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Imunidade
em jogo
Saiba
tudo sobre imunossupressores, remédios de grande eficácia
no tratamento da doença de Crohn e da colite ulcerativa.
| Por:
Valquíria Sganzerla e Maria
Amália Bernardi |
Como
num jogo infantil, pode-se imaginar que as células do nosso
sistema imunológico são organizadas como um exército
altamente qualificado, em que cada tipo tem uma determinada função.
Algumas células são encarregadas de receber e enviar
mensagens de ataque contra corpos estranhos que tentam invadir
o nosso organismo. Outras estão ali somente para apresentar
o “inimigo” ao exército do sistema imune. Outras
ainda são as “cabeças pensantes” dessa
disputa e só se preocupam em montar estratégias
para neutralizar os “inimigos” e, de quebra, as substâncias
liberadas por eles.
Desde pequenos aprendemos sobre a importância do sistema
imunológico para que o nosso organismo possa conviver equilibradamente
com os riscos aos quais estamos sujeitos no nosso dia a dia. Se
o nosso sistema imunológico vai bem não ficamos
doentes – em geral nem mesmo resfriados pegamos. Mas se
ele não está bem, e nenhuma medida for tomada, certamente
teremos problemas. Nosso sistema imunológico é afetado
de diversas maneiras por tudo o que acontece na vida da gente
– inclusive pelo nosso estado de espírito. Quando
temos um problema de saúde, então, ele fica muito
mais vulnerável. A sorte é que o sistema imunológico
tenta permanentemente reconduzir o nosso organismo ao seu estado
ideal.
No caso de quem tem uma doença inflamatória intestinal,
o que se sabe é que tanto a retocolite ulcerativa quanto
a doença de Crohn têm um componente auto-imune que
pode levar os pacientes a um estado de crises freqüentes
– e as crises freqüentes podem levar a pessoa a um
estado de completo desânimo e, conseqüentemente, de
piora do seu quadro. São chamadas de auto-imunes as doenças
criadas pelo próprio organismo e não por fatores
externos, como vírus, bactérias, etc. O organismo
deixa de reconhecer seu próprio tecido, encarando-o como
estranho, produzindo anticorpos e a criando a doença. Por
outro lado, ele passa a se defender daquilo que ele próprio
criou. Apesar de ainda indefinido, o mecanismo de agressão
das DII parece muito com estes de doenças auto-imunes.
Fica fácil entender o que acontece quando uma pessoa tem
Crohn ou retocolite se imaginarmos que, de repente, seu organismo
deixa de reconhecer o intestino como parte dele – e não
sendo mais parte do organismo, passa a ser visto como inimigo.
O resultado é uma agressão constante e intensa ao
intestino. Por isso temos dores, diarréias, feridas, estreitamentos,
fístulas e sangramento.
Até poucos anos atrás, as doenças inflamatórias
intestinais eram tratadas basicamente só com corticóides.
Mas a “velha” e, por que não dizer, “boa”
cortisona, um antiinflamatório poderoso e eficaz que praticamente
todos os doentes de DII já experimentaram pelo menos uma
vez, tem efeitos colaterais bastante desagradáveis, como
inchaço, depressão, fome e perda de massa muscular,
entre outros. Não pode, portanto, ser utilizada por períodos
longos. Além do mais, em muitos pacientes a cortisona cria
dependência – quando a pessoa pára de usar
os sintomas da doença voltam. Com o avanço das pesquisas
médicas, o arsenal terapêutico para Crohn e colite
cresceu. Passaram a ser usados no seu tratamento os imunossupressores.
Não há leigo que não se assuste diante da
perspectiva de ter que tomar imunossupressores. Mesmo sem saber
exatamente do que se tratam, só pelo nome dá para
perceber que têm a ver com imunidade, com sistema imunológico.
E como já foi dito acima, desde pequenos aprendemos sobre
a importância do sistema imunológico para a nossa
saúde. Assim, usar medicamentos que mexem com a nossa imunidade
não é uma idéia muito atraente.
O que são imunossupressores?
“Os imunossupressorer são medicamentos que abaixam
a imunidade”, explica o Dr. Flavio Steinwurz, gastroenterologista
do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente da ABCD, a
Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença
de Crohn. Em outras palavras, os imunossupressores são
remédios usados para inibir os sintomas de uma doença,
ou o seu surgimento. Embora muita gente tenha medo de usá-los,
esses remédios são indicados rotineiramente no tratamento
da doença de Crohn, principalmente quando o paciente não
responde aos medicamentos convencionais. “Os imunossupressores
são considerados os remédios de uso oral mais eficazes
na manutenção da remissão da doença
de Crohn – e além de servirem para tirar a dependência
dos corticóides eles também favorecem o fechamento
de fístulas”, acrescenta o Dr. Steinwurz.
O raciocínio do efeito dos imunossupressores na DII parece
simples: ao diminuir a força do sistema imunológico,
este passa a agredir o intestino de forma mais branda, e os sintomas
da doença diminuem. Não se sabe, entretanto, se
é apenas isto que ocorre. Naturalmente, as doses prescritas
desses medicamentos abaixam pouco a nossa imunidade, apenas o
suficiente para suavizar os sintomas - elas nunca são altas
a ponto de pôr a pique todas as nossas defesas.
Os imunossupressores mais conhecidos e usados são a Azatioprina
(Imuran), a 6-Mercaptopurina (Puri-Nethol), o Metotrexate (Metotrexate)
e a Ciclosporina (Sandimmun). “A Azatioprina e a 6-Mercaptopurina
são os mais largamente utilizados em todo o mundo”,
diz o Dr. Eduardo Lopes Pontes, médico gastroenterologista
e professor do Fundão, a Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Eles agem lentamente – é necessário
esperar cerca de 3 a 4 meses para se observar os seus efeitos.
Em compensação, têm poucos efeitos colaterais
e podem ser usados por muito tempo. “Há estudos que
mostram que tanto a Azatioprina quanto a 6-Mercaptopurina mantêm
seu efeito benéfico por períodos realmente longos,
de 4 a 5 anos, sem apresentar conseqüências colaterais
significativas”, diz o Dr. Lopes Pontes. A Dra. Heda Amarante,
médica gastroenterologista responsável pelo ambulatório
de doenças inflamatórias intestinais da Universidade
Federal do Paraná e também pela filial da ABCD em
Curitiba, lembra que “anos atrás, logo no início
da utilização destes medicamentos, a comunidade
médica acreditava que eles deveriam ser usados somente
por um período de no máximo dois anos”. Mas
depois se chegou à conclusão de que os pacientes
podem usar sem susto por um tempo maior. “A literatura médica
já mostra que eles podem ser usados por crianças
e alguns estudos têm sido favoráveis quanto ao uso
durante a gravidez, em casos selecionados”, informa a Dra.
Heda.
A ABCD em Foco conversou com seis pacientes de doenças
inflamatórias intestinais que se trataram com a cortisona
e depois com imunossupressores:
Wilson Zanitti, 53 anos, sabe que é portador de colite
ulcerativa há seis anos. Logo que foi diagnosticada a doença,
começou a tomar cortisona – mas sempre que suspendia
o medicamento os sintomas de dores no abdome e sangramento voltavam.
Foram dois anos de tentativas. “A cortisona corrige uma
coisa, mas estraga outra”, diz Zanitti, que se preocupava
com seus efeitos colaterais. Zanitti, que mora em Santos e desenvolve
sistemas de informática, atribui às fases difíceis
pessoais que passou ao longo da vida uma grande parcela de contribuição
com as crises que teve da doença. “Embora não
seja psicossomática, acho que essa doença tem um
componente emocional muito forte”, diz ele. Há onze
anos sua mulher morreu e lhe deixou duas meninas, de 9 e 7 anos
na época. Há seis anos ele teve outro relacionamento,
que infelizmente não deu certo. Hoje ele se mantém
estável com 50 mg do imunossupressor Puri-Nethol e 6,0gr
diárias de Azulfin. “Há dois anos tomo imunossupressor
todos os dias e nunca mais tive problemas com os sintomas da doença”,
diz Zanitti.
Rodrigo
Tamer, 37 anos, que trabalha no mercado financeiro com administração
de recursos, em São Paulo, também experimentou a
cortisona para lidar com uma retocolite inespecífica que
foi diagnosticada em 1992. Os médicos logo lhe deram o
Pentasa e doses de cortisona. Começou com 20 mg por dia
e chegou a 60 mg. “Eu suava muito à noite e sentia
mais fome”, diz Rodrigo, que em função de
muita diarréia e sangramento emagreceu quase 30 quilos.
Rodrigo foi para os Estados Unidos procurar um médico especializado
em DII.
Acabou ficando 20 dias internado num hospital em Nova Iorque -
na primeira semana tomou cortisona na veia. Em seguida passou
a tomar a Ciclosporina e, já fora do hospital, lhe foi
indicado o 6-Mercaptopurina. “Eu sabia que precisava manter
um controle rígido dos meus exames de sangue”, diz
ele. “No começo eu fazia os exames quinzenalmente,
depois espacei para uma vez por mês e, finalmente de dois
em dois meses.”
Hoje, Rodrigo, que é casado e pratica esportes três
vezes por semana, toma 75 mg de Puri-Nethol todos os dias e faz
uma colonoscopia uma vez por ano. “Desde que comecei a tomar
este medicamento nunca mais parei, exceto por três ou quatro
dias em que estava com febre”, diz Rodrigo. “Não
parei nem quando tive que tomar vacina contra febre amarela, há
quatro anos, para ir para a Tailândia. Por sorte não
tive problema algum.” Para Rodrigo, a prova de fogo do remédio
vai ser daqui a 1,5 ano. Ele pretende ter um filho e seu médico
já avisou que antes de sua mulher engravidar ele terá
que parar o imunossupressor por uns tempos.
“Meu
médico me aconselha a parar por prevenção,
porque não existem estudos que provem que o Puri-Nethol
causa problemas ao bebê”, afirma Rodrigo.
Maria Amalia Bernardi, 47 anos, descobriu que tinha Crohn há
nove anos. Antes disso, passou dois anos entrando e saindo de
hospitais até receber o diagnóstico correto. Depois
de saber que tinha a doença, passou mais dois anos trocando
de médicos até encontrar um que realmente conhecesse
o problema e soubesse tratá-lo. Nessa fase, o único
medicamento que fazia algum efeito era cortisona. Tomou muitas
vezes e em doses altas, mas parava depois de dois meses porque
não agüentava os efeitos colaterais – depressão,
taquicardia e aumento de peso excessivo. Sempre que parava voltava
a entrar em crise.
No fim de 1998, seu médico lhe falou sobre o Remicade,
que acabara de ser lançado nos Estados Unidos, e sugeriu
que experimentasse – ela importou o remédio e foi
a primeira pessoa a tomá-lo no Brasil. O efeito foi ótimo.
O problema é que depois de 8 semanas voltava a sentir os
sintomas do Crohn. Para ficar bem o tempo todo, Maria Amalia teria
que tomar no mínimo a cada dois meses, mas não podia
pois o custo do Remicade era altíssimo (naquela época
o medicamento não existia no Brasil e ela pagava mais de
dois mil dólares a cada vez que tomava). No começo
de 1999 seu médico lhe prescreveu o imunossupressor Puri-Nethol.
“Percebi nitidamente que os sintomas da doença diminuíram”,
diz Maria Amalia, jornalista, casada e mãe de duas adolescentes.
“O único efeito colateral que senti e sinto até
hoje é queda de cabelo.”
Durante o primeiro ano em que tomou o imunossupressor, sua dose
diária era de um comprimido de 50mg. No segundo ano ela
fez uma tentativa de dobrar a dose, mas logo os exames de sangue
ficaram alterados e ela voltou para a dose anterior. Em 2001,
Maria Amalia teve que tomar uma vacina contra febre amarela para
fazer uma viagem ao México. Para poder tomar a vacina,
teve que parar completamente o Puri-Nethol por alguns meses. “Meu
médico explicou que quando tomamos imunossupressor não
podemos tomar nenhuma vacina, pois com a imunidade mais baixa
há um grande risco de pegarmos a doença que queremos
evitar”, afirma ela. A ausência do imunossupressor
não lhe passou incólume. “Meu cabelo parou
de cair, em compensação, fiquei cheia de fístulas”,
diz ela.
Desde então, Maria Amalia nunca mais parou o imunossupressor.
Ela sente que é um medicamento que a deixa melhor, que
realmente diminui os sintomas, principalmente as fístulas,
mas se mantém fora de crise tomando também o Remicade
a cada 45, 50 dias. “Não sei se se deve ao imunossupressor,
ao Remicade ou aos dois juntos, mas o fato é que há
mais de quatro anos não tenho uma crise feia” afirma
Maria Amalia, que já teve duas perfurações
no intestino, algumas estenoses e passou por uma cirurgia para
curar uma fístula interna.
Luciane Mattos Santana, 28 anos, se lembra de que na adolescência
muitas vezes tinha que parar de brincar com as amigas e ir para
o seu quarto descansar um pouco por causa das dores abdominais
que sentia. Dos 15 aos 18 anos ela não comentou nada sobre
as dores com ninguém. Quando já estava com 18 anos
resolveu contar seu problema à sua mãe, pois tinha
tomado, por conta própria, uma dose exagerada de medicação
para diarréia. “Por conta do remédio eu passei
três dias sem ir ao banheiro e, quando fui, tive uma enorme
fissura que não parava de sangrar”, conta Luciane.
A jovem precisou ser operada para fechar a fissura – e depois
ainda teve que lidar com os pontos da cirurgia, que infeccionaram.
Só com quase 22 anos os médicos diagnosticaram a
doença de Crohn.
Luciane conseguiu entrar em remissão da doença e
ficou livre dos sintomas por um bom tempo. Casou, teve bebê
e nada da doença se manifestar. Mas quando seu filho, Bernardo,
estava com dez meses, o Crohn voltou com força total. “Eu
tive uma perfuração no intestino”, diz ela.
“Além disso, uma alça grudou no meu útero
e desde então, quando vou ovular ou ficar menstruada, sinto
muitas dores.” Quase três anos se passaram, mas Luciane
não se livrou mais das conseqüências da doença.
Já fez três aplicações de Remicade
e atualmente se mantém fora de crise tomando duas doses
de 50 mg de Azatioprina por dia. Faz, também, uma cirurgia
para dilatar o intestino reto a cada seis meses, coisa que há
muito encara como rotina. “A minha vida mudou para melhor
depois que passei a tomar a Azatioprina, ainda mais com a ajuda
do Remicade”, afirma Luciane, que diz não sentir
nenhum efeito colateral. “Ouvi falar que depois de quatro
anos tomando imunossupressor é preciso parar e falta pouco
para eu atingir esse tempo. Não sei se vou parar –
vou fazer o que a minha médica mandar. Mas confesso que
tenho medo de parar e ter uma recaída dos sintomas.”
Antonio Dinael Pereira dos Santos, 38 anos, tinha 18 quando apareceram
os primeiros sintomas da doença de Crohn. Na época,
ele teve que ser operado para curar um abscesso, ainda sem saber
qual era o seu problema. Passou-se um bom tempo até que
tivesse certeza do seu diagnóstico. Apesar de fazer inúmeros
exames, nenhum médico conseguia chegar a uma conclusão
sobre o seu caso. Em 1988, depois de já ter emagrecido
muito e de ter perdido muita massa muscular (baixou de 65Kg para
49Kg – tem 1,73m), ele ficou 20 dias internado no Hospital
Oswaldo Cruz, em São Paulo, com uma forte diarréia.
Àquela altura, os médicos queriam fazer uma colonoscopia
para tentar definir seu problema de vez, mas a passagem do seu
intestino estava completamente fechada, o que impedia a realização
do exame. Teve, então, que tomar cortisona por vários
dias.
Dois dias depois de receber alta, foi obrigado a voltar para o
hospital porque tinha cólicas e sentia um peso muito grande
na barriga. “Era fim de ano e acabei passando o Natal e
o Reveillon no hospital”, conta Antonio, que mora em Osasco
(SP) e é representante comercial de uma marca de produtos
para cabeleireiros. Foi nessa fase também que ele experimentou
o Puri-Nethol. “Meu médico tinha chegado de um congresso
nos Estados Unidos com essa novidade, me propôs usar esse
medicamento e eu concordei”, diz ele. Até hoje Antonio
toma um comprimido de 50 mg de Puri-Nethol em dias alternados
e faz exames de sangue a cada quatro meses.
O médico clínico Rodrigo Hoffmeister, 36 anos, morador
de Porto Alegre, conhece na pele as dificuldades de se lidar com
o Crohn, pois ele próprio tem a doença. Há
cerca de oito anos, depois de ter passado por um período
de dores abdominais e eventuais diarréias, ele ficou sabendo
que tinha a doença. Em sua família há diversos
médicos. Seu pai, que é cirurgião geral e
conhece bem as doenças inflamatórias intestinais,
logo suspeitou de que o diagnóstico do filho era Crohn.
“Meu pai ficou mais abalado do que eu”, diz Rodrigo.
Durante cinco meses ele usou Sulfassalazina. Saiu da crise e ficou
em remissão durante quase seis anos. Em 2002 as dores abdominais
voltaram, acompanhadas de febres diárias, mas não
por causa do Crohn e sim por conta de uma apendicite. Rodrigo
foi então operado para retirar o apêndice. De lá
para cá passou a tomar 100 mg de Azatioprina todas as manhãs
e a fazer exames de sangue a cada três meses. Tem conseguido,
com isso, se manter fora de crise.
Rodrigo explica que o fato de ser médico tem um lado positivo
e outro negativo para a compreensão da doença. “Por
um lado, você conhece a patologia e sabe do que se trata”,
diz ele. “Mas por outro você sabe o que pode acontecer,
e conviver com isso é difícil.” Casado com
uma médica dermatologista e pai de um menino de dois anos
e meio, ele está curtindo a gravidez de quatro meses da
mulher, que desta vez vai lhe dar uma menina.
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