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Alimentação
Uma dieta específica para DII levanta um debate sobre a real importância do assunto para quem tem Crohn ou colite ulcerativa
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Por
Valquíria Sganzerla |
Seja por motivos estéticos ou por razões de saúde, cada vez mais as pessoas estão preocupadas com a sua própria alimentação, mesmo que, muitas vezes, aparentem não dar tanta importância a ela. O fato é que não param de surgir publicações a respeito do que faz mal e do que faz bem para se ter uma boa nutrição. Sem falar que parece que mulheres e homens estão sempre à procura de dietas que lhes traga uma aparência mais jovial. Quem não se lembra da famosa e revolucionária dieta do Dr. Atkins, nos anos 70 e depois atualizada em 2000, rica em proteínas e gorduras e pobre em carboidratos, que fazia seus adeptos perderem peso rapidamente? Muitos anos depois, no comecinho deste século surgiu a dieta de South Beach, desenvolvida por um cardiologista, que praticava a medicina em Miami, na Flórida, e era similar à de Atkins. A que está na moda atualmente é uma que virou febre na Austrália e que promete a seus adeptos, além da perda de peso, a redução do risco de doenças cardíacas e diabetes. Na Internet, encontram-se diversos sites sobre dietas para todos os gostos, tipos e necessidades.
O assunto alimentação hoje costuma estar presente em quase todas as rodas de adultos. Os pacientes de doenças inflamatórias intestinais têm – ou deveriam ter – um interesse ainda maior por este assunto, pois a alimentação é uma questão delicada para quem tem doença de Crohn ou colite ulcerativa. Salvo nos casos em que a doença é mais leve, dificilmente no dia-a-dia dá para fazer uma dieta convencional, como fazem as pessoas saudáveis. Os portadores dessas doenças ficam muitas vezes perdidos. Não sabem se têm que cortar de vez os alimentos que soltam o intestino ou se devem se preocupar só quando estão em crise. Não há um manual definitivo sobre o tema. Em geral, os médicos dão algumas orientações sobre o que se pode e o que não se pode comer, e os pacientes seguem mais ou menos. Quando em crise, levam a questão mais a sério. Quando fora de crise, seja o que Deus quiser. Talvez isso ocorra porque o assunto é contraditório entre os próprios médicos. Alguns afirmam que a alimentação correta pode manter o doente fora de crise. Outros dizem que o que mantém a remissão são os medicamentos. Outros ainda acham que é a soma de tudo isso. Talvez por essa falta de certezas os portadores de DII acabem seguindo sua própria cabeça e instinto quando o assunto é alimentação.
Há no mercado uma dieta específica para doenças intestinais que pode ajudar muito quem tem diarréia crônica, doença de Crohn, Colite Ulcerativa ou Doença Celíaca: é a Specific Carbohydrate Diet, SCD. A SCD não faz o sucesso estrondoso das dietas para emagrecer (até porque seu objetivo não é emagrecer), nem tampouco tem o aval de todos os médicos. Em compensação, funciona. Quem a faz, passa bem. A SCD foi desenvolvida pela americana Elaine Gottschall, para ajudar sua filha, que tem colite ulcerativa (veja box). Na época em que foi desenvolvida a filha era criança. Hoje a menina é moça e está fora de crise há 20 anos. Para explicar sua dieta Elaine lançou, em 1994, o livro Breaking the vicious cycle, que já está na sua 11ª edição. O princípio básico da dieta é eliminar os carboidratos da alimentação - massas, arroz, açúcar, pães e farinhas. A tese da autora é que os carboidratos são energia para os micróbios do intestino e contribuem para o desenvolvimento de doenças inflamatórias intestinais. Vale a pena dar uma olhada no livro. Ele traz receitas doces e salgadas para todos os tipos de refeições - café da manhã, almoço, jantar e happy hour. Há depoimentos de vários pacientes de doenças intestinais que contam como a dieta melhorou sua qualidade de vida ou até como ela os curou de seus diagnósticos.
Como todas as pessoas deveriam fazer antes de iniciar um novo tratamento ou dieta alimentar, a ABCD em Foco foi buscar referências para a dieta criada e indicada por Elaine Gottschall. Nosso objetivo era saber se a dieta faz sentido, se realmente pode ajudar os portadores de doenças inflamatórias intestinais e quais os seus riscos. Procuramos alguns nutricionistas, bastante respeitados, e ouvimos suas opiniões. “Esta dieta reduz 90% do total de carboidratos ingeridos por dia e isso é impactante”, chama a atenção Maria Izabel Lamounier de Vasconcelos, nutricionista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e também da ABCD. “O princípio do livro é bastante interessante. O intestino de um paciente de DII é inflamado e por isso não produz as enzimas necessárias para a absorção dos alimentos. Quando o carboidrato chega num intestino nesse estado, passa a ser utilizado pelas bactérias locais, provocando um aumento de gases”, explica Izabel. “A idéia da dieta é tirar o carboidrato para, assim, eliminar os gases e a diarréia. Faz sentido”, conclui a nutricionista da ABCD.

Outra opinião é da Dra. Valéria Abrahão, gastroenterologista, intensivista e especialista em terapia nutricional do Hospital Ipanema Cruz e da Casa de Saúde São José, ambos no Rio de Janeiro. “A dieta apresentada no livro é importante porque mostra como tratar da desnutrição que os pacientes de DII sofrem (quando são internados no hospital, cerca de 40% estão desnutridos) e isso é sempre vantajoso. Por outro lado, quando a doença está em atividade, não consigo acreditar que simplesmente a restrição alimentar seja suficiente para tratá-la - principalmente nos casos de doença de Crohn. Acho que para tirar a doença da fase ativa o paciente precisa de corticóide e de imunossupressor e não de uma dieta alimentar”, diz categoricamente a Dra. Valéria. “Nos relatos de pacientes da autora do livro, alguns falam que ficaram bem depois da dieta e outros contam que tiveram recaída da doença”, conclui a Dra. Abrahão.
Uma terceira opinião é do “papa” brasileiro da nutrição, dono de um currículo invejável nos seus mais de 25 anos de carreira, o Dr. Dan Waitzberg, do Ganep, Grupo de Apoio de Alimentação Enteral e Parenteral. “Não li o livro e sem isso fica difícil opinar. De qualquer forma, eu não gosto de endossar qualquer opinião que não seja cientificamente comprovada por meio de trabalhos clássicos científicos”, diz o Dr. Waitzberg. “Pelas informações que li no site, a autora, aparentemente, é convincente, mas se contradiz em alguns pontos. Por exemplo, ela indica vegetais, mas não indica grãos. Ora, vegetais também têm fibras!! Por outro lado, ela cozinha os vegetais. E mais: a dieta tira os carboidratos complexos, o açúcar e o adoçante. Por que adoçante não pode? Onde está escrito que aspartame faz mal para doença de Crohn? Nunca vi isso escrito”, questiona o Dr. Dan. “Além disso, não encontrei nenhuma referência bibliográfica de nada do que é falado no livro.”
Embora poucos médicos conheçam esta dieta, muitos dos que não conhecem são bastante reticentes a ela. Em seu livro, no entanto, a autora conta diversas histórias de doentes que ficaram bem. Quem quiser experimentar a dieta terá que ter, principalmente, muita força de vontade, pois seguí-la à risca não é nada fácil. É preciso fazer uma mudança drástica na alimentação. Os carboidratos têm que ser cortados e eles estão presentes em massas, arroz, açúcar, mel, pães, frutas, farinhas, tubérculos e doces em geral, ou seja, em praticamente todos os alimentos que uma pessoa está acostumada a comer. Se nada disso é permitido, o que se pode comer então? Carnes não processadas, aves domésticas, peixe, molusco, marisco, vegetais frescos, crus ou cozidos, legumes, queijo tipo Cheddar e iogurte feito em casa, fermentado por pelo menos 24 horas. E ainda, grande parte das frutas, chá, café, mostarda, vinagre e sucos sem suplementos. Haja disciplina...
Sobre o impacto que a alimentação tem nas doenças inflamatórias intestinais, grande parte dos especialistas é partidária de que alguns cuidados de dieta devem ser levados em conta sim, observando como cada paciente reage a um alimento e, sobretudo, o que lhe faz mal, provocando o aparecimento de sintomas. Só que praticamente todos os profissionais de saúde são unânimes em dizer que um paciente fica bem quanto melhor souber lidar com a sua doença, emocionalmente falando. E isso vale também para saber o quanto a sua alimentação lhe afeta. “Os pacientes de DII têm que buscar a alimentação mais equilibrada e saudável possível, independente do momento que estejam atravessando, se de crise ou de remissão dos sintomas”, diz Izabel, a nutricionista da ABCD. “Não acredito que exista uma
alimentação que piore a situação do paciente, mas é preciso fazer uma alimentação que atrapalhe o menos possível, ingerindo alimentos que favoreçam o trânsito intestinal”, complementa a nutricionista. A Dra Valéria Abrahão acrescenta que existem pacientes que têm “sito fobia”, ou medo de comer, e passam a restringir tudo na sua alimentação. “O cuidado com a alimentação desses pacientes é fundamental porque eles mostram uma tendência à desnutrição e se isso acontecer vai lhes impor outras doenças”, diz a Dra. Valéria. A nutricionista Suzana Mantovani, que tem especialização em Terapia Nutricional e Segurança Alimentar e está há um ano na Alemanha preparando a sua tese sobre Probióticos e Imunologia Intestinal, também contribui: “Através de um acompanhamento eficaz, o adequado estado nutricional do paciente é fator determinante para a resposta do organismo à doença e para o sucesso de qualquer terapêutica clínica ou cirúrgica que for feita. A terapia nutricional individualizada, baseada nos aspectos e no tratamento da doença, é capaz de promover uma melhora efetiva dos sintomas e do estado nutricional, permitindo aos pacientes uma melhor qualidade de vida, com o mínimo de limitações”, diz. Suzana Mantovani iniciou o acompanhamento a pacientes portadores de doenças inflamatórias intestinais há 15 anos.
A ABCD em Foco conversou com dois pacientes, ambos com Crohn, que aprenderam a cuidar da sua alimentação com tamanha responsabilidade que hoje encaram suas limitações com bastante naturalidade. Tanto assim, que essas restrições alimentares não os impedem de fazer programas sociais e, sobretudo, de ter prazer com eles. Vamos às histórias:
Danielle Thomas, 53 anos, é uma libanesa naturalizada brasileira há 29 anos que há 30 tem Crohn. Depois de crises e cirurgias, ela está com a doença estabilizada, mas toma Pentasa, Entocort e um imunossupressor, só por prevenção. Alegre e comunicativa, ela conta que nunca trabalhou, mas que se interessa por tudo o que vê, sobretudo arte e cinema. “Eu gosto de cozinhar e procuro comer uma comida saudável. A alimentação da família inteira mudou por minha causa”, diz ela. Embora tenha quem lhe ajude, é ela quem cuida do cardápio: o almoço varia entre frango e peixe, sempre acompanhados pela salada, enquanto no jantar prefere sopas ou macarrão. Não come carne, frituras, arroz e feijão e derivados de leite nem toma leite. Gosta muito de pão integral, chás e todos os tipos de frutas. “Você precisa ter criatividade nos pratos que prepara e a minha alimentação é muito variada”, diz Danielle, que tem, como uma de suas especialidades, uma compota de maçã. “É muito fácil de fazer e fica muitogostosa, apesar de não levar açúcar”, diz. “Eu procuro viver com a melhor qualidade de vida possível, sem ficar focando somente na doença”, diz Danielle, que é casada e tem dois filhos já adultos.
Clésio Rodrigues, 52 anos, empresário,lida com seu Crohn há 16 anos. Ele também passou por crises e cirurgias, mas hoje sua doença está controlada - para que continue assim, ele toma dois comprimidos do Pentasa duas vezes ao dia e cuida da alimentação. “Sou um bom garfo e como de tudo. Meu maior desafio é comer pouco nas refeições, sempre mastigando bastante os alimentos”, diz Clésio que já há 4 anos procede dessa forma com sucesso. Sobre o seu cardápiodiário, ele diz que é ele quem escolhe o que vai comer, seja em casa, seja em restaurantes. “Eu não tenho o que ficar pensando. Sei o que me faz mal e procuro evitar para o meu próprio bem. Como carnes, legumes, verduras, refogados, cozidos ouassados e gosto de todas as frutas. Eu não quero ter crises”, diz Clésio que é casado, tem dois filhos e como hobby gosta de cavalgar a sua égua manga-larga. “Procuro aproveitar o que posso e costumo até participar de romarias nas proximidades de Jundiaí, em São Paulo. Levo um rolo de papel higiênico no meu farnel para a minha segurança e vou me embora. Faz muito bem ao meu espírito”, diz ele.
Box 1
Os vilões da alimentação
Muitas pessoas podem não saber o que são exatamente os carboidratos, nem reconhecê-los na sua alimentação diária. Mas uma coisa é certa para grande parte das pessoas: os carboidratos são sempre considerados os vilões da nossa alimentação. E também os responsáveis pelos quilos a mais na silhueta. Mas será que isto é realmente verdade?
Numa definição básica, os carboidratos estão presentes em maior quantidade nas massas, arroz, açúcar, mel, pães, frutas, farinhas, tubérculos e doces em geral. Sempre ouvimos que as dietas para serem boas não devem conter, ou devem contem muito pouco, massas, pães, doces...ou seja, carboidratos. É bom que se esclareça que existem dois tipos de carboidratos, os simples e os complexos. Os primeiros estão presentes, basicamente, nos doces, mel e açúcar. As frutas também possuem um tipo de açúcar, a frutose, que pertence ao grupo dos carboidratos simples. Quanto aos carboidratos complexos, pertencem a este grupo os pães, massas, arroz, cereais, batata, mandioca, e farinha, entre outros alimentos.
Mas será que os carboidratos têm realmente importância na nossa alimentação? Em primeiro lugar, os carboidratos são a base da nossa alimentação, praticamente tudo o que diariamente ingerimos, é composto por carboidratos. O fator principal, no entanto, é que são eles que fornecem a energia básica para as nossas atividades diárias. A ausência desses alimentos na dieta, por um período prolongado, pode trazer efeitos indesejados como fraqueza, mal estar, desidratação, menos resistência a infecções, entre outros sintomas.
Chegou a alguma conclusão? Antes de mais nada, é recomendável que os pacientes de doenças inflamatórias intestinais sigam a orientação do seu médico ou, melhor ainda, também de uma nutricionista. Um bom profissional consegue ajudar os portadores de DII a fazer uma alimentação balanceada, que contenha as proteínas e vitaminas necessárias e, ao mesmo tempo, os deixe longe dos sintomas indesejáveis que uma alimentação incorreta pode provocar. Com relação aos carboidratos, é mesmo muito difícil manter os alimentos, fonte de carboidratos, fora da nossa alimentação. O conselho então, é ter bom senso e agir, ou melhor, comer, com moderação.
Box 2
A origem da dieta
Quem era Elaine Gottschall, a autora do livro Breaking the vicious cycle, que tem chamado a atenção de gastroenterologistas e nutricionistas com a sua dieta específica de carboidratos e que tem ajudado muitos pacientes com doenças inflamatórias intestinais? Até pouco mais de 30 anos atrás, ela era uma dona de casa comum que cuidava do bem estar do marido e de suas duas filhas. A vida da família, porém, virou do avesso quando a filha mais velha começou a manifestar diarréia crônica e dores no abdome. Demorou bastante até que fosse diagnosticada uma colite ulcerativa na menina, quando ela tinha cinco anos. Pelo que Elaine conta em seu site www.breakingtheviciouscycle.com, foi um médico clínico, o Dr. Sidney Valentine Haas, quem conseguiu resolver os problemas da sua filha quando ele perguntou à Elaine: “que tipo de alimentação ela está acostumada a comer?” Resumo da história: fazendo a dieta orientada por esse médico, a garota não só ficou longe das cirurgias de intestino, que outros médicos haviam sugerido, preservando-o completamente, como também, ficou livre dos sintomas da doença dois anos depois que começou a fazer a dieta. Pelas informações que se tem, ela está bem já há mais de vinte anos. Com o sucesso do tratamento e depois que o Dr. Sidney faleceu, Elaine resolveu passar a dieta orientada por ele a todas as pessoas que, de alguma forma, tivessem problemas intestinais. (Hoje se sabe que a dieta tem bons efeitos também em casos de autismo).
Esta é somente uma parte da história. Nesses 30 anos que se passaram, Elaine procurou se especializar no estudo dos efeitos que a comida causa no corpo humano. Ou melhor, como é a relação que existe entre a alimentação e as doenças intestinais como Crohn, colite ulcerativa, diverticulite, doença celíaca e outras formas de diarréia crônica. Elaine percorreu um longo caminho. Ela passou 10 anos em universidades: graduou-se em bioquímica e depois fez pós-graduação no Departamento de Nutrição de Rutgers, na Universidade de New Jersey. Também passou pelo Departamento de Anatomia da Universidade de Ontário, no Canadá (para onde se mudou, em 1975), investigando as mudanças que ocorrem nas paredes do intestino com as doenças inflamatórias intestinais.
A autora de Breaking the vicious cycle morava em Baltimore, no Canadá, e, nos últimos anos, costumava participar de seminários e conferências. A ABCD em Foco tentou conversar com Elaine Gottschall em agosto. Isto só não foi possível porque, em contato com o seu editor, soubemos que ela estava doente. No dia 5 de setembro Elaine Gottschall faleceu. |