediadores inflamatórios através de uma redução na gordura dietética, reposição nutricional global e administração de micronutrientes importantes ao intestino doente. Em algumas situações o tratamento das deficiências nutricionais por via oral ou por via enteral é prejudicado pelo trato gastrintestinal lesado. Desta maneira, a nutrição parenteral é freqüentemente recomendada para suprir as necessidades nutricionais e corrigir os déficits pré-existentes”.