Història


Sob a óptica da ciência

Registros de estudos do Crohn e da colite mostram a evolução histórica dessas duas doenças numa linha do tempo traçada de 1612 até hoje.

Por Valquíria Sganzerla

Foi somente no final da década de 1990 que as doenças inflamatórias intestinais passaram a ter seus diagnósticos mais familiarizados pela imensa maioria dos médicos que, até então, tinham carência quase que total de informações sobre esse assunto. Imagine os pacientes então! Ainda hoje, pode se ouvir histórias de pessoas que só depois de muitas internações hospitalares, inúmeros exames clínicos, ultrassonografias e enfim, colonoscopias (isso tudo entre períodos de troca de médicos, na maioria das vezes), descobriram que tinham colite ulcerativa ou doença de Crohn.
Engana-se, porém, quem imagina que essas doenças fazem parte da literatura recente da comunidade médica internacional. Muito ao contrário, há registros de que o primeiro diagnóstico de doença inflamatória intestinal foi feito em 1612. De lá para cá, apesar de não terem sido descobertas as causas nem a cura dessas doenças, os cientistas não se cansam de investigar os fatores que podem ser os responsáveis pelo aparecimento dos seus sintomas. Aí, a visão panorâmica dos pacientes vem sendo completa: desde a carga genética até o estudo do meio ambiente em que ele vive e como é o seu perfil psicológico-social. Não se pode deixar de dizer que os laboratórios também fazem a sua parte, lançando novos medicamentos no mercado que ajudam a melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Chega de ter dores no abdome! Chega de conviver com diarréias! Fim das escapadas ao banheiro!
O que se assistiu nesses últimos anos foi o surgimento de novas terapias para tratar das DII. O avanço do conhecimento dos médicos sobre as doenças inflamatórias intestinais só não ganhou projeção maior porque, infelizmente, a cura para elas ainda não foi descoberta. Mas eles sabem que não dá para generalizar os sintomas dessas doenças. Não! Cada caso é um caso e cada paciente responde de um jeito particular a qualquer tipo de tratamento. Mas pode-se afirmar que hoje os médicos sabem como tirar os pacientes das crises mais facilmente, aliviando — e muito — o fardo que costuma ser para quem tem uma doença crônica. Esse conhecimento é discutido e analisado em todos os congressos médicos que acontecem com freqüência, reunindo especialistas do mundo todo, sobretudo da área de Gastroenterologia. Para os doentes de DII, esse arsenal de informações é sinal de que o tempo não pára para a comunidade médica que quer dominar novas tecnologias. Para o leitor visualizar as mudanças que ocorreram em mais de 300 anos de investigação das DII, a ABCD em Foco mostra uma linha imaginária do tempo (idealizada pela revista “Focus” da CCFA, a Fundação Americana de Crohn e Colite), com todas as conquistas que foram registradas nesse período:

Quadro:
A linha do tempo: de 1612 até hoje
1612
Foi feito o relatório de Wilhelm Fabry, da Alemanha, detalhando uma autópsia de um garoto que tinha sintomas do que pode ser classificado hoje como a doença de Crohn.

1800
Um médico irlandês de Dublin descreveu os sintomas identificados mais tarde como os de Crohn, com relação a crianças, e o Dr. Samuel Wilks mostrou, em 1859, na Gazeta Médica de Londres, a primeira descrição de colite ulcerativa.

1883 – 1908
Por mais de duas décadas, cerca de 300 pacientes entraram em sete hospitais de Londres apresentando uma inflamação severa na região do cólon. Desse total, 141 pacientes morreram com complicações.

1900
Depois de passar por um período de crises de casos reincidentes de Crohn, o que gerou confusão de diagnósticos com tumor maligno, pesquisadores britânicos encontraram uma ligação entre o diagnóstico de câncer e colite ulcerativa. A partir disso, foi recomendada a utilização de novas ferramentas para se fazer o diagnóstico correto, com a indicação da proctosignoidoscopia.

1909
Os primeiros casos de pacientes com colite numa mesma família são discutidos num simpósio médico em Londres. Os médicos descartam a coincidência desses exemplos.

1920-1930
Pesquisadores começam a investigar a possibilidade de um agente infeccioso ser o causador da colite ulcerativa e da doença de Crohn. Na verdade, até 1960, a colite ulcerativa foi objeto de pesquisas dos cientistas que tentavam descobrir as causas desta doença, através da reprodução dos animais. Infelizmente, sem nenhum sucesso.

1930
Pela primeira vez, dois relatórios médicos americanos associaram a colite ulcerativa a fatores genéticos. Estabelecer um tratamento para as doenças inflamatórias intestinais, porém, foi só a partir de 1950.

1932
Três médicos americanos do Mt. Sinai Hospital, em Nova Iorque, — Dr. Oppenhjeimer,
Dr. Ginsburg e Dr. Crohn — publicaram o primeiro trabalho que descrevia as dores localizadas provocadas pela colite ulcerativa no Jornal da Associação Médica Americana. Mais tarde, uma destas doenças foi batizada com o nome do Dr. Burril Crohn.

1940
O Dr. Nana Svartz, um reumatologista, de origem sueca, foi o primeiro médico a usar a sulfasalazina no tratamento de colite ulcerativa, o que se tornou a coqueluche do tratamento pelos próximos 50 anos.

1950
Os médicos perceberam o impacto que a cortisona e os corticóides causam nas condições físicas dos pacientes que são portadores de DII. Imediatamente, estes medicamentos começam a ser mais desenvolvidos na sua tecnologia.

1954
O Dr. B. N. Brooke, o cirurgião que desenvolveu o processo de ileostomia, concluiu que há três formas distintas de colite, com causas diferentes.

1959-1960
Pela primeira vez, é registrada na Inglaterra e os médicos admitem que a doença de Crohn pode afetar a região do cólon.

1960
Os imunossupressivos, como o 6-mercaptopurina e a azathioprina são introduzidos no tratamento da doença de Crohn e provam seus efeitos. Uma série de estudos também registra que as DII atingem, igualmente, homens e mulheres, principalmente os moradores de regiões urbanas, com uma procedência maior nas pessoas de origem caucasiana e judaica, sobretudo da Europa e do norte da América.

1960-1970
Nesta década, os médicos passam a prestar mais atenção ao sistema imunológico dos pacientes com DII.

1967
É formada a CCFA, a Fundação Americana de Crohn e Colite, reconhecida como a primeira entidade de pesquisas.

1969
O Dr. Nils Kock, um cirurgião sueco, desenvolve um procedimento de ileostomia (a cirurgia que permite o esvaziamento do conteúdo intestinal, através da ligação da região do íleo com a parede abdominal), eliminando a necessidade do uso de uma bolsa escrotal externa.

1970
Começam a aparecer com mais freqüência os resultados das pesquisas com medicamentos para DII. Muitas vezes, até de forma contraditória. A princípio, não se observam diferenças entre os efeitos do placebo e da azathioprina. Por outro lado, uma pesquisa clínica revela que a azathioprina e o 6-mercaptopurina demoram muito para agir nos pacientes. A CCFA, por sua vez, reconhece a ação do tratamento da doença de Crohn com o 6-mercaptopurina.

1971
Um estudo realizado em Chicago mostra uma pesquisa com 646 pacientes, dos quais 113 tinham DII causadas, aparentemente, por componentes genéticos.

1980
Médicos cirurgiões descobrem uma forma de fazer a construção interna de uma bolsa nos pacientes que têm problemas no íleo terminal e esse procedimento torna-se a forma mais popular de se fazer uma colostomia (a comunicação cirúrgica construída entre o cólon e o meio exterior).

1988
Os primeiros aminossalicitatos, a conhecida família dos 5-ASA de mesalazina, ganha a aprovação da FDA americana para o tratamento da colite ulcerativa.

1990
A CCFA publica a primeira edição de uma pesquisa que reconhece, e chama a atenção, para as prioridades das DII. As pesquisas são focadas nos fatores genéticos, imunológicos e microbiológicos dos pacientes, assim como os fatores do meio ambiente em que eles convivem.
1995
Sai o primeiro jornal científico sobre DII, das mãos da CCFA.

1998
Chega ao mercado o Infliximabe,
o Remicade, aprovado pelas autoridades americanas para o tratamento da doença
de Crohn. Com o passar do tempo,
o remédio é aprovado no resto do mundo.


1999
É criada no Brasil a ABCD — Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn — com o objetivo de apoiar de diversas formas
e munir de informações corretas portadores
e profissionais.

2000
Começa uma revolução mundial na área da pesquisa genética com o estudo do mapeamento do genoma humano. Os médicos acreditam que podem vasculhar os cromossomos humanos para encontrar as causas e justificativas para o aparecimento de doenças genéticas nos seres humanos - e falando de forma otimista, impedir, com isso, novos casos dessas doenças no futuro.

2001
Finalmente aparece o primeiro gene que pode conferir suscetibilidade à doença de Crohn: NOD2 é o nome do vilão, que foi descoberto por pesquisadores de Chicago e da França.

2002
A CCFA põe força total nas suas pesquisas para criar um plano estratégico para o tratamento das DII nos próximos 5 anos, levando em consideração sobretudo alguns aspectos: a identificação dos genes possivelmente suscetíveis para DII, o desenvolvimento de marcas para conter a atividade das doenças e ainda promover o esclarecimento e a informação entre
os pacientes sobre o funcionamento das células do intestino.

2003
As pesquisas continuam em absoluta ascensão com o determinismo de toda comunidade médica para descobrir as causas das DII. A CCFA continua à frente desses estudos.