De olho no íleo

Ingestão de vermes

Um grupo de médicos da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, realizou um estudo envolvendo 29 pacientes com doença de Crohn ativa, que ingeriram 2.500 vermes vivos, o Trichuris suis,a cada três semanas, durante 6 meses. Qual o objetivo de tanto sa­cri­fício? Descobrir se os ­vermes poderiam ajudar no ree­qui­lí­brio do seu sistema imu­no­ló­gico. Parece brincadeira, mas não é. O que acon­tece é que praticamente todos os pacientes de Crohn apresentam uma resposta Th1 do seu sistema imuno­ló­gi­­co, que é o perfil das citocinas. Só que com a ingestão de ­vermes, que aparentemente é inócua, a resposta foi alterada para Th2 e, com isso, a maioria dos pacientes teve remissão dos sintomas da doença. “Esta é uma estra­té­gia interessante do ponto de vista da teoria, ­porque se provocando uma resposta antagônica, ou seja, nem demais, nem de menos, se contrabalança o sistema imunológico dos pacientes”, diz o Dr. Aderson Damião, gas­troenterologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “Este estudo ainda não foi con­fir­mado por outros estudos, mas, de qualquer ­forma, abre uma nova vertente para tratamento”, diz o ­médico do HC. “Afinal, se obteve uma confirmação de que ­alte­ran­do a resposta do sistema imunológico dos pacientes se ­obtém remissão dos sintomas.” Se isso for confirmado, só é preciso descobrir um medicamento que faça este papel.

O vai e volta do Natalizumabe

Um medicamento licenciado para esclerose múltipla, nos Estados Unidos, que teve boa recepção pelos pacientes com este diagnóstico, foi também testado, no ano passado, em pacientes com a doença de Crohn. Só que o Natalizumabe, cujo nome comercial no mercado americano é Tysabri, não mostrou a mesma eficiência para os portadores desta doença inflamatória intestinal. Muito pelo contrário, o seu uso teve uma repercussão desastrosa: dois pacientes morreram após a infusão do Tysabri e a empresa fabricante do produto, a Elan Corporation, teve que retirar o produto do mercado. “A finalidade era diminuir o processo inflamatório da doença de Crohn como acontecia nos pacientes de esclerose múltipla, mas os resultados obtidos não foram bons”, diz o Dr. Aytan Miranda Sipahi, chefe do grupo de doenças inflamatórias intestinais do Hospital das Clínicas. “Alguns pacientes desenvolveram leucoencefalopatia multifocal, um efeito colateral raro, similar ao da “vaca louca”, e os pesquisadores agora estão estudando que mecanismo teria desencadeado esta doença e qual foi o papel real do Natalizumabe neste processo”, diz o médico. É que existe a idéia de que talvez os pacientes que tiveram problemas estivessem pré-dispostos a desenvolver a doença. “Já existe um estudo, o da fase 3 do Natalizumabe, além de 20 terapêuticas novas em várias áreas, que vão ser agentes contra as doenças inflamatórias intestinais”, informa o Dr. Aytan. Com acertos e erros, vitórias e fracassos, o mercado farmacêutico não pára.

Combinação de medicamentos

Cada vez mais os médicos se certificam de que os imunossupressores podem trazer maior estabilidade aos sintomas da doença de Crohn. Recentemente, foi veiculada a notícia de que até mesmo os pacientes que não to­leram e resistem ao tratamento com azatioprina, o imu­nossupressor indicado para grande parte dos portadores de Crohn, ainda podem ter sucesso com outro medicamento similar: o metotrexate. É o que mostrou um estudo realizado numa universidade de Frankfurt, na Alemanha, com 19 pacientes que tinham esta resistência. Um grupo deles recebeu infusões de Infliximabe (o famoso Remicade), como normalmente se faz, enquanto outro grupo recebeu aplicações de Infliximabe con­co­mi­tantemente com o Metotrexate, só que injetável. ­Pelos resultados que se obteve, esta combinação, a médio ­prazo, mostrou-se promissora para dar aos pacientes intervalos maiores de crises. Mas os pesquisadores, ainda não satisfeitos, querem continuar com os testes clínicos. “A indicação de Metotrexate injetável junto com o Infliximabe não é novidade para nós”, diz o gastroen­te­rologista Dr. Arnaldo Ganc, do Hospital Israelita Albert Einstein. “Já fazemos esta indicação quando a Azatioprina falha e o paciente não responde ao tratamento. O que acontece é que somente os médicos especialistas em doen­ças inflamatórias intestinais fazem a indicação de In­fli­xi­mabe com Metotrexate”, diz o Dr. Ganc.