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“Nós ainda não sabemos tudo”
É o que afirma o médico americano, David Sachar.
Ele também chama a atenção para as mudanças
ocorridas na colite ulcerativa e na doença de Crohn nas
últimas décadas
Foi com grande prazer que a ABCD
em Foco conversou com o Dr. David B. Sachar, Diretor Emérito
da Divisão de Gastroenterologia do Mount Sinai Hospital,
em Nova Iorque, que é reconhecido internacionalmente pelo
seu trabalho no campo das doenças inflamatórias
intestinais. Com mais de 200 publicações sobre este
tema, o Dr. Sachar tornou-se um especialista no assunto e já
esteve apresentando palestras em mais de dez países, entre
eles Bélgica, Espanha, Suíça, França,
Índia e China. Dr. Sachar é diretor-fundador da
Fundação de Pesquisa Burril B. Crohn e foi o primeiro
americano eleito presidente da Organização Internacional
do Estudo de DII. Já recebeu inúmeros títulos
importantes e prêmios por seus serviços à
gastroenterologia. Basta dizer que nos seus quase 40 anos de Mount
Sinai, em boa parte esteve na chefia do Departamento de Gastroenterologia
que, antes, já fora chefiado pelo próprio Dr. Burril
Crohn, com quem o nosso entrevistado pôde conviver.
Qual
é a sua avaliação sobre a incidência
das doenças inflamatórias intestinais nas últimas
décadas?
Ainda mais interessante do que o número da incidência
absoluta das doenças inflamatórias intestinais é
a tendência de mudanças da incidência no decorrer
das décadas. Da década de 1940 até pelo menos
a década de 1980, a doença de Crohn parece ter praticamente
dobrado sua incidência a cada década, chegando ao
pico de 10 casos a cada 100.000 habitantes por ano no hemisfério
ocidental. Durante este mesmo período, a colite ulcerativa
manteve sua incidência aparentemente estável nos
mesmos níveis, de forma que atualmente a doença
de Crohn tem alcançado números de incidência
similares aos da colite ulcerativa.
Três aspectos chamam a minha atenção sobre
estes dados. Primeiro, a incidência da doença de
Crohn está crescendo de forma mais rápida do que
o previsto se levarmos em conta apenas fatores genéticos.
Segundo, as mudanças na incidência em populações
que migram de países de baixa freqüência para
países de alta freqüência ocorrem no intervalo
de uma geração, indicando um papel fundamental de
fatores ambientais interagindo com os genéticos. E, em
terceiro, é evidente que fenótipos (características
determinadas pela genética e pelas condições
ambientais) dessas doenças também estão mudando
com o tempo. A doença de Crohn, por exemplo, costumava
ser quase sempre uma doença exclusiva do intestino delgado.
Hoje, apenas um terço dos casos são confinados ao
intestino delgado, enquanto dois terços envolvem também
o cólon. Mesmo levando em conta o aumento da eficácia
no diagnóstico da doença de Crohn do cólon,
essas tendências nos mostram que há muito mais coisas
ocorrendo no desenvolvimento dessas doenças, ou seja, nós
ainda não temos conhecimento de tudo.
O
que o senhor acha das terapias emergentes como o Infliximabe (Remicade)?
Não há como negar que o Infliximabe é uma
aquisição importante no nosso arsenal terapêutico
para aqueles casos de doença de Crohn que são dependentes
de corticóides, ou que são refratários, ou
seja, não respondem a outras medicações e
têm indicação para cirurgia. Por outro lado,
vem ficando cada vez mais claro que o Infliximabe tem uma limitação
no seu potencial terapêutico pela necessidade do uso de
tratamento concomitante ao de manutenção. Ainda
mais, parece improvável que mesmo as novas drogas anti-TNF,
cujo alvo seria apenas o mediador secundário da inflamação
e não propriamente as causas básicas, promovam a
solução definitiva de longo prazo que desejamos.
Finalmente, nem um desses agentes parece ter qualquer efeito benéfico
mais importante para a colite ulcerativa.
E
sobre os medicamentos que são indicados nos tratamentos
de manutenção?
Nenhum medicamento de uso regular mostrou resultado, nem ao menos
próximo, daqueles já estabelecidos com o uso de
antimetabólicos, ou seja, imunossupressores, tais como
6-mercaptopurina e azatioprina.
O
senhor acredita na descoberta da causa e da cura das doenças
inflamatórias intestinais num futuro próximo?
A resposta para esta questão depende das nossas definições
para causa (se é que existe só uma), cura (se o
tecido danificado poderia ser recuperado depois do dano ocorrido),
e, finalmente, futuro próximo (pode ser visto de forma
diferente dependendo da sua idade)! Eu acredito que enquanto décadas
de pesquisa genética ajudaram a identificar certos fatores
de suscetibilidade, nós não faremos progressos dramáticos
contra estas doenças enquanto não reconhecermos
seus diferentes subtipos e relações intrínsecas
com seus gatilhos desencadeadores ambientais.
Qual
a sua opinião a respeito do atendimento multiprofissional
para os portadores de DII, incluindo gastroenterologistas, psicólogos
ou psiquiatras, nutricionistas, etc?
Eu não somente apoio a idéia do envolvimento multiprofissional
no controle da doença inflamatória intestinal, como
sinto ser quase impossível um cuidado adequado sem ele!
O
senhor acredita que exista um padrão de evolução
do quadro clínico e das complicações nestas
doenças?
Ambos, pesquisa meticulosa e experiência clínica
diária nos ensinaram que a doença de Crohn e a colite
ulcerativa possuem vários padrões de evolução
distintos. Há muito tempo, nós reconhecemos que
a colite distal ou hemicolite esquerda (porções
finais do intestino grosso) podem se espalhar em aproximadamente
10% a 30% dos casos. Só mais recentemente, nós temos
percebido a grande variedade de apresentações e
complicações possíveis da doença de
Crohn.
A
DII afeta freqüentemente mulheres jovens.
O senhor recomenda algum cuidado especial ou faz alguma restrição
àquelas que desejam engravidar?
São cometidos mais erros quando se impõem restrições
durante a gravidez do que quando se faz o contrário. Por
exemplo, um grande prejuízo pode ser causado à muitas
mulheres quando elas são aconselhadas a parar o tratamento
durante a gravidez. O risco sobre a gestação em
geral é bem maior pela atividade da doença do que
por efeitos colaterais da medicação.
Qual
a sua mensagem para os pacientes com DII e para os médicos
que deles cuidam?
Escutem bem de perto uns aos outros e se respeitem mutuamente.
Qual
é a sua opinião sobre os grupos de auto-ajuda e
informação ao paciente?
Os médicos cometem um erro quando acreditam que são
a única chave-mestra para cuidar de seus pacientes. Família,
amigos, companheiros e outros portadores são no mínimo
uma fonte tão importante de apoio quanto qualquer mistura
de comprimidos ou poções. Médicos e pacientes
indistintamente devem reconhecer o valor destes grupos de apoio
estabelecidos pela CCFA nos Estados Unidos e pela ABCD no Brasil.
Que a ABCD continue com este belo trabalho!
Legenda: Dr. David Sachar: mais de 200 publicações
sobre DII
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