|
Será que os tratamentos alternativos
funcionam para quem tem doença de
Crohn ou colite ulcerativa? Será que
são perigosos? Quando será que valem
a pena tentar?
| »
Por Valquíria Sganzerla |
Está na Internet: medicina alternativa é a prática de saúde baseada em princípios, métodos ou conhecimentos que não são testados, nem são científicos. A definição vai mais além, informando que a medicina alternativa é geralmente anticientífica e baseada em crenças metafísicas. Medicina chinesa, medicina ortomolecular, homeopatia, bioenergética, fitoterapia, terapia holística, reiki, medicina com as mãos, geoterapia, hidroterapia, acupuntura, florais de Bach, shiatsu, cromoterapia, hipnose...,uau! Há uma infinidade de tipos de tratamentos e há também cada vez mais novidades. Um site de busca na Internet sobre Medicina Chinesa mostra 65 páginas, cada uma delas com cerca de 10 endereços. Somente sobre reiki, outra terapia oriental bastante conhecida, há 65 sites sobre essa técnica. Até parece que, quanto mais o homem evolui tecnologicamente (e na medicina estamos assistindo à discussão dos trabalhos com células-tronco para curar doenças até então incuráveis), mais vemos o homem se voltando para si mesmo, se interiorizando e procurando novos caminhos para a sua vida.
O grande perigo que rodeia a medicina alternativa é o de se considerar que essas práticas curativas não convencionais sejam, de fato, alternativas à medicina. “Uma das conseqüências é o abandono de condutas de eficácia já estabelecidas pela ciência médica por outras que ainda não passaram pelo escrutínio da ciência”, diz o médico e professor titular de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, Carlos Eduardo Tosta, lembrando do caso da atriz Dina Sfat, que morreu em 1989 de câncer, depois de optar por vários tratamentos alternativos. Acho que o termo mais adequado seria “medicina complementar” em que se associa as práticas não-convencionais às convencionais. Durante três anos (de 2000 a 2003), o professor Carlos Eduardo desenvolveu uma pesquisa no Laboratório de Imunologia Celular daquela instituição com a finalidade de estudar o efeito da prece (é isso mesmo, da oração) sobre a saúde das pessoas. Participaram 52 estudantes de medicina, divididos em pares do mesmo sexo e da mesma idade, que verificaram se a prece intercessora a distância poderia alterar a função de células de defesa do corpo, como os monócitos e os neutrófilos. A metodologia adotada foi de estudo duplo cego (nem os participantes do projeto nem os pesquisadores sabiam quem recebia a prece). Por outro lado, o grupo dos intercessores, formado por 10 pessoas de diferentes religiões, recebia a foto e o nome de uma das pessoas que seria o alvo da prece, sendo que eles se comprometiam a rezar durante sete dias pelo indivíduo. Quando as pessoas que receberam a prece foram comparadas com as que não receberam, ou a mesma pessoa foi comparada antes e depois de ser alvo da prece, comprovou-se, através de exames de sangue, que a prece tinha aumentado a estabilidade da função celular, o que quer dizer que as células funcionaram melhor. “Quando interpretamos os dados, observamos que a prece teve o papel de induzir equilíbrio e isso faz sentido, já que em medicina equilíbrio é sinônimo de saúde”, diz o professor Carlos Eduardo.
Sem tirar nenhuma conclusão, ou ser partidária de qualquer procedimento, e somente com o objetivo de informar nossos leitores, a ABCD em Foco conversoucom quatro profissionais que trabalham com tratamentos considerados alternativos: Dr. Mauro Perini, médico especialista em Medicina Chinesa; Dra. Mirian Rotnes Bruck, médica clínica que utiliza Medicina Ortomolecular; Dr. Freddi Dimantas, homeopata há 25 anos; Dr. Fábio de Camargo Gabas, médico clínico e ultrassonografista que trabalha com medicina integrativa.
Vamos às entrevistas:
Para o Dr. Mauro Perini que há 18 anos trabalha com medicina chinesa, as doenças crônicas podem ser controladas assim como na medicina ocidental. “Na Medicina Chinesa nós promovemos ações que, pouco a pouco, resultam numa remissão das crises, mas isso não quer dizer que a pessoa está curada”, diz o Dr. Perini acrescentando ainda que, nas doenças crônicas, o tratamento medicamentoso não deve ser interrompido. “Os medicamentos da Medicina Tradicional Chinesa são baseados na Fitoterapia (terapia pelas plantas) e como eles não têm as contra-indicações que os medicamentos químicos geralmente têm, há, de fato, uma melhora na qualidade de vida do paciente”, explica o Dr. Perini. Com relação às Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), o médico explica que esses diagnósticos na Medicina Chinesa são considerados doenças do fogo. “O nosso organismo tem uma energia orgânica que, como qualquer energia, tem bipolaridade: positivo e negativo, Yang e Yim, calor e frio, noite e dia. O ideal é que essas forças estejam equilibradas, mas se houver desequilíbrios a pessoa pode ter problemas”, diz. “Falar que a doença inflamatória intestinal é doença do fogo é o mesmo que dizer que a pessoa, que é portadora deste diagnóstico, tem um enfraquecimento da polaridade Yim. Isso quer dizer que quando o Yim enfraquece o Yang aumenta e ataca os intestinos, causando a doença”.
A Dra. Mirian Bruck é médica clínica há 24 anos e desde 1993 utiliza Medicina Ortomolecular no seu consultório no Rio de Janeiro. “Basicamente, a palavra ortomolecular significa molécula certa, no lugar certo. A Medicina Ortomolecular preocupa-se com qualquer tipo de desequilíbrio que esteja ocorrendo no meio molecular. Dentre eles, o processo inflamatório que gera um aumento de radicais livres, principalmente os derivados do oxigênio que não conseguem ser neutralizados pelos antioxidantes naturais”, explica a Dra Bruck. Segundo a médica, através da medicina ortomolecular se corrige, terapeuticamente, o déficit nutricional que ocorre com o paciente, promovendo a eliminação ou inibindo a absorção de substâncias tóxicas do organismo. Na verdade, pode-se dizer que é um caminho de mão dupla: enquanto se aumenta a concentração de substâncias que tenham efeito imunológico (como vitamina C), se combate o excesso de radicais livres fornecendo os antioxidantes naturais. A indicação do tratamento ortomolecular deve ser muito criteriosa e vai depender do estado geral em que se encontra o paciente. “Assim como o tratamento alopático, a Medicina Ortomolecular segue critérios fundamentados no conhecimento científico e na prática clínica. Se a terapêutica não for conduzida da maneira correta, ou introduzida no momento certo, ela não trará nenhum benefício ao paciente”, diz a Dra. Bruck.
“Similia, similibus, curentur: o semelhante cura o semelhante”. Este é o dogma da Homeopatia e é também o princípio que rege o trabalho do Dr. Freddi Dimantas, há 25 anos. “Para o homeopata não interessa a doença e sim o doente, com todos os sintomas mentais, emocionais e físicos”, diz o Dr. Dimantas, que também trabalha com Fitoterapia, a terapia que é feita através de ervas e plantas medicinais. “O especialista fica somente na sua especialidade. A vantagem do homeopata é saber que o indivíduo é um todo: físico, mental e espiritual”, diz o médico. Já é bem conhecida a forma de a homeopatia olhar o paciente, ou seja, cada um tem uma personalidade diferente: um pode ser mais tranqüilo, o outro pode ser mais queixoso; o outro ter mais ansiedade e o outro sofrer de insônia. “Cada um é de um jeito e nós temos que identificar na natureza um remédio que pegue todos os sintomas e características”, diz o médico. Na homeopatia os medicamentos são feitos com os três reinos da natureza e eles são diluídos infinitamente e dinamizados através da agitação molecular. “Este tratamento é indicado para qualquer tipo de patologia, inclusive de doenças crônicas. E a homeopatia não quer dizer, como algumas pessoas pensam, um tratamento longo e demorado até que o paciente obtenha alguma melhora. O Dr. Dimantas volta a chamar a atenção de que ter resultado no tratamento depende muito mais do paciente. “Uma pessoa com uma enxaqueca de 20 anos pode ser curada tomando uma única dose do medicamento que lhe é indicado”, diz o médico.
Desde que iniciou seus plantões em ambulatórios, o Dr. Fabio de Camargo Gabbas, médico clínico e ultrassonografista, já se incomodava por assistir à segmentação do corpo humano em órgãos e tecidos, cada um deles sob responsabilidade de um determinado especialista. “Reconheço a importância do especialista e sua necessidade, porém minha função deveria ser promover harmonia não somente no corpo físico como um todo, mas também na sua relação com corpos mais sutis (esotérico, emocional, mental e espiritual)”, conta o Dr. Gabbas. “Quando o corpo se desequilibra para o lado das adversidades, tais como má alimentação, toxinas, metais tóxicos, deficiência de nutrientes e oxigênio, stress, etc., nosso terreno biológico fica fértil para manifestação das patologias”, explica o Dr. Gabbas. O paciente pode fazer uma reeducação alimentar, terapias oxidativas (ozônio, H 2 O 2 e câmara hiperbárica) e, se for o caso, terapia celular, na qual são fornecidas células específicas de alta qualidade que ajudam um tecido a se recuperar e a retornar ao seu funcionamento ideal.
Quando descobriu que é portador de retocolite, há dois anos, Jackson Alves da Trindade, 29 anos, tinha acabado de passar por uma crise violenta, como ele conta. Tomou vários corticóides, que amenizaram a sua dor abdominal por pouco tempo e o exame de colonoscopia lhe trouxe o diagnóstico. Fez um tratamento com sulfassalazina e mesalazina, mas depois de um ano tomando esses medicamentos não tinha tido nenhum resultado. De vez em quando era obrigada a faltar no emprego (ele é gerente de Marketing de uma rede de escolas de inglês) porque tinha que se internar no hospital para fazer uma aplicação na veia de cortisona para se livrar da dor e do sangramento. “Eu não parava em pé de tão fraco que estava e o que me deixava mais assustado era saber que a doença não tem cura”, conta Jackson que é gaúcho e veio para São Paulo há três anos e meio para trabalhar. Um dia seu patrão lhe sugeriu procurar um médico que faz tratamento alternativo com medicina natural. Ele foi orientado a mudar a sua alimentação, fez aplicações de vitamina Omega 3 e vacinas de ozônio. Foram cinco meses seguindo essas recomendações e hoje ele não sente mais nada. “O médico me pediu para esperar mais um pouco e fazer novos exames para conferir como está meu intestino, mas a sensação que eu tenho é de que não tenho mais a doença”, comemora o rapaz.
Há dois anos e meio, ele precisou tirar 50 cm do intestino delgado e passou meses se sentindo muito fraco. Isso, no entanto, não foi novidade na vida de Clésio Rodrigues, um empresário de 52 anos. Desde 1989 ele sabe que tem a doença de Crohn e já tinha sido operado anteriormente para se livrar de obstruções no intestino. Há um ano e meio resolveu procurar a medicina chinesa para conferir se ela podia ajudar no seu caso. Clésio não se decepcionou. Aprendeu a cuidar melhor do seu regime alimentar, fez várias sessões de acupuntura e tomou muitos chás chineses. Em nenhum momento, porém, ele deixou de tomar os quatro comprimidos por dia de Pentasa que o seu gastroenterologista lhe tinha indicado. Hoje, Clésio que é casado e tem dois filhos adultos, está bem e com o Crohn controlado. “Uma doença crônica como o Crohn exige tratamentos múltiplos”, diz o empresário. “Eu tomo os remédios diariamente, mas pelo menos uma vez por semana faço acupuntura. Dos medicamentos chineses já estou liberado”, diz o empresário.
“Além de usar a medicina alopata, o paciente também precisa ter algum tratamento que seja complementar”, diz Waldir José Moraes, um analista de sistemas de 43 anos. “Eu tomo Mesacol diariamente e, esporadicamente cortisona para aliviar os sintomas da minha doença de Crohn. Os medicamentos da medicina chinesa ajudam a diminuir a carga (os efeitos colaterais) desses remédios alopatas”, avalia Waldir. Sua doença inflamatória intestinal foi diagnosticada há cinco anos, mas em 2001 ela se mostrou extremamente agressiva, segundo ele diz. Nessa época, ele passou 120 dias internado, tirou 40 cm do intestino e já tinha perdido 20 quilos ele mede 1,88 m de altura e está com 76 quilos, mas chegou a pesar 56 quilos. Ficou afastado do trabalho durante oito meses e o único efeito das doses de cortisona que já tinha tomado foi perder o sono. “Quando cheguei na clínica para fazer o tratamento com medicina chinesa eu estava completamente dependente da cortisona, como se eu fosse um dependente de drogas”, conta Waldir. “Nos primeiros dias de internação já senti melhora. Hoje, após quatro anos de tratamento, estou bem e de vez em quando faço sessões de acupuntura para manter o equilíbrio do meu corpo”, diz Waldir. |