De olho no íleo

Uma nova droga

Natalizumabe certamente você nunca tinha ouvido falar neste nome, mas os resultados que vêm sendo obtidos com este novo agente terapêutico que inibe a migração dos leucócitos (glóbulos brancos) através dos vasos sanguíneos, reduzindo assim a inflamação no intestino nos pacientes de Crohn, deixaram mais confiante a comunidade médica. O Dr. William Sandborn, chefe da unidade de pesquisa em doença inflamatória intestinal da Clínica Mayo, em Rochester, nos EUA, apresentou dois estudos com a nova droga na Semana Européia de Gastroenterologia de 2004: o
ENACT 1, que avaliou a resposta clínica ao Natalizumabe, e o ENACT 2, para determinar a capacidade de o medicamento manter o paciente longe de crises por 1 ano. Em ambos os casos, os resultados foram promissores. Vamos aguardar a evolução dos estudos e torcer!

Um imunomodulador quase natural

O laboratório americano Berlex, afiliado à Schering AG da Alemanha, anunciou em boletim da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos que está testando uma versão modificada da Lipoxina, uma molécula natural do organismo que exerce uma potente ação antiinflamatória e tem efeito imunomodulador na doença de Crohn. Este laboratório já vem realizando mundialmente testes com o Leukine (sargramostim), que possui um mecanismo de ação completamente diferente dos remédios existentes no mercado, sendo uma nova opção para o tratamento da doença. Na pesquisa realizada, a lipoxina modificada, administrada por via oral, reduziu drasticamente a quantidade de marcadores inflamatórios da mucosa como a Interleucina 2, o Fator de necrose tumoral alfa (TNF) e o Interferongama, agindo como bloqueador e controlador do processo de inflamação. Vamos esperar para ver­ se o empenho dos cientistas que se dedicam a estas descobertas traz mais conforto aos portadores da doença de Crohn.

Vem aí o primo do remicade

Acaba de ser publicado na edição de janeiro da revista American Journal of Gastroenterology um artigo sobre o uso do Adalimumabe (um agente anti-TNF) em doentes de Crohn que estavam usando o Infliximabe o Remicade , porém já não apresentavam mais os efeitos benéficos deste medicamento. Dos 13 pacientes observados em testes, 7 deles (54%) tiveram remissão completa dos sintomas, enquanto 4 (31%), melhoraram parcialmente. Em nenhum caso foram observados efeitos colaterais importantes. O único fato desta notícia que não dá para comemorar é que o uso desta medicação, que é administrada de forma subcutânea, ainda não está aprovado para doença de Crohn. Os autores do artigo, entretanto, acreditam que esse medicamento poderá ser uma opção válida para pacientes que não respondem mais ao Infliximabe. Se tudo correr bem, em breve teremos o Infliximabe na linha de frente, e o Adalimumabe como opção para aqueles que não responderem ao tratamento com o primeiro ou para quando a medicação for perdendo o efeito com o tempo, algo que pode acontecer apesar de não ser muito freqüente.

Como são feitas as pesquisas de novos medicamentos

A grande maioria dos pacientes, de qualquer diagnóstico, já ouviu falar que as indústrias farmacêuticas costumam fazer testes clínicos em voluntários antes de colocar no mercado novos medicamentos. Vez por outra até se têm notícias de que um determinado projeto está na sua Fase I, ou passou para a sua Fase II, Fase III e por aí vai. Mas falando francamente, você, leitor, tem idéia de como esses testes são realizados? Você sabia que há muito tempo os cientistas deixaram de usar somente ratos e camundongos como cobaias? Realmente, o processo não é mais tão simples assim. Para começar, os primeiros estudos do novo medicamento já têm que mostrar uma viabilidade operacional com base científica, de forma a atrair o investimento de alguma instituição que banque o seu custo financeiro. Só a partir daí é que começam a ser realizadas as pesquisas propriamente ditas, englobando várias fases subseqüentes.

Na Fase I, são reunidos de 20 a 100 indivíduos voluntários, saudáveis, que passam a usar o novo medicamento. O objetivo dessa fase é verificar se a droga é mesmo segura e quais doses são mais adequadas para serem indicadas. Na Fase II, os cientistas querem estudar se, além de eficaz e seguro, o medicamento provoca efeitos colaterais em quem o usa. Nesta fase os testes geralmente são feitos num universo de 100 a 300 pacientes, todos portadores da doença para a qual se destina o novo remédio. Depois, ainda pode haver a Fase III, que inclui praticamente os mesmos procedimentos da fase anterior, só que numa amostra maior de pacientes de 1000 a 5000 pessoas ou utilizam o medicamento, ou o comparam com a aplicação de placebo, ou simplesmente não ingerem nenhum medicamento.

“A maioria desses estudos são prospectivos, randomizados (a escolha dos pacientes é aleatória), controlados por placebo e ‘duplos cegos’ (quando nem o médico nem o próprio paciente sabem que estão tomando o medicamento)”, explica o Dr. Mário Geller, presidente do Capítulo Brasileiro do American College of Allergy, Asthma & Imunology PR-Network e sócio-honorário da ABCD. “Ultrapassadas essas fases, o medicamento ainda é submetido a um órgão de fiscalização (nos Estados Unidos é a FDA – Food & Drug Administration e, no Brasil, é a Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a um Comitê de Ética e Pesquisa ligado à instituição que está patrocinando o projeto”, diz o
Dr. Geller. Daí, enfim o produto chega ao mercado

Pesquisa com pacientes

Ano Zero Pesquisa básica (Investigação sobre como funciona o processo biológico normalmente e o que ocorre de ­errado em situações anormais, ou seja, que causam a doença)

Ano Zero Desenvolvimento da aplicação de conhecimentos para corrigir as anormalidades (Surge a nova terapêutica)

Ano 5 Fase pré-clínica (Testes em laboratório e em animais)

Fase I (Testa segurança, atividade e dosagem em 20 a 80 pessoas sadias)

Fase II (Testa se a medicação tem o efeito desejado em 100 a 300 pacientes)

Ano 10 Fase III - Testa a importância do efeito benéfico em 1000 a 5000 pacientes (Avaliação e registro pelos órgãos administrativos e de fiscalização)

Ano 10 Comercialização, distribuição e liberação para venda mediante a prescrição médica