O câncer do intestino na DII
Especialista diz que sua prevenção na doença inflamatória intestinal é possível e necessária para evitar surpresas desagradáveis

O médico americano David T. Rubin se considera um homem abençoado – e tem razão. Além de ser um gastroenterologista supercompetente e trabalhar no Departamento de Gastroenterologia da Universidade de Chicago, uma das mais respeitadas no meio médico internacional, ele consegue equilibrar de maneira invejável sua vida profissional e familiar. Ele mora em Chicago, onde nasceu, mais precisamente em Hyde Park, uma parte da cidade que fica ao redor da Universidade de Chicago, ou seja, perto de casa. Com isso, frequentemente pode se dar ao luxo de ir a pé para o trabalho e dar uma escapada até em casa para ver a mulher Rebecca, os dois filhos do casal, Danny, de 7 anos, e Michael, de 5, e seu lindo golden retriever. Até nos dias mais complicados o médico consegue jantar com a família, ainda que depois tenha que voltar para o hospital. Ele também consegue conviver bastante com os pais, sogros, irmãos, cunhados e sobrinhos, pois todos moram na mesma cidade. “É por isso que me sinto abençoado”, diz ele.
Essa vida harmoniosa e bem estruturada certamente é responsável por boa parte do seu jeito tranqüilo de ser. E o ajuda a ser bom pai – o Dr. Rubin é técnico do time de futebol de um dos seus filhos, cujos treinos também são no parque perto do hospital. Ah, e ele ainda é músico - toca clarim desde os 9 anos de idade, embora hoje, segundo diz, já não toque como nos bons tempos. A especialidade deste polivalente médico é o câncer do intestino, uma área de grande interesse dos pacientes de Crohn e de colite ulcerativa. Um dos maiores estudiosos no desenvolvimento de câncer em doença inflamatória intestinal, o Dr. Rubin deu a seguinte entrevista para a ABCD em Foco:
n Quais são os casos de doença inflamatória intestinal (DII) que precisam de um controle mais rigoroso para prevenir o câncer de intestino?
Os pacientes que têm doença inflamatória intestinal por um longo período ou com envolvimento extenso dos cólons têm mais chances de desenvolver o câncer de cólon e precisam manter um programa de vigilância contra esta doença. O Colégio Americano de Gastroenterologia e a Sociedade Britânica de Gastroenterologia recomendam que a vigilância seja iniciada com oito a dez anos de doença e repetida a cada um ou dois anos através da realização de exames (colonoscopia e biópsia). Além disso, os pacientes com colangite esclerosante primária, que também tem um risco maior, devem iniciar a vigilância assim que tiverem esse diagnóstico.
n A duração da doença é importante? Por quê?
A maioria dos estudos que avaliaram o câncer em DII mostrou a duração da doença como fator importante. Teoricamente, acredita-se que a longa duração da inflamação tem relação com o acúmulo de substâncias cancerígenas derivadas de subprodutos da inflamação e da renovação celular. Ainda não temos idéia se isso poderia ser decorrente da perda do mecanismo de reparação do DNA, acúmulo de mutações ou eventos moleculares, como os que acontecem na transformação de adenomas em adenocarcinomas, ou outro fator desencadeante.
n Quais são os fatores de risco para desenvolvimento de câncer em DII? O fumo é um deles?
O fumo não se mostrou fator de desenvolvimento de câncer em DII – aliás, pode ser protetor em alguns casos de colite ulcerativa ao reduzir o impacto da inflamação. Outros fatores já foram discutidos anteriormente e hoje se dá importância também ao fator hereditário (familiares com câncer de intestino) e a achados histológicos (encontrados na biópsia) de grau severo de inflamação. Estudos realizados em Nova Iorque, Reino Unido e aqui em Chicago sugerem que quanto maior o grau de inflamação maior poderia ser a chance de desenvolvimento de câncer.
n A doença de Crohn de intestino delgado tem risco aumentado de câncer?
Não há dúvida de que a inflamação crônica do intestino delgado também pode aumentar o risco. Quando o câncer surge, em geral o faz na doença de longa duração, provocando sintomas obstrutivos. Entretanto, é importante ressaltar que embora o risco relativo seja aumentado, o risco absoluto é muito baixo, felizmente. Isto quer dizer que é muito, muito raro. No passado, a cirurgia de “bypass”, ou ponte, que era feita para derivar o fluxo da alça doente, predispunha ao aparecimento de câncer nesta alça, mas foi abandonada.
n Estes doentes necessitam do mesmo tipo de vigilância que os que têm doença colônica?
Não é prático, e em alguns casos nem é possível, detectar adequadamente lesões que possam ser pré-cancerígenas no intestino delgado. Além disso, dada a raridade desta condição, ou seja, do câncer de delgado, não há estudos adequadamente realizados que possam nos informar. Uma extensa revisão de toda nossa base de dados revelou a existência de 11 casos de câncer de delgado, o que é muito pouco. A duração média da doença nesses casos era de 20 anos e não havia sinais radiológicos que sugerissem câncer. Todos foram diagnosticados em cirurgias.
n Você acredita em quimioprevenção (remédios que possam prevenir contra o desenvolvimento de câncer)? Que drogas podem ser usadas para este fim?
Sim, eu acredito nisso, mas a questão é: existem evidências que suportem essa possibilidade? Os estudos disponíveis são com derivados do 5-ASA, mas são todos retrospectivos ou com populações que apresentam muitas variáveis, o que dificulta uma análise crítica de melhor qualidade. De todo modo, a preponderância das evidências atualmente fala favoravelmente ao efeito de quimioprevenção dos derivados do 5-ASA.
Numa metanálise publicada no ano passado, o uso do 5-ASA reduziu o risco de câncer em colite ulcerativa em 75% e de câncer e displasia em cerca de 50%. Estudos adicionais de laboratório e em animais sugerem que possa haver vários mecanismos de atuação para isso, dentre os quais destacam-se a inibição da proliferação celular, o aumento da apoptose (morte celular programada) e, possivelmente, a melhoria da regeneração do DNA celular. O ácido fólico tem teoricamente algum sentido como droga que possa atuar em quimioprevenção, mas nada foi demonstrado em estudos realizados. Numa pesquisa que realizamos, onde a inflamação mostrou ser uma fator de risco, o uso de imunossupressores, como azatioprina e 6-mercaptopurina, mostrou efeito benéfico, reduzindo o tal risco, mas isso não foi verificado em estudos prévios de outros centros de pesquisa.
Neste momento, tenho sempre uma conversa franca com os meus pacientes e proponho a quimioprevenção com derivados do 5-ASA.
n A manipulação genética poderá mudar o curso clínico da DII no futuro?
Ainda não estamos tão longe suficientemente em conhecimento e compreensão dos complexos fatores genéticos da DII para que possamos pensar em manipular. No entanto, estamos conhecendo melhor os genes envolvidos. O que mais sabemos é do gene NOD2-CARD15, do cromossomo 16. Tem duas funções principais, uma associada com a resposta contra bactérias no ambiente e outra que ativa a inflamação na célula. Cerca de 25% dos portadores de doença de Crohn tem ao menos uma variante do gene NOD2-CARD15, mas essas mutações genéticas são de baixa penetrância, portanto, não podemos usá-las como um marcador confiável de suscetibilidade. Há muito trabalho a fazer!
n O número de câncer em DII está mudando com o tempo?
Possivelmente sim - o número de câncer em DII parece estar diminuindo. Em abril deste ano dois estudos mostraram que o risco é menor que aquele reportado anteriormente. Mas ambos foram feitos em centros de excelência em DII, onde provavelmente os doentes estavam recebendo tratamento mais adequado, controle mais efetivo e melhor acesso as práticas de vigilância.
n Qual a sua avaliação sobre a variação da incidência da DII nas últimas décadas?
Acreditamos que a incidência da DII está aumentando no mundo todo, do mesmo jeito que a da asma, esclerose múltipla e algumas alergias, como a alergia ao amendoim. Até onde isso acontece em decorrência de um agente infeccioso, de um fator ambiental químico ou alimentar, ainda não se sabe. A teoria que prevalece hoje é a da “hipótese higiênica”, na qual crianças não expostas a suficientes antígenos ambientais ou infecciosos poderiam, mais tarde, não ter um sistema imune que respondesse apropriadamente aos estímulos ambientais. Eu, particularmente, acredito num fator ambiental, possivelmente relativo à dieta, mas ainda não temos uma noção da magnitude desse problema. Finalmente o centro de controle de doenças dos EUA vai fazer o primeiro estudo epidemiológico de DII e poderemos, então, ter um melhor conhecimento a respeito.
n A nutrição é um ponto importante na prevenção do câncer na DII?
Na DII não há qualquer alimento ou suplemento que mostrou ser eficaz na prevenção de câncer, como ocorre com relação ao ácido fólico, aceito como tendo valor no câncer não relacionado com DII. Fibras, cálcio e vitamina D parecem não ter benefício, o que também está em discussão nos não portadores de DII.
n Como convencer os pacientes a fazer prevenção?
Quando começo a tratar um novo paciente discuto conjuntamente nossas metas terapêuticas. Nelas se incluem a indução à remissão, a manutenção da doença sob controle e evitar complicações, onde se encaixa a prevenção de câncer. Eu explico a importância de fazer prevenção para reduzir o risco, utilizando de estratégias que só trazem benefício (àqueles em que se mostram aplicáveis). Sempre reforço isso nas consultas posteriores.
n Alguns pacientes com doença crônica acham que sua vida acabou e que eles não vale mais nada, o que é um absurdo. Como lidar com os aspectos emocionais deles?
A meta final que discuto com meus pacientes em cada consulta é a da qualidade de vida. Sou enfático em afirmar que a doença é controlável e que eles devem fazer tudo o que desejam em sua vida, sem jamais desistir dos seus objetivos, incluindo a formação de uma família, estudo superior e realização profissional. Regularmente seleciono os meus pacientes portadores de distúrbios emocionais, como ansiedade e depressão, e os encaminho para psicólogos ou psiquiatras, caso precisem de ajuda. Tento abordar o aspecto emocional de forma mais incisiva quando há crises de atividade da doença. A melhor maneira de nós, médicos, ajudarmos a combater a atitude derrotista é dar aos pacientes um suporte educacional, oferecer um tratamento eficaz que aumente sua confiança e quando necessário, lançar mão do auxílio de um psicoterapeuta.