Minha História



“Tenho medo de que a doença de Crohn cause catarata, e se eu tiver catarata não posso voar”, desabafa Danilo Cantoia Quintiliano, um jovem de 18 anos que quer ser piloto comercial e desde os 15 anos convive com os sintomas desta doença, como diarréia e dor no abdome. A única informação que ele tem sobre a relação entre o Crohn e a catarata é que os corticóides, os medicamentos muitas vezes usados para controlar a doença, poderiam deixar esta seqüela. Mas, com o otimismo próprio de um garoto da sua idade, Danilo acha que, com o Crohn, o pior já passou. “Quando eu descobri a doença, no final de 2001, em pleno período de férias escolares, passei uns dias internado no hospital porque evacuava muito sangue. E precisei fazer colonoscopia para descobrir o que eu tinha. Foram o pior Natal e Ano Novo que já passei”, conta Danilo que mora com os pais em Araraquara, no interior de São Paulo.

Dessa fase difícil, ele só tem lembranças desagradáveis, como não poderia deixar de ser. Hoje, no entanto, ele acha que está mais fácil lidar com o Crohn. Agora ele conhece melhor a doença e sabe de todos os cuidados que deve ter, sobretudo no que diz respeito à alimentação. Graças ao tratamento que está fazendo (sob orientação de uma gastroenterologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo), tem conseguido manter seu quadro clínico estável. E não precisa mais conviver com as espinhas da época em que tomava cortisona. “Eu fui um ‘córtico-dependente’, porque sempre que eu diminuía ou parava de tomar a cortisona os sintomas da doença voltavam. Daí eu tinha vergonha de sair de casa com a cara cheia de espinhas para encontrar meus amigos”, lembra. Agora, Danilo toma diariamente 75 mg de 6-Mercaptopurina e a cada dois meses faz uma aplicação de Remicade. Por sorte, está se dando muito bem. Já foram cinco doses deste medicamento.

O rapaz não vê a hora de começar a dar os primeiros passos para seguir a carreira que foi seu foco de atenção durante toda a sua vida: a aviação. “Até fiz cursinho durante este ano para tentar descobrir uma outra área que também me interessasse, mas não teve jeito - o que eu quero é ser piloto”, afirma o jovem. “Quem tem uma doença crônica, como o Crohn, tem mais uma razão para se manter ocupado, de preferência fazendo o que mais gosta.” É bom ouvir essa ponderação saudável vinda de alguém que passou por momentos mais complicados de saúde, justamente no período da adolescência que, por si só, é mais conturbado. Danilo poderia ter se tornado um jovem introvertido, sem nenhum tipo de sonho ou ambição. Mas não é isso que ocorre. Ele ainda não tem namorada, mas não acredita que possa ter problemas com o sexo oposto por causa da doença. “Acho que o Crohn não vai me atrapalhar na hora em que for me relacionar com alguém, nem em relação a sexo”, diz ele, que está em contagem regressiva para correr atrás do seu objetivo na vida, a aviação. No dia 11 de janeiro o jovem viaja para Campinas, onde vai morar com seu irmão mais velho, Daniel, que tem 23 anos, e está no 3º ano do curso de geografia na Unicamp. “Me matriculei num curso de manutenção de aeronave que tem duração de um ano e meio, e depois vou fazer outro para tirar o meu brevê (a carteira de motorista dos pilotos), e seguir gradativamente essa carreira”, diz. A aviação, aliás, parece que é objeto de desejo familiar: seu irmão também pretende ser piloto, já passou, aliás, no exame do DAC, o Departamento de Aviação Civil, e quer fazer o curso de fotogrametria, unindo geografia com foto aérea. “Só estou indeciso sobre como eu vou abordar a doença na minha profissão. Conto ou não conto para quem vai trabalhar comigo? Será que, de alguma forma, ela pode me prejudicar?”, questiona-se Danilo, que tem ainda muito tempo pela frente para amadurecer sua decisão, seja ela qual for.

Danilo (à dir.) com o irmão: medo que a doença de crohn impeça seu sonho de ser piloto