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Fístulas
e gravidez
Um
especialista em doença inflamatória intestinal
fala sobre estes dois assuntos com conhecimento de causa
O
médico mexicano Aaron Brzezinski, 47 anos, se especializou
em Gastroenterologia na Universidade de Toronto, no Canadá.
Foi ali, trabalhando com nomes bastante respeitados na comunidade
médica internacional, que começou a ter contato
com as doenças inflamatórias. Desde 1992, vem aprofundando
ainda mais seus conhecimentos no Centro de Doenças Inflamatórias
da Fundação de Cleveland, nos Estados Unidos, uma
instituição sem fins lucrativos que ganhou grande
reputação por suas contribuições à medicina,
como a realização do primeiro cateterismo cardíaco
e da primeira cirurgia de ponte aorto-coronária, entre
outras. É lá que o Dr. Aaron passa 13 horas por
dia envolvido com consultas a pacientes com problemas complexos
e que necessitam de cuidados especializados, endoscopias de urgência,
atividades acadêmicas ou fazendo revisão em estudos
de laboratório.
Dono
de uma agenda bastante apertada, não sobra ao Dr.
Aaron quase nenhum tempo para curtir alguns hobbies, como ouvir
música clássica e tomar um bom vinho. Atualmente
o médico se sente dividido por sentimentos controversos:
a frustração por não poder passar mais tempo
com a mulher Denise e as filhas Sharon, de 16 anos, e Anna, de
13, e a grande satisfação por poder ajudar seus
pacientes e dar-lhes a maior atenção possível
trabalhando junto com uma equipe de cirurgiões, nutricionistas,
enfermeiras, radiologistas e patologistas. “Gostaria de encontrar
uma fórmula para balancear melhor a minha vida”, diz ele.
Todos nós gostaríamos, Dr. Aaron, todos nós.
Nesta
entrevista à ABCD em Foco este simpático
mexicano fala de assuntos importantes para os pacientes de doenças
inflamatórias intestinais: as dificuldades de conviver
com as fístulas e os cuidados necessários para
uma gravidez tranqüila. Leia a seguir.
Desde
que foi lançado no Brasil, em 1998, o Remicade
tem sido bem aceito pelos pacientes de Crohn – e pesquisas mostram
que ele é eficiente também no tratamento de fístulas
perianais. Como o senhor vê a importância do Remicade?
Os
estudos clínicos iniciais com o Infliximabe foram
feitos em pacientes com sintomas predominantemente inflamatórios
e em pacientes com fístulas externas (perianal ou enterocutânea).
Entre 50% e 70% desses pacientes tiveram melhoria clínica,
que se manifestou com a diminuição da drenagem.
Para manter esse quadro, os pacientes têm que receber infusões
de Infliximabe a cada oito semanas. Num número menor de
pacientes as fístulas se fecharam totalmente. Quando se
usa o Infliximabe em pacientes com fístulas é importante
o médico estar seguro de que não há infecção
nem estenose no intestino perto da fístula.
Por
que as fístulas aparecem antes mesmo que notemos
que a doença entrou em atividade?
Num
número importante de pacientes, o principal sintoma
da doença de Crohn são as fístulas perianais
e a maioria deles tem a doença localizada no íleo
terminal. Não se sabe porque isso acontece. Em outros
pacientes as estenoses produzem pouca obstrução.
Elas são uma das múltiplas manifestações
de atividade da doença de Crohn.
Por
que as fístulas aparecem sempre nos mesmos lugares
do corpo que já apareceram outras vezes?
Em
geral, o caminho clínico da doença é o
mesmo no paciente e isso independe do tempo que ele manifesta
esse diagnóstico. Os pacientes que têm fístulas
perianais, em geral as desenvolvem na mesma região.
Quem
tem fístulas perianais pode vir a ter fístulas
na barriga ou em outras partes do corpo e vice versa?
Em
termos gerais, a doença de Crohn pode ser inflamatória,
estenosante e fistulante e, repito, o caminho dessa doença
tende a ser consistente conforme o tempo passa. Se um paciente
tem fístulas perianais, ele tem predisposição
para formação de fístulas entero-cutâneas.
Há casos em que é necessário fazer uma
cirurgia para fechar uma fístula? Por que?
Nos
pacientes que têm estenose as fístulas não
fecham até que a estenose intestinal seja corrigida. O
mesmo acontece quando há infecção localizada.
Uma intervenção cirúrgica é feita
dependendo da localização da inflamação,
da resposta ao tratamento médico e dos sintomas que são
conseqüência da lesão. Por exemplo, se um paciente
tem uma fístula no estômago e no cólon, os
alimentos não passam para o intestino delgado e o paciente
tem diarréia e uma má absorção intestinal.
Outro exemplo de fístula que requer cirurgia é a
que ocorre entre o intestino e o trato urinário do paciente,
porque nesses casos existem infecções decorrentes
das vias urinárias. Outra indicação ainda é a
presença de lesões pré-cancerosas ou a presença
de câncer.
Quantas
fístulas
um paciente pode chegar a ter ao mesmo tempo?
Existe
uma condição que em inglês chamamos “watering
pot perinium” que acontece com pacientes que manifestam dezenas
de fístulas perianais pequenas. A severidade das fístulas
depende da localização e da presença de
infecções ou de sintomas que estão associados
a elas. Lembro-me de um paciente que tinha fístulas no
escroto e na uretra e manifestava dor e infecções
testiculares e urinárias severas.
É perigoso tomar banho de piscina ou de mar quando o
paciente está com fístulas?
De
maneira geral não há problema, pois quando
as fístulas estão drenando a infecção
não penetra. Em relação às outras
pessoas, se a água estiver com bastante cloro não
há perigo de infectá-las.
A
Doença Inflamatório Intestinal afeta freqüentemente
mulheres jovens. O senhor recomenda algum cuidado especial ou
faz alguma restrição àquelas que desejam
engravidar? Se a gravidez se confirmar, quais são os riscos
que a paciente pode correr em relação à doença
de que é portadora? E como isso pode afetar o bebê?
O
momento ideal para uma paciente engravidar é quando
ela está num período de remissão dos sintomas.
Mas existem condições em que é melhor fazer
uma cirurgia eletiva antes da gravidez. Se a paciente tem estenose,
por exemplo, é melhor ela operar antes que engravide porque
se ocorrer uma perfuração ou obstrução
durante o período de gestação a vida dela
e do bebê correrão perigo. Outro aspecto a se considerar é o
uso de medicamentos. A maioria dos usados para doenças
inflamatórias intestinais não deve ser ingerida
durante a gravidez. As principais drogas a serem evitadas são
o metotrexate, que é altamente teratogênico e alguns
antibióticos como o tetraciclina, que comprometem o desenvolvimento
de ossos e dentes do bebê. A sulfassalazina diminui a produção
e a mobilidade dos espermetozóides e é uma causa
secundária de esterilidade, embora este efeito seja reversível
após a suspensão do medicamento.
Há controvérsias quanto ao uso da Azatioprina
e da 6-Mercaptopurina, apesar de algumas mulheres precisarem
usar alguns desses medicamentos para ter um período maior
de remissão dos sintomas durante a gravidez. Há medicamentos
que precisam ser suspensos quatro semanas antes do parto para
diminuir o risco de infecção no recém-nascido.
As pacientes não devem utilizar-se deles nem no período
de amamentação. Quanto ao parto, se o bebê for
grande ou estiver em posição que requeira o uso
de fórceps é melhor fazer cesárea para evitar
o risco de prejudicar os esfíncteres anais e o paciente
desenvolver uma incontinência anal. Geralmente eu recomendo
que as mulheres grávidas sejam acompanhadas por especialistas
em gravidez de alto risco.
Uma
mulher grávida que têm Crohn ou colite ulcerativa
corre mais riscos de entrar em crise da doença do que
uma mulher que não está grávida?
Sim,
o risco de crise é de 20% a 30% maior.
Como
uma crise forte da doença durante a gravidez pode
afetar o bebê?
Depende
da severidade dos sintomas e do tempo que a paciente levar
para iniciar o tratamento. Quando uma paciente grávida
tem sintomas de atividade, é importante excluir infecções
que podem piorar a doença intestinal e iniciar um tratamento
intensivo. O uso de corticóides é seguro durante
a gravidez, mas as pacientes com atividade severa devem ser hospitalizadas
e acompanhadas por uma equipe multidisciplinar de médicos
que inclua um gastroenterologista, um cirurgião colo-retal,
um obstetra de alto risco e um médico especialista em
recém-nascidos. Os bebês costumam nascer menores
que os bebês de mulheres que não tem essas doenças.
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