Artigo

Acredite, o intestino pode crescer!

Através de um novo hormônio de crescimento a ciência está tentando vencer a luta contra a síndrome do intestino curto
Por Dan Waitzberg*

A adaptação natural do intestino após perda de área absortiva por doença ou ressecção cirúrgica, requer a proliferação rápida das células intestinais que pode ser estimula­da por determinados fatores de crescimento. Estas proteínas podem acelerar e aumentar o estímulo do cres­cimen­to intestinal. Entre os fatores estudados estão o hor­­mô­nio do crescimento, também chamado GH, (growth fac­tor), o fator de crescimento insulina símile - IGF-1,  o peptídeo glucagon-símile, o  fator cres­ci­mento epi­dér­mico e neurotensina, além de nutrientes como ­fi­bras, ácidos graxos de cadeia curta e o aminoácido  glu­ta­mi­na.  O hormônio do crescimento GH tem sido em­pregado para acelerar a adaptação do intestino após res­sec­ção intestinal. Este hormônio é uma proteína ­cons­tituí­da por 191 aminoácidos de cadeia única, produ­zido na hipófise anterior e secretado por ela durante toda a vida.
Estudos experimentais vêm demonstrando efeitos be­né­ficos da terapia com GH em animais com síndrome do intestino curto (SIC). Dentre os principais efeitos no­­­tados estão o ganho de peso, o crescimento do intestino remanes­cente e um aumento da espessura da mu­­co­sa intestinal, levando a uma melhora da ab­sorção. Um ­outro estudo ex­perimental demonstrou resultados benéficos da glu­ta­mi­na em animais com SIC, apresentando o crescimento da mu­co­sa do intestino e uma me­lhor adaptação ­intestinal.
Estudos feitos em ani­­mais com síndrome do in­tes­tino curto utilizando GH e GLN associados, demonstraram um efeito sinérgico de ambos, além dos efeitos já observa­dos anteriormente, como uma melhora no ba­lanço ni­tro­­­genado e um ­aumento dos níveis plas­má­ticos de IGF-1.
Nos estudos mais recentes, administrando gluta­mi­na, hormônio de crescimento e nutrição parenteral, foi demonstrada uma me­lho­ra na adaptação do intestino através da ­proliferação celular, do aumento dos níveis do fator de crescimento insulina-símile tipo 1 – IGF-I e di­minuição na apoptose (morte celular programada) das células intestinais.
Em seres humanos, levantamentos realizados em pa­cien­tes demonstraram que o tratamento com hormônio de crescimento pode promover ganho de peso corpóreo e aumento da massa magra. Em experimentos ­utilizando hormônio de crescimento, glutamina, e dieta rica em car­boidratos e pobre em gordura, em pacientes com sín­drome do intestino curto, foi demonstrada melhora da fun­ção intestinal e da absorção de sódio e de proteí­nas, me­­­lhoran­­do o estado nutricional e fazendo com que gran­de par­te dos pacientes não necessitasse mais do uso de nu­­­tri­ção parenteral exclusiva após o tratamen­to. Novos tes­tes feitos após um ano demonstraram ma­nu­tenção do ní­vel nu­tri­cional da maioria desses pacien­tes apenas com die­ta via oral, além de reduzir as perdas de glutamina nos ­músculos.
No entanto, alguns estudos demonstraram não ­haver uma melhora significativa na absorção intestinal de ma­cro­nutrientes, além de uma alta incidência de efeitos cola­terais, não sendo um tratamento recomendado.
Existe, porém, a preocupação que os efeitos encontra­dos com o GH em altas doses sejam devidos mais à reten­ção de fluídos, principalmente em pacientes com o ­cólon preservado onde o ganho de energia é menor com o GH. De outro lado, doses menores de GH aparen­te­mente têm efeito sobre o ganho de energia em ­pacientes com síndrome do intestino curto e portadores de có­lon em con­tinuidade. São necessários ainda estudos de ­longa du­ração para observar os ­efeitos vantajosos tar­dios do tra­tamento. Por outro lado ainda, a ­ocor­­rên­­cia de efeitos adversos, como insô­nia, ede­ma, re­tenção de fluidos, ­mial­gia e artral­gia descritos com ­doses ­altas de GH, podem prejudicar a potencial eficiência desta terapia.

*Dr. Dan Waitzberg é presidente do Ganep - Grupo de Apoio de Alimentação Enteral e Parenteral