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Como é, e como deveria ser, o comportamento
das pessoas que convivem de perto com
doentes de Crohn e Colite Ulcerativa.
Por Maria Amalia Bernardi e Valquíria
Sganzerla
Desde que o mundo é mundo ouve-se falar que não
há nada igual ao amor de mãe – algumas vezes
nem mesmo o amor de pai se equivale. Uma mãe é capaz
de qualquer sacrifício pelos filhos, até dar a própria
vida se for para o bem deles. O fato é que os pais, de
forma geral, sofrem em dobro quando seus filhos estão sofrendo.
Se pudessem escolher, prefeririam que as coisas ruins acontecessem
com eles em vez de com seus filhos - principalmente quando a coisa
ruim é uma doença. Esse princípio vale também
para marido, mulher, avós, parentes próximos e todas
as pessoas que amam de verdade alguém. Não é
fácil assistir ao sofrimento de um ente querido. Diante
de uma situação assim a primeira reação
das pessoas é agir, tentar ajudar de alguma forma. Ocorre
que muitas vezes, justamente em função do amor e
das boas intenções, em vez de ajudar, podem acabar
atrapalhando.
Nestes quatro anos e meio de existência da ABCD em Foco,
nós, jornalistas que fazemos a revista, entrevistamos dezenas
e dezenas de pais e parentes de portadores de Crohn ou Colite
Ulcerativa - e muitas vezes presenciamos atitudes que não
agregam nada à recuperação do doente. Algumas
mães não permitem que seus filhos sejam entrevistados
pela revista porque não querem vê-los expostos publicamente.
Não querem que eles falem da sua doença, mesmo que
eles tenham vontade de falar. Outras, impedem que eles leiam a
revista para que não conheçam todas as conseqüências
que o Crohn e a Colite Ulcerativa podem ocasionar no organismo.
A mentalidade é “meu filho não tem determinados
sintomas, portanto não precisa saber que eles existem”.
Há pais que telefonam para a ABCD pedindo que a revista
publique apenas os casos suaves de doença inflamatória
intestinal. A ABCD em Foco já recebeu diversas manifestações
de pais indignados com reportagens que retratam a realidade da
doença.
Não se pretende fazer aqui uma crítica a esses pais
nem muito menos julgá-los. As duas autoras deste artigo
são mães e sabem bem que os pais têm sempre
as melhores intenções. Mas as duas autoras deste
artigo também sabem o que é ter uma doença
séria (Maria Amalia Bernardi tem Crohn e Valquíria
Sganzerla tem esclerose múltipla) e o que é conviver
com a constante aflição e preocupação
dos pais, marido e familiares. Por isso podemos afirmar que determinadas
reações atrapalham muito a vida da gente. Nós
acreditamos que se aqueles que nos amam soubessem que seu modo
de agir está sendo prejudicial, eles agiriam de outra maneira.
Para esclarecer quais os comportamentos que ajudam e quais os
que prejudicam o paciente achamos necessário escrever sobre
este assunto.
Como ajudar de forma eficaz os pacientes de doenças inflamatórias
intestinais? Como os pais, marido ou mulher e parentes próximos
de alguém que tem doença de Crohn ou Colite Ulcerativa
devem encarar esse problema e agir para realmente melhorar a situação,
ou ao menos não piora-la? É correto tratar a pessoa
com excesso de cuidados e proteção? É útil
esconder informações sobre a doença para
evitar que o paciente se preocupe com sintomas que ainda não
apareceram? Tem sentido se revoltar? É justo demonstrar
pena da pessoa? Com a palavra o psiquiatra Cássio José
do Nascimento Pitta, professor assistente do Departamento de Psiquiatria
da UNIFESP - Universidade Federal do Estado de São Paulo:
“A negação do problema não ajuda. Negar,
ou fazer de conta que nada está acontecendo, traz uma angústia
muito grande para a família e mais sofrimento para o paciente.”
De acordo com Pitta, quando os pais evitam conversar sobre a doença
e agem como se ela não existisse, a carga do doente fica
ainda mais pesada. “Por não poder tocar no assunto,
o doente se sente sozinho para lidar com o problema – um
problema que, diga-se de passagem, limita sua vida e lhe traz
intenso desconforto físico e psíquico”, diz
o psiquiatra. “Justamente por se tratar de uma doença
de evolução crônica, ou seja, uma doença
com a qual terão que conviver por toda a vida, os pacientes
de Crohn ou Colite Ulcerativa precisam estar cientes do seu problema
e de todas as dificuldades que podem surgir.” Não
importa se o doente é criança, adolescente ou adulto
- os familiares (pais e cônjuges) têm que conversar
abertamente e mostrar que, apesar de a doença ser crônica,
existem tratamentos que a aliviam e diminuem a sua evolução.
A psicóloga clínica Denise Aizemberg Steinwurz,
que acompanha os grupos de auto-ajuda para adolescentes da ABCD,
concorda plenamente com o Dr. Pitta: “A família tem
que encarar a doença junto com o paciente, principalmente
se este for adolescente.” Segundo Denise, o adolescente
tem que ser acolhido pela sua família e esta tem que se
mobilizar pela doença. “Participar de grupos de apoio
em geral ajuda muito. Esses encontros fortalecem os doentes e
os fazem acreditar que terão recursos próprios para
enfrentar seu problema”, diz a psicóloga.
Assim que os pais ficam sabendo que o filho tem a doença,
escondê-la dos parentes e amigos é muito comum. “Levei
um susto quando descobri, há três anos, que meu filho
tem Crohn. Mas hoje não escondo a doença de ninguém”,
diz Rogéria Maria Santana Albano, mãe de Guilherme,
de 19 anos, moradores de Florianópolis, SC. “Converso
em casa, com a família e até com meus amigos sobre
isso.” Rogéria explica que Guilherme é mais
reservado por natureza e não gosta muito de falar sobre
o assunto. Isso também é normal e deve ser respeitado,
já que é uma opção do paciente. Mas
Rogéria lê todas as informações que
consegue sobre a doença e as passa ao filho. “Não
dá para esconder tudo o que a doença envolve, até
porque é o Guilherme quem tem que aprender a lidar com
ela para saber como se cuidar melhor”, afirma Rogéria.
Na família Albano a conversa é aberta e o assunto
é tratado com naturalidade. O pai cataloga todos os exames
que o filho faz e a irmã Bianca, de 13 anos, participa
do problema. Nove meses atrás Guilherme passou por uma
cirurgia em que perdeu 60 cm do intestino. Hoje ele está
bem, fazendo tratamento de manutenção com Azatioprina,
três vezes ao dia. Nada o impede de freqüentar a faculdade
de Administração de manhã e um curso técnico
em Edificações à noite.
Para Neusa Viestel da Silva também foi uma grande surpresa
descobrir, há dois anos, que seu filho Rafael tem Crohn,
uma doença da qual ela nunca tinha ouvido falar. Mas desde
então tem procurado se informar ao máximo a esse
respeito. O próprio Rafael sente necessidade de saber mais
sobre a doença e utiliza a Internet para isso. “Não
sei se estávamos certos ou errados, mas desde o começo
eu e meu marido sempre falamos tudo para o Rafael”, diz
Neusa. Claro que estavam certos. Quanto mais a gente conhece o
problema, mais fácil fica lidar com ele. “Se eu tivesse
escondido a gravidade da sua doença ele certamente me acharia
exagerada quando falasse dos cuidados que ele teria que ter dali
para frente. Como sabe tudo sobre a doença, ele se cuida
direito”, afirma Neusa. É claro que no começo
nada foi fácil para os Silva. Entender a doença,
aceitá-la e aprender a lidar com ela requereu um tempo.
Mas hoje o problema está tão absorvido por Neusa,
por seu marido e pelo outro filho que às vezes eles chegam
a esquecer que Rafael tem uma doença. Mesmo porque, depois
de algumas internações, de muita cortisona e de
seis aplicações de Remicade o menino leva vida normal,
exatamente como todos os jovens de 18 anos: estuda (o 1º
ano de Administração), sai com os amigos e faz planos
para o futuro.
Num mundo como o que vivemos hoje, em que não faltam informações
sobre assuntos de qualquer natureza e que até os temas
mais polêmicos e que por séculos foram tabus são
tratados abertamente, é normal que a maioria das famílias
encare uma doença crônica com a naturalidade e a
ausência de preconceitos dos Albano e dos Silva. Mas por
mais que tenham vontade de agir assim, muitos pais não
conseguem. Alguns, na verdade, não sabem o que é
certo ou errado. “Eu não sei como lidar com essa
situação”, diz Maria, que mora em Goiânia
e há dois anos e meio descobriu que seu filho João
é portador de doença de Crohn. (Os nomes são
fictícios porque a mãe preferiu preservar a identidade
do filho, de 16 anos.) “Nós já falamos com
o João sobre a doença, mas meu marido acha que nós
não devemos ficar voltando ao assunto o tempo todo.”
Segundo Maria, João age como se nada estivesse acontecendo.
Ele tem dores no abdome, mas toma Remicade de dois em dois meses
e consegue levar a vida normalmente. Resiste à idéia
de fazer terapia, coisa que Maria gostaria. Se ele se informa
sobre a doença na Internet ela não sabe. “Nunca
pergunto nada e ele também não comenta. Acho que
é fuga...”, diz Maria. Essa mãe está
realmente angustiada para saber qual a melhor forma de agir. Ela
deve deixar para trás as respostas rápidas e lacônicas
e passar a falar francamente com o filho sobre suas preocupações?
Ou deve ficar quieta e não ir contra o modo de pensar do
marido? Pode ser que este seja o clássico exemplo da limitação
dos pais e não do próprio doente, pois, ao que parece,
João não está fazendo da doença um
problema maior do que já é. O fato de estar quieto
pode não representar nada, pois qual é o garoto
de 16 anos que não é quietão com os pais?
A falta de disposição do pai de João de falar
sobre o assunto pode significar que ele tenha absorvido o problema,
que esteja vendo que o menino está encarando bem e não
queira colocar caraminholas em sua cabeça. Ou não,
pode ser que ele, assim como Maria, esteja precisando de ajuda
psicológica. Pode ser, pode ser, pode ser... Para que todos
fiquem bem, o melhor a fazer é reunir a família
e conversar abertamente. Só assim eles saberão como
cada um se sente de verdade e poderão passar forças
um para o outro. Uma coisa é certa: Maria tem necessidade
de desabafar, de falar sobre o assunto até esgotá-lo
– e seu marido deveria ajudá-la.
Este caso mostra claramente que não é só
o paciente que precisa aprender a lidar com a sua doença
crônica. Pai, mãe e todos os familiares também
precisam entender que a vida não acabou para o paciente
que teve o diagnóstico da doença de Crohn ou da
Colite Ulcerativa - ou de qualquer outra doença crônica
que seja. Para discutir este assunto a ABCD promoveu no dia 29
de agosto passado, no Hospital Albert Einstein, o II Encontro
dos Portadores de Doenças Inflamatórias Intestinais
e Familiares. O bate-papo informal com especialistas sobre o tema
e com pessoas que têm o mesmo problema foi uma boa oportunidade
para toda a família entender que o fato de uma crise repentina
modificar a vida do paciente não quer dizer que ele não
terá mais vida normal. Até por instinto de sobrevivência,
o ser humano se adapta com certa facilidade a novas situações.
Na grande maioria das vezes, é só uma questão
de o doente entender quais são os seus limites e reorganizar
a vida em função deles. Nada nos impede de viver
bem quando realmente queremos viver bem.
A melhor maneira dos pais, amigos e familiares ajudarem quem tem
uma doença inflamatória intestinal é dar
apoio em todos os sentidos, mostrar que estão perto e,
sobretudo, não atrapalhar. O que é não atrapalhar?
É não tratar com excesso de cuidados e preocupações,
não ser pessimista e preconceituoso, não esconder
informações, não se preocupar com sintomas
que ainda não apareceram (eles podem nunca aparecer), não
sentir pena (há doenças muito piores), não
achar que o filho foi injustiçado, não aumentar
o problema e muito menos permitir que a vida passe a girar em
torno da doença. Em suma, é preciso aceitar a doença
e conviver com ela da melhor maneira possível. É
óbvio que a vida não vai ser perfeita, mas tampouco
precisa ser ruim. E por falar em vida perfeita, será que
há no mundo alguém que saiba o que é isso
na prática?
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