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Fora do intestino
O
Crohn e a colite ulcerativa podem provocar problemas em outras
partes do corpo. Saiba quais são
os mais usuais
Para
a grande maioria dos portadores de doenças inflamatórias
intestinais os sintomas e problemas se restringem a dores no
abdome, diarréia, perda de peso, fístulas e estreitamento
das paredes intestinais. Não que isso seja pouco – nas
fases de crise essas complicações podem terminar
em cirurgia. Mas o que nem todo mundo sabe é que tanto
o Crohn quanto a colite ulcerativa podem provocar ainda mais
problemas – e em partes do corpo que não têm nada
a ver com o intestino. São as chamadas manifestações
extra-intestinais, que estão associadas à atividade
das doenças e que afetam outros órgãos do
corpo além do aparelho digestivo. “Todos os médicos
deveriam saber que existem complicações que podem
estar associadas a essas doenças e que não se localizam
obrigatoriamente no intestino”, diz o Dr. Carlos Brunetti, coloproctologista
dos Hospitais Albert Einstein e São José do Brás,
em São Paulo. “E aí, não adianta tratar
da manifestação isoladamente. Tem que cuidar é da
doença.”
Os
pacientes não precisam, nem devem, “entrar em parafuso”,
como se diz na gíria, ou ficar procurando “chifre em cabeça
de boi” se auto-examinando todos os dias à procura de
um sintoma. Mas sabendo que em cerca de 20% dos casos as conseqüências
do Crohn e da colite podem aparecer em outras partes do corpo,
vai ser muito mais fácil e rápido lidar com elas
para torná-las o menos desagradável possível.
Quais são essas conseqüências, ou seja, essas
manifestações extra-intestinais? Afta na boca é uma
delas. Inflamação na pálpebra, que parece
um terçol daqueles que muita gente benze ou cura esfregando
uma aliança, é outra. Manchas vermelhas na pele,
que se alastram e não melhoram com nada é também
outro exemplo.
A
ABCD em Foco selecionou algumas manifestações
que, apesar de raras, são as que têm mais chance
de acometer os pacientes de DII. Mas atenção: nem
pense em fazer autodiagnósticos. Só quem pode avaliar é o
seu médico de confiança. Vamos a elas:
MANIFESTAÇÕES
ARTICULARES
Artrites – Segundo o Dr. José Goldenberg, reumatologista
do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a doença
de Crohn pode acometer o aparelho locomotor e envolver predominantemente
os joelhos e tornozelos. Esta artrite, como é chamada,
provoca muita dor – é como se um osso estivesse fraturado
e fosse necessário engessar. Na maior parte das vezes,
as artrites são migratórias e podem ocorrer em
15% a 20% dos casos. As artrites não deixam seqüelas.
Espondilite
anquilozante – Muita gente se queixa de dores na
coluna. As explicações para elas são quase
sempre as mesmas: carregar peso em excesso, dar um mau jeito,
dormir numa má posição e por aí vai.
Nos pacientes de DII, entretanto, a coluna e as articulações
sacroilíacas podem ser agredidas em 5% dos casos, podendo
evoluir para uma espondilite anquilosante, a tal da dor nas costas.
E isso independe do controle da doença intestinal. Na
verdade, essa manifestação articular pode preceder
os sintomas intestinais. “O tratamento medicamentoso dessas artropatias
consiste em antiinflamatórios não hormonais, sulfassalazina
e, às vezes, infiltrações articulares”,
diz o Dr. Goldenberg.
MANIFESTAÇÕES DERMATOLÓGICAS
Pioderma
gangrenoso – Começa com uma feridinha, que geralmente
fica vermelha ao seu redor, e vai crescendo. As pessoas até chegam
a pensar que se trata de um processo de herpes e acabam procurando
um farmacêutico para indicar uma pomada. “Isto é o
que não deve acontecer”, diz o Dr. Mário Grinblat,
dermatologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Essa
lesão de pele, que pode atingir pessoas de qualquer sexo
e idade, pode ser uma manifestação de Crohn ou
colite – e pode acontecer antes mesmo que a pessoa saiba que
tem a doença.” O certo, nesse caso, é procurar
um dermatologista para tratar. O pioderma gangrenoso só pode
ser curado com corticóides em altas doses, como a Prednisona
e a Sulfassalazina.
Eritema
nodoso – Esta é uma lesão na pele que é dolorosa
e é mais freqüente nas mulheres que têm Crohn,
sobretudo naquelas que tomam pílula anticoncepcional.
O eritema também atinge mais os membros inferiores do
paciente. “É fácil fazer este diagnóstico”,
diz o Dr. Grinblat. “Para curá-lo, o paciente deve usar
antitérmico para uma febre ocasional e fazer repouso.” Esta
lesão tampouco deixa seqüelas.
Em
cerca de 20% dos casos as conseqüências do Crohn
e da colite podem aparecer em outras partes do corpo.
Aftas
na boca, inflamação na pálpebra e
manchas vermelhas na pele são algumas das manifestações
extra-intestinais
MANIFESTAÇÕES
OCULARES
Uveíte — Parece uma conjuntivite, desse tipo contagioso,
que passa de uma pessoa para outra após o contágio,
mas pode ser uma manifestação extra-intestinal.
O olho fica vermelho (a íris, que é a parte colorida)
e pode provocar dor, lacrimejamento excessivo e sensibilidade à luz.
Episclerite – Esta inflamação ocorre no tecido
que cobre a esclera (a parte branca do olho) ou a pálpebra.
Ocasionalmente, pode haver também um nódulo branco
que muitas vezes se confunde com um terçol.
Tanto
a uveíte quanto a episclerite atingem apenas 8%
a 10% dos pacientes de DII. “É importante que os pacientes
que têm esses problemas façam uma consulta pelo
menos de três a quatro vezes ao ano”, diz o Dr. Luiz Francisco
Gervásio, oculista do Hospital São José do
Brás, em São Paulo e que atua há 34 anos
nesta especialidade.
MANIFESTAÇÃO HEPÁTICA
Colangite
esclerosante – Começa com uma coceira que aparece
em qualquer lugar do corpo e que se agrava mais à noite.
Com o passar do tempo, o paciente pode apresentar febre com calafrios
e vai ficando amarelo, como se estivesse com icterícia
(como os bebês recém-nascidos). Só que desta
vez, esse amarelão tem uma outra causa. É que a
bílis produzida pela vesícula, que é tóxica,
está sendo retida no fígado e depois vai para o
intestino. “Isto só acontece com pessoas que têm
retocolite”, diz o Dr. Edison Roberto Parise, hepatologista e
professor adjunto da Escola Paulista de Medicina. “Mas se ocorrer
a coisa pode ficar séria. Pode se transformar numa cirrose
e ser necessário um transplante de fígado.” Mas é possível
fazer um diagnóstico exato, pois, nestes casos, há uma
elevação de enzimas no corpo característica
da colangite que o exame de sangue pode comprovar. A colangite
esclerosante, felizmente é bem rara.
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