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Orientando a
paciente grávida com DII.
| Por:
Dra. Sunanda V. Kane, MSPH, FACG, Universidade de Chicago |
Resumo
DII afeta mulheres jovens, em fase fértil. Muitas mulheres
têm dúvidas a respeito de sua saúde reprodutiva
e necessitam de atenção especial antes e durante
a gestação. Médicos geralmente se confundem
sobre as últimas informações e escolhas apropriadas
para o tratamento dessas pacientes. O conceito mais importante
para se lembrar é que a doença ativa é o
maior inimigo para a gravidez e os especialistas precisam trabalhar
mais de perto com os obstetras a fim de garantir um melhor resultado
para a mãe e a criança. Este artigo destaca alguns
aspectos importantes da saúde reprodutiva da mulher e sua
relação com a gravidez. Fertilidade, controle de
natalidade (anticoncepção) e administração
da doença durante a gestação, incluindo o
planejamento e tratamento, estão em destaque.
Fertilidade
As taxas de fertilidade de mulheres com DII são comparáveis
ao resto da população. Estudos antigos que sugeriram
baixas taxas de fertilidade, não levaram em conta um aumento
voluntário da taxa de mulheres que não queriam ter
filhos.
Não ter filhos voluntariamente pode ocorrer devido ao medo
da intimidade (dispareunia). Algumas mulheres continuam sem filhos
porque temem a transmissão da doença para seus bebês.
Dados atuais revelam que este risco é baixo; 7% se um dos
pais tem Doença de Crohn e menos do que isto se um deles
possui Colite Ulcerativa. Entretanto, o risco de DII aumenta para
37% se os dois pais têm a doença. O risco de herdar
DII é maior nos judeus (7,8%) do que nas famílias
não judias (5,8%). É importante lembrar que DII
não é uma doença genética num critério
Mendeliano clássico. Mesmo com a predisposição
genética, outros fatores são necessários
para se criar manifestações de uma das doenças.
A Doença de Crohn quando ativa, de qualquer modo pode reduzir
a fertilidade de diferentes maneiras. Varia, dependendo do local
da inflamação, ou seja, atividade no colon tem mostrado
uma redução na fertilidade, bem como qualquer inflamação
ou cicatrização envolvendo diretamente os ovários
ou as trompas.
Existe uma controvérsia a respeito da mulher que passou
por uma proctocolectomia total com anastomose ileo-anal antes
da eventual gravidez. Um estudo sugere que a fertilidade e as
funções sexuais são mantidas. Porém
um estudo mais recente sugere a diminuição significativa
na fertilidade seguida deste tipo de cirurgia.
Nenhum dos medicamentos comuns usados para tratar DII tem efeito
na fertilidade feminina, mas é importante lembrar que o
tratamento com sulfasalazina causa a redução reversível
na motilidade e contagem dos espermatozóides nos homens.
Contracepção
A administração da contracepção das
mulheres, com DII, que não querem ter filhos difere das
demais. O objetivo mais importante ainda é a seleção
de um método contraceptivo mais confiável. Os métodos
contraceptivos com barreira são aceitáveis, mas
não tão efetivos quanto as outras alternativas.
O uso de dispositivos intra-uterinos normalmente não é
recomendado, pois qualquer queixa de dor abdominal pode potencialmente
retardar o diagnóstico correto de atividade da DII contra
a doença inflamatória pélvica, por complicação
decorrente do tal dispositivo.
Os dados considerando a segurança de contraceptivos orais
na DII são conflitantes. Estudos antigos sugerem um aumento
de risco para o desenvolvimento de Doença de Crohn e Colite
Ulcerativa, mas não levou em consideração
o uso do tabaco. Dois outros estudos de controle de casos, da
Universidade de Chicago, não encontraram um aumento de
risco. Nos Estados Unidos, não existem dados que liguem
diretamente a ocorrência da doença com o uso de contraceptivos
orais.
Alguns médicos usam com sucesso os contraceptivos orais
para sintomas que aparentam estarem relacionados com o ciclo menstrual.
Alguns trabalhos sugerem que algumas fases do ciclo menstrual
são associadas com a atividade maior da doença;
o mecanismo para achar isto ainda não foi completamente
explicado, mas pensa-se que está relacionado com a relação
dos níveis hormonais.
No momento, não existem diretrizes certas para o uso de
contraceptivos orais, já que existem muitas preparações
disponíveis. A quantia incerta de progesterona e estrogênio
são fatores que determinam o perfil do efeito colateral.
A escolha de qual contraceptivo oral utilizar tem que ser individualizado,
levando em consideração fatores incluindo o passado,
paridade e preferências do paciente. Não é
prudente tentar prescrever a formulação que contém
a menor quantidade de estrogênio possível.
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Os
Efeitos da DII na Gravidez
Discussões abertas, entre pacientes e médicos, são
a melhor maneira de assegurar um melhor resultado da gravidez.
Se uma mulher estiver saudável e em remissão durante
o momento da concepção, tem-se toda razão
de esperar que a gestação ocorra tranqüilamente.
Se a doença ativa estiver presente no momento da concepção,
é bem provável que continue durante a gestação
e vai colocá-la em grande risco de complicação.
Este risco aparenta ser maior na Doença de Crohn que na
Colite Ulcerativa. Por esta razão, a prioridade principal
é estabelecer e manter a remissão antes da paciente
conceber o filho. Uma definição exata da remissão
em Doença de Crohn pode ser difícil, pois a paciente
pode se sentir bem mesmo que ela esteja com um nível elevado
de proteína C reativa, uma colonoscopia e/ou raios-X anormal.
Mulheres com DII em remissão não apresentam maior
probabilidade de apresentar um aborto espontâneo, natimorto
ou uma criança nascida com anormalidade congênita.
A maior parte dos estudos tem descoberto que mulheres com Doença
de Crohn têm maior probabilidade de dar a luz a crianças
com baixo peso na hora do parto. Se isto é devido à
inflamação ativa ou ao aumento de risco por exposição
ao tabaco não se sabe. A doença ativa durante a
gravidez aumenta o risco do nascimento prematuro.
A presença da DII não parece ter impacto em complicações
maternas relacionadas com a gravidez, incluindo hipertensão
e proteinúria. Entretanto, doença perianal ativa
pode piorar depois do parto normal. Um estudo retrospectivo de
mulheres com Doença de Crohn verificou que 18% daquelas
sem parto normal prévio, desenvolveram estas lesões
após o parto, normalmente envolvendo uma episiotomia extensa.
Por outro lado, a presença de DII não tem impacto
significativo no método do parto, nem é uma indicação
para cesária. Mulheres com Colite Ulcerativa e Doença
de Crohn sem complicações (ex: sem evidência
de doença perianal ou fístula pélvica) devem
fazer cesária apenas por indicação obstétrica
e não gastroenterológica.
Efeitos da Gravidez na DII
Para mulheres com Colite Ulcerativa quiescente, o índice
de recaídas é aproximadamente o mesmo em pacientes
grávidas e não grávidas. Isto é um
contraste com a presença da doença ativa no momento
da concepção, que está associada com a continuidade
ou piora da atividade da doença em aproximadamente 70%
das mulheres. Observações comparáveis podem
ser vistas na Doença de Crohn. Literaturas antigas sugeriam
uma tendência de que a doença pioraria durante o
primeiro trimestre, porém isto foi documentado antes da
prática aceita de terapia de manutenção,
continuada até mesmo durante a gestação.
É importante lembrar que o nível de hemoglobina
e albumina diminuem e a taxa de hemossedimentação
aumenta durante uma gestação normal. Devido a estas
mudanças fisiológicas normais, a avaliação
da doença durante a gestação deve se basear
mais em sintomas clínicos do que parâmetros laboratoriais.
Exames de ultrassom são claramente seguros e não
existe evidência de que se indicada, uma sigmoidoscopia
induzirá a um parto prematuro. Colonoscopia só deve
ser realizada quando a extensão e severidade da doença
têm que ser averiguada.
Existem dados que sugerem que o histórico de dar a luz
muda o histórico natural da Doença de Crohn. Mulheres
que engravidaram tiveram menos ressecções ou maiores
intervalos entre ressecções comparadas àquelas
que não tiveram filhos, mas com doença similar.
Uma explicação possível é a inibição
da função do macrófago pela Relaxina, que
é um hormônio produzido exclusivamente durante a
gestação, e que pode resultar em menos fibrose e
formação de estenose por meio desta inibição.
Tratamento de DII durante a gravidez
A chave principal para o manejo, é lembrar que o maior
risco para a gravidez é a doença ativa, não
a terapia. Já que existem dados limitados disponíveis
sobre a segurança dos medicamentos da DII durante a gestação,
o foco então deveria ser no estabelecimento da remissão
antes da concepção e a manutenção
da remissão durante a gravidez.
A Sulfasalazina rapidamente atravessa a placenta, mas não
tem sido associada a qualquer anormalidade dos fetos. No entanto,
pacientes que tomam Sulfasalazina também deveriam ser suplementados
com ácido fólico antes de conceber para diminuir
o risco de defeitos no tubo neural. A dose de 2 miligramas por
dia seria apropriada.
A segurança da mesalazina durante a gravidez tem sido demonstrada
em diversos experimentos. Em dois estudos prospectivos separados,
mulheres que ingerem de 2 a 3/g por dia não tiveram aumento
na incidência de anormalidades do feto quando comparadas
a mulheres sem qualquer doença. Agentes como 5-ASA tópicos
também são seguros durante a gestação.
Os dados a respeito da terapia com imunossupressores (Azatioprina,
6-Mercaptopurina) são mais contraditórios. Não
existem estudos extensos sobre o uso dessas medicações
durante a gravidez nas mulheres com DII. Até agora as informações
vem da literatura de transplantes e das séries retrospectivas
na DII. Os médicos mais experientes em DII acreditam que
os imunossupressores como 6-Mercaptopurina, Azatioprina e Ciclosporina
podem ser usados, seguramente, durante a gestação
se a saúde da mãe exigir a terapia. O Metotrexate,
outro imunossupressor, é contra indicado nos casos de gravidez.
O Infliximabe, a primeira terapia biológica disponível
para tratar da Doença de Crohn, carrega a categoria B de
risco gestacional ( baixo risco).
Corticóides não têm sido associados com teratogenicidade
(má-formação) nos seres humanos e podem ser
usados conforme a necessidade para controlar a atividade da doença.
Dados muito limitados estão disponíveis em relação
à segurança de antibióticos como tratamento
da Doença de Crohn. Atualmente, acredita-se que ampicilina,
cefalosporina e eritromicina são seguros, assim como a
ciprofloxacina. O Metronidazol tem sido utilizado para tratar
vaginite em mulheres durante o primeiro trimestre da gravidez,
porém nenhum estudo controlado demonstrou segurança.
A Tabela 1 detalha a segurança desses medicamentos utilizados
em DII.
Os medicamentos conhecidos como seguros para amamentação
incluem as preparações de Sulfasalazina (Azulfin),
a mesalazina (Mesacol, Pentasa, etc.) e esteróides de 20mg
ou menos. Mães que planejam ou já amamentam deveriam
suspender o uso de ciclosporina, metronidazol, ciprofloxacina
e metotrexate. Não existem dados disponíveis a respeito
de tiopurinas (imunossupressores), e deve-se, portanto, discutir
caso a caso. A Tabela 2 resume dados de segurança sobre
os medicamentos e seu uso durante a amamentação.
Estão em andamento estudos sobre os níveis de medicações
no leite materno, para calcular qualquer risco de imunossupressão
no bebê.
Cirurgia
e Gravidez
As
indicações para cirurgia durante a gravidez são
idênticas àquelas de pacientes não grávidas.
Estas incluem: obstrução, perfuração,
abscesso e hemorragia. A gestação não tem
se mostrado uma complicação para funcionamento de
estoma. Mulheres podem experienciar algum prolapso devido à
pressão abdominal, mas não se depara com um aumento
de risco na gestação.
Um acompanhamento prolongado, de mulheres com anastomose íleo-anal
que tiveram parto normal, não mostrou nenhum efeito prolongado
prejudicial na função da bolsa ileal. Durante a
gravidez, no entanto, mulheres notaram um aumento na freqüência
evacuatória, certa incontinência e na maioria os
sintomas resolviam depois do parto, sem aumento no risco de bolsite
(inflamação da bolsa). Os autores sugerem que este
tipo de parto nas pacientes com esta condição deve
ser decidido pelas considerações obstétricas.
Outros cirurgiões acreditam que o risco para problemas
permanentes com a bolsa é maior com parto normal e recomendam
que todas pacientes com esta cirurgia para Colite Ulcerativa devam
realizar a cesária.
Resultados da Cirurgia
Debates têm acontecido para estabelecer se mulheres que
tiveram anastomose íleo-anal deveriam ser autorizadas a
ter parto normal ou se uma cesária deveria ser planejada.
Um estudo sugere que o parto normal
possível. Em outro estudo de 43 gestantes com condições
pós anastomose íleo-anal, a gravidez foi bem suportada,
com uma taxa de complicação menor do que daquelas
que tinham ileostomia. Embora mais cesárias tenham sido
realizadas nas mulheres com anastomose íleo-anal, a explicação
foi provavelmente devido à incerteza sobre a função
da bolsa.
Ocorrência de dispareunia (desconforto na relação
sexual) pode acontecer seguido da cirurgia pélvica, variando
de 0 a 26%. Esta variação pode ser devida à
natureza heterogênea das cirurgias ou falta de comunicação
de sintomas para os médicos. Após a anastomose ileo-anal,
um relatório descobriu 15% de ocorrências de dispareunia
e aumento de problemas menstruais.
Tabela
1 - Segurança dos medicamentos para DII durante a gravidez
|
| Seguro
para usar quando indicado |
Informações
limitadas |
Contra-indicado |
Mesalazina
Oral/Tópico
Sulfasalazina
Infliximabe
Ciprofloxacina
Metronidazol (depois do 1º trimestre)
Corticosteroides
Loperamida |
Olsalazina
Azatioprina
6-Mercaptopurina
Ciclosporina |
Metotrexate
Talidomida
Difenoxilato |
Tabela
2 - Segurança dos medicamentos para DII durante a amamentação
|
| Seguro
para usar quando indicado |
Informações
limitadas/sem informações |
Contra-indicado |
Mesalazina
oral
Mesalazina tópica
Sulfasalazina
Corticosteroides
(20mg ou menos) |
Olsalazina
Azatioprina
6-Mercaptopurina
Infliximabe
Metronidazol |
Metotrexate
Talidomida
Ciclosporina
Ciprofloxacina |
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