Reportagem de Capa

Uma guerreira pop
Com uma carreira de sucesso, a cantora americana Anastacia luta contra o Crohn e o câncer de mama

Anastacia: bonita e sensual, a cantora credita sua determinação à luta contra o Crohn

Por: Valquíria Sganzerlaa

Ela é alta, tem um rosto lindo e um corpo es-pe-ta-cu-lar. É também sensual - deixa os homens suspirando. E ainda por cima canta. E bem. Tem uma voz forte, bonita, poderosa. Seu nome? Anastacia.
Poucos brasileiros conhecem essa beldade pelo nome, mas talvez lembrem de quem se trata com a dica que daremos a seguir: foi ela quem fez o show de encerramento da copa do mundo de 2002.
Aqui no Brasil o fã clube de Anastacia ainda é acanhado, mas no mercado fonográfico internacional ela já é sucesso. Compositora e intérprete, a moça é conhecida não só por seu estilo fashion e atributos físicos incontestáveis, mas principalmente pela sua potente voz. Já com seu primeiro álbum, que esteve no topo das paradas em mais de uma dúzia de países e ganhou status de Ouro e Platina, Anastacia conquistou a Europa, a Nova Zelândia e a Austrália. Além dos Estados Unidos, naturalmente. Seu repertório é basicamente pop.
Nos últimos tempos, ela tem sido destaque em boa parte da imprensa mundial por várias razões: cada disco que lança estoura em vendas. O show de encerramento da copa do mundo de 2002 lhe deu projeção internacional. O clipe que fez apresentando a música Love is a crime, da trilha sonora do premiadíssimo filme Chicago (vencedor de seis Oscar em 2003) não pára de passar na mídia eletrônica.
Uma trajetória dessas nos leva a imaginar que tudo na vida desta moça foi extremamente fácil - e quase foi mesmo. Até chegar aonde chegou, Anastacia, naturalmente, enfrentou alguns dos empecilhos comuns a todos que querem trilhar o caminho dos refletores e da fama. Antes de conquistar seu espaço, ela fez de tudo um pouco. Foi bailarina num programa de TV, fez participações em vídeo-clipes de sucesso e chegou a trabalhar, no tempo das vacas magras, como recepcionista num salão de beleza em Los Angeles. Só chamou a atenção de produtores e de gravadoras depois que fez uma performance num programa da MTV. De lá para cá foram só alegrias. Com sua vida pessoal, porém, a história foi outra.
Nascida em Chicago (Illinois), e criada em Nova Iorque, Anastacia teve uma infância complicada. Seu pai, que era cantor, e sua mãe, uma atriz de teatro na Broadway, se separaram quando era muito pequena e, por muitos anos, a cantora ficou sem ter notícias dele. Seus dois irmãos e ela foram criados pela mãe, com muita dificuldade. Quando estava com 13 anos, apareceu uma saliência em seu estômago, o que fez os médicos desconfiarem de um tumor. Depois de uma cirurgia ficou diagnosticada a doença de Crohn. Os pacientes de Crohn podem imaginar exatamente como devem ter sido os momentos de angústia e fragilidade pelos quais a menina passou. Muitos adultos, quando enfrentam essa situação, vêem a sua auto-estima ser reduzida a pó de uma hora para a outra. Mas a jovem Anastacia afirma que não se deixou abater. E mais: ela acha que a doença a fortaleceu em todos os sentidos. "O que é uma desgraça para algumas pessoas foi um presente para mim", já declarou, creditando toda a sua determinação na vida ao constante desafio da luta contra a doença de Crohn.
Até onde se sabe, ela nunca chegou a ter crises sérias ou a perder muito peso. Seus cuidados se concentraram mais na alimentação correta. Aparentemente sem tantos transtornos físicos, chegou a dizer até que descobriu ser uma outra pessoa depois que soube do Crohn. Pode parecer autocontrole exagerado para alguns, ou conformismo excessivo para outros, mas o fato é que, no caso de Anastacia, o seu otimismo e a sua forma determinada de encarar os problemas têm lhe rendido um saldo bastante positivo na vida. Para quem acredita que um raio não pode cair duas vezes sob uma mesma cabeça, Anastacia está aí para provar que pode sim. No início deste ano, 17 anos depois de ser diagnosticada com Crohn e com quase 30 anos de idade, Anastacia descobriu que estava com câncer em uma das mamas. Passou por uma mastectomia (retirada parcial ou total da mama) e fez a cirurgia de reconstrução do órgão. "Apesar de ter sido sério, Anastacia tem muita sorte", declarou seu médico, na ocasião, dizendo que os prognósticos para ela eram bons. Fez questão de destacar o espírito forte da cantora para encarar essas dificuldades, o que, segundo ele, já são 50% de chances de sucesso para uma recuperação.

Coração forte
Qual foi a declaração de Anastacia depois desse segundo baque? "Minha vontade, minha fé e o meu corpo foram desafiados. Mas isso é o que menos importa, porque o meu coração é forte e a minha disposição para lutar nunca serão abalados", disse ela. A cantora agradeceu a todas as pessoas que lhe acompanharam, fãs inclusive, mesmo que à distância - nessa época, o site da cantora na Internet mostrava uma mensagem de agradecimento. E Anastacia ainda fez questão de chamar a atenção para o que, segundo ela, realmente teve importância no episódio. "Se eu aprendi alguma coisa com esta experiência foi que é importante fazer os exames de prevenção, como a mamografia."
A história de Anastacia mostra que, seja Crohn, seja câncer, ou qualquer outra doença menos agressiva, o que faz a diferença na guerra pela sobrevivência é a capacidade de a pessoa resistir firmemente e continuar disposta a lutar com todas as forças nas batalhas que possam aparecer.
Para saber mais sobre a carreira desta cantora, acesse o site www.anastacia.com.

O roqueiro se abre
Guitarrista do Pearl Jam revela ser portador da doença de Crohn

O guitarrista da banda Pearl Jam, Mike McCready, deu um exemplo de coragem: ele falou, publicamente, que tem doença de Crohn. De acordo com a notícia divulgada pela agência Reuters no dia 26 de maio último, McCready tem a doença há mais de quinze anos e decidiu falar abertamente sobre o assunto depois de ter participado de uma reunião com portadores de Crohn em um dos grupos de apoio da CCFA, a ABCD americana. "Conheci um garoto de 14 anos que já tinha sido operado seis vezes e não estava curado", disse ele. "Aprendi com essa molecada. Saí de lá me sentindo muito mais forte, esperançoso e com vontade de anunciar para todo mundo que eu consegui ter uma carreira apesar da doença de Crohn."
McCready, 37 anos, está bem há oito meses. Tem controlado seu Crohn com medicamentos. "É uma doença muito estranha. Mesmo tratando dela direito você pode entrar em crise de uma hora para outra", diz o roqueiro. Durante seu discurso, McCready não escondeu os incidentes embaraçosos. Contou que quando vai fazer um show, logo dá um jeito de descobrir onde fica o banheiro para os momentos de emergência. Um deles aconteceu em Oakland, na abertura do show dos Rolling Stones, em 1997. "Foi nosso primeiro show com eles", relatou McCready. "Cinco minutos antes de entrarmos no palco eu estava morrendo de dor. Fui até o Eddie (Vedder, líder do Pearl Jam) e disse: 'Cara, a gente pode tocar Sometimes - é uma música lenta que eu não toco'." O guitarrista então correu atrás de um banheiro. Demorou para achar e, quando achou, era um banheiro portátil. "Ouvi minha banda tocando de dentro de um banheiro portátil", lembra ele.
McCready disse que tem sorte de ter o apoio dos membros da banda - todos estavam lá durante a coletiva de imprensa em que anunciou sua doença. Assim que assumiu a doença o roqueiro começou a fazer doações. Doou a renda de um show com seu projeto paralelo, os Rockfords, para a CCFA. Seus colegas de banda o acompanham até nisso - parte da renda do show do Pearl Jam em Seattle, em dezembro último, também foi doada à CCFA. "A doença de Crohn pode ser humilhante e restritiva. Mas participar de uma organização que reúne pessoas com o mesmo problema que eu tem me ajudado muito a lidar com as coisas negativas de um jeito positivo", afirma.
Tomara que os artistas brasileiros que têm Crohn - caso existam - sigam o exemplo de McCready e ajudem a divulgar a doença aqui no nosso país.