De Olho no Íleo

O uso de antibiótico para fístulas perianais


É quase unanimidade: a fístula perianal é um dos sin­tomas mais desagradáveis do Crohn. Além da dor que ela provoca, os pacientes ainda têm que conviver com aquela drenagem recorrente de secre­ções, que podem formar abscessos e necessitar até de ­cirurgia. É ­muito chato mesmo! Um recente arti­go publicado na Digestive Disease and Sciences (vol. 50, de Julho de 2005), mostrou um estudo feito por pesquisadores do Centro ­Médico de Rot­ter­­dam, na Holanda, com 30 pacientes, de ambos os sexos, para identificar quais microorganismos são isolados mais freqüentemente em culturas de fístulas perianais. Enquanto parte do grupo ­recebeu a aplicação de infliximabe 5 mg/kg e ciprofloxacina 500 mg, duas vezes ao dia, o outro grupo recebeu somente o infliximabe e placebo. As culturas ­obtidas antes e após o tratamento foram praticamente as mesmas em ambos os grupos, só que o estudo concluiu que os microorganismos gram positivos, ou seja, a contaminação da pele, são os mais freqüentes. Por isso, a Ciprofloxacina, o antibiótico mais indicado nesses casos, precisa estar associado a uma outra cobertura antibiótica específica para os gram po­sitivos.

”Na minha opinião, o metronidazol continua ­sendo o antibiótico de eleição nas fístulas perianais, embora associações com outros antibióticos sempre sejam uma opção para esta complicação de difí­cil manejo farmacológico, principalmente pela sua recidiva”, diz a Dra. Marta Brenner Machado, médi­ca gastroen­te­ro­lo­gista que é coordenadora da filial da ABCD de Porto Alegre, RS. “Aumentar o ­espectro bactericida com cober­tu­ra para agentes de pele e exames culturais para identi­fi­car o agente ­específico, me parece ser útil em situações refratárias aos antibióticos normalmente usados e ­aceitos  na ­literatura, que são o metronidazol e a cipro­flo­xacina, assim como a associação de ambos”, com­ple­ta a médica.


E por falar em fístulas perianais...

No Centro Médico de Nashville, Tenesse, nos ­Es­ta­dos Unidos, foi realizado um estudo com 21 pacientes de Crohn que apresentavam fístulas pe­ria­nais. O seu ob­je­ti­vo foi avaliar se a endoscopia e a ultra-sonografia poderiam combinar um tratamento clínico e cirúrgico para as fístulas perianais. Durante o estudo, os pacientes utilizaram diversos medi­ca­mentos, como 6-Mercaptopurina, Azatioprina, Infliximabe e Ciproflo­xa­cina e apresentaram respostas diferentes quanto aos tratamentos. A conclusão do estudo, no entanto, foi a de que o uso de métodos combinados para guiar o tra­tamento das fístulas perianais é mais eficiente e dá melhores resultados. “As lesões perianais são as piores complicações visíveis nos pacientes de doença de Crohn e as drogas mais utilizadas para combatê-las dependem da sua seriedade e da resposta aos tratamentos”, diz o gastroenterologista argentino Dr. Luis Boerr, do Hospital Alemão, de Buenos Aires. “Quando há abs­ces­sos eles precisam ser drenados, assim como quando há pus em qu alquer parte do organismo. Quanto aos tratamentos médicos, eles incluem antibióticos como a ciprofloxacina e o metronidazol, o Anti-TNF (Infliximabe) e imunos­su­pressores, como o 6-Mercaptopurina, a Azatioprina e o Metrotrexate, entre outros”, explica o Dr. Boerr. “Sem dúvida, os novos métodos como a ecoendoscopia e a ressonância mostram evidências claras sobre a complexi­dade das lesões perianais e sobre a sua evolução du­ran­te o tratamento,” conclui o médico ­argentino.


395 espécies de bactérias

Você, leitor, pode imaginar que existem cerca de 100 trilhões de bactérias em todo o intestino, ou seja, desde o estômago até o final do cólon, no intes­ti­no grosso? É isso mesmo: 100 trilhões são muitas bactérias para ser investigadas e os médicos já ­sabiam que há cerca de 400 a 500 espécies de bacté­rias. A boa notícia é que um estudo realizado pela Escola de Medicina da Univer­si­dade de Stanford, nos Estados Unidos, conseguiu identificar 395 espé­cies dessas bactérias, o que é quase tudo o que se supunha haver. “Este é, sem dúvida, um ­grande passo, pois agora vai ser possível mapear toda a flora intestinal dos pacientes”, comemora o Dr. Adérson Damião, gastroenterologista do Hospital das Clíni­cas da Faculdade de Medicina da USP. “Os pacientes com doenças inflamatórias intestinais têm uma flora intestinal muito peculiar e, sendo possível identificar mais pormenorizadamente este perfil bacteriano, teremos implicações tanto na melhor compreensão dessas doenças como no tratamento”, diz o médico. O trabalho pa­rece ter sido desenvolvido com tantos detalhes que ele vai ajudar no inventário da flora intestinal de uma pessoa, de ­forma que, se houver casos de doença inflamatória intestinal na família, a análise do perfil da ­flora intestinal talvez contribua para se predizer se a pessoa desenvolverá ou não a doença do ponto de vista ­clínico. Foi um superavanço, não foi?!


Campeão mundial de Crohn


Há três meses, circulou no site myDNA, que traz in­formações sobre ­doenças, ­pesquisas e diag­nósticos, uma notícia, no mínimo, ­surpreendente. Uma pesquisa da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, no Ca­na­dá, concluiu que aquele país tem a maior taxa de pacientes de Crohn do mundo: são 580 casos por 100 mil habitantes. Mais duas revelações: esta taxa ­varia de região para região ­dentro do Canadá e a colite ul­ce­ra­tiva, outra doença inflamatória intestinal, também apre­senta uma ocorrência significativa ­naquele país. Qual a razão desses números tão altos? Mistério… Pare­ce que ­saúde e desenvolvimento econômico-social nem sempre andam de mãos dadas, como se imagina.