|
“A doença de Crohne a colite ulcerativa ocorrem mais
no povojudaico. Este fenômeno acontece em diferentes períodos
da história e em diferentes localizações.”
O Crohn, a colite e os judeus Por
que neste povo o Crohn e a colite tendem a ocorrer mais? A
junk food é uma
das causas da DII? Um grande especialista judeu responde a
estas e a outras perguntas
Desde
o ano passado, a ABCD em Foco tentava conversar com o Dr. Simon
Bar-Meir, médico gastroenterologista de Israel
que é reconhecido na comunidade médica como um
profissional com muita experiência no tratamento das doenças
inflamatórias intestinais, sobretudo da Doença
de Crohn. O ano novo chegou e, com ele, a entrevista com este
professor de Medicina e Diretor do Departamento de Gastroenterologia
do Centro Médico de Sheba, em Israel. O Dr. Simon tem
uma agenda bastante apertada. Só para cumprir seus compromissos
profissionais, faz uma extensa milhagem aérea durante
três meses, todos os anos. No Brasil, já esteve
cinco vezes participando de seminários ou dando palestras. “O
Brasil é o meu país favorito e o único lugar
de onde eu nunca recuso um convite para visitar”, diz ele. “Gosto
dos brasileiros e do espírito que está sempre no
ar.”
O
Dr. Simon Bar-Meir é casado, tem três filhos
e dois netos. A família toda mora em Israel, num subúrbio
de Tel Aviv, no Mediterrâneo. A coisa que ele mais gosta
de fazer nas horas de folga? “Bater papo com meus amigos numa
casa de café”, diz. Tem bom gosto! Leia, a seguir, o que
ele disse à ABCD em Foco.
Por
que as doenças inflamatórias intestinais ocorrem
mais no povo judaico e qual é a incidência destes
diagnósticos em Israel?
De
fato, a doença de Crohn e a colite ulcerativa tendem
a ocorrer mais no povo judaico, sobretudo nos Asquenazi, do que
na população que não tem descendência
judaica. Este fenômeno ocorre em diferentes períodos
da história e em diferentes localizações.
Na maior parte dos estudos, a incidência da DII é de
duas a quatro vezes mais freqüente nos Asquenazi do que
nos Sefaradi (os Asquenazi são oriundos do ocidente/Europa
e os Sefaradi do oriente/mediterrâneo/países árabes).
Não se sabe a prevalência da DII em Israel, mas
a incidência da doença de Crohn é de 4.2
em 100.000.
Essa
incidência tem aumentado nos últimos
anos? Por que?
Sim,
dois estudos mostram um aumento da incidência de
Crohn: um feito por Niv, em 1999, e o outro por Odes, em 1994
(os dois profissionais são médicos de Israel).
O estudo de Niv foi feito com a população de Kibutz,
que é bastante fixa do ponto de vista genético,
e, portanto, a mudança da incidência parece ser
decorrente de fatores ambientais.
O
povo judeu procedente da Ethiópia e da Rússia
contribuiu para alterar estes dados?
Há registro de que entre os judeus procedentes da Etiópia
a prevalência de tuberculose intestinal está aumentando – já a
doença de Crohn é rara. Aliás, este é um
fenômeno comum: onde existe tuberculose intestinal, o Crohn é raro.
As
facilidades do mundo moderno, em especial a alimentação à base
de junk food, contribuem para o desenvolvimento da DII?
Não acredito nisso. É verdade que a DII é mais
freqüente no mundo ocidental, onde junk food também é freqüente,
mas o mesmo sinal de TV também é freqüente
e ninguém pensa que isto está relacionado.
Com
a sua experiência, quais dos novos tratamentos são
mais indicados para a doença de Crohn e para a colite
ulcerativa?
Mesalamina é dada a pacientes com a doença branda.
Os que não responderem a este medicamento devem ser tratados
com remédios imunossupressores, como azatioprina, 6-mercaptopurina
e methotrexate. Se falhar, o Remicade é considerado. Os
corticóides são dados por pouco tempo para controlar
a atividade da doença. A budesonida vem sendo ministrada
por um período ligeiramente maior, pois os efeitos colaterais
são 50% menores que os dos outros corticóides.
Nos casos mais graves de falta de resposta ao tratamento com
Mesalamina, a talidomida é ministrada ocasionalmente.
Nos pacientes com colite ulcerativa muito grave e que não
respondem ao tratamento, a ciclosporina tem sido dada como último
recurso.
No
Brasil, o Remicade tem feito muito sucesso desde que foi lançado, em 1998. Como foi a adesão
ao Remicade em Israel?
A
resposta ao Remicade é boa inicialmente em 2/3 dos
pacientes – depois os efeitos desaparecem em alguns dos pacientes,
principalmente devido ao desenvolvimento de anticorpos. A ingestão
de imunossupressores ou a administração de hidrocortisona
com o Remicade resultará numa produção menor
de anticorpos e um efeito mais prolongado do medicamento.
O
senhor concorda com os médicos que dizem que a cura
para o Crohn e a colite ainda está longe?
A
cura vai acontecer com o aprofundamento científico,
pois o conhecimento atual é insuficiente. O tempo é incerto – só o
que é certo é que precisamos muito de mais pesquisas. |