| Remicade causa câncer?
Circulou na Internet, alguns meses atrás, uma história de que o Remicade poderia aumentar o risco de câncer nos pacientes de Crohn que usam este medicamento por muito tempo. Só que, segundo um estudo realizado na Universidade Tor Vergata de Roma, na Itália, isso não passou de um boato. O estudo comparou 404 pacientes que usaram Remicade com outros 404 pacientes que nunca receberam uma dose sequer do medicamento. Também foram comparados sexo, idade, tempo do diagnóstico (mais ou menos de 5 anos) e imunossupressores usados no tratamento. Foram registrados os casos de tumor que apareceram de entre abril de 1999 e outubro de 2004 - no grupo que tomava Remicade houve casos de câncer em nove pacientes, enquanto que no outro grupo sete pacientes desenvolveram algum tipo desta doença. Conclusão dos cientistas: as chances de os pacientes que usam Remicade desenvolverem um tumor são iguais às dos pacientes que não usam o medicamento. Ufa!
Produção acelerada
A indústria farmacêutica não dá trégua para os seus cientistas e a todo momento surgem mais medicamentos para ajudar no tratamento das doenças inflamatórias intestinais. Nos últimos seis meses, três deles estiveram em evidência na mídia americana: o teduglutide, uma droga aplicada em injeções subcutâneas diárias nos pacientes com síndrome do intestino curto, cujos testes clínicos passaram para a Fase III; o certolizumabe, um anti-TNF humanizado, semelhante ao Infliximabe, que já terminou a Fase III de testes clínicos e tem se mostrado mais uma opção para o tratamento da doença de Crohn; e, finalmente, o Cimzia, um outro anti-TNF humanizado que também se mostrou seguro e eficaz no tratamento dos pacientes com Crohn. “Temos que aguardar para saber se esses medicamentos vão se comportar tão bem quanto o Infliximabe”, diz o Dr. Aytan Miranda Sipahi, Chefe do grupo de Doenças Inflamatórias Intestinais do Hospital das Clínicas. “Se eles mostrarem as mesmas características do ponto de vista de ação e de indução à remissão dos sintomas da doença será ótimo”, diz o médico. Os pacientes não podem desanimar!
Pré-disposição para a
doença de Crohn
* Por Sender J. Miszputen
Parece não restar dúvida de que as doenças inflamatórias intestinais idiopáticas têm uma importante conotação genética, reconhecida por todos os especialistas, por uma série de eventos que as caracterizam. Mais ainda, suas diferentes formas de apresentação clínica, evolução e respostas às terapêuticas disponíveis sugerem que, muito provavelmente, não seja possível delimitar um perfil genético único para esses indivíduos, que determine inclusive sua suscetibilidade para o desenvolvimento da inflamação, quando expostos a algum fator ou fatores ambientais. Assim, a existência de um polimorfismo gênico justificaria melhor o comportamento distinto observado tanto na colite ulcerativa, mas especialmente na doença de Crohn. Quanto a esta última, alguns pesquisadores estão convencidos de que pelo fato dela se exteriorizar através de diferentes fenótipos, venha a se tratar, na prática, de várias doenças.
Este trabalho questiona a importância de se testar as possíveis variantes genéticas dos doentes portadores de doença de Crohn quanto às suas perspectivas evolutivas, mas reconhece sua importância na expectativa da resposta à terapêutica, pela observação que a maioria dos medicamentos se mostra eficaz apenas em um subgrupo dos casos, não havendo nenhum parâmetro clínico que permita distinguir, previamente, quem se mostrará sensível ao tratamento ou estará sujeito aos efeitos adversos das drogas convencionalmente utilizadas nessa doença. Estas ocorrências são bem conhecidas quando do emprego das tiopurinas, azatioprina ou 6-mercaptopurina, cuja metabolização pela tiopurina metiltranferase hepática, com algumas características polimórficas, geneticamente determinadas, responde por menor eficácia do medicamento, assim como pelo desenvolvimento do seu efeito citotóxico e imunossupressor. Os autores concluem que testes de diferenciação genética para discriminar aquele comportamento metabólico, já pertencente à rotina clínica de alguns centros, permitindo identificar os doentes que não conseguirão tolerar doses convencionais desses imunomoduladores, justificam plenamente sua aplicação.
*Comentário do Dr. Sender J. Miszputen, professor adjunto doutor em Gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina, sobre uma nota a respeito de testes genéticos na Doença de Crohn, publicada no American Journal of Pharmacogenomics (2005, 5(4): 213-22).
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