Que
lindos, são gêmeos!
As chances de gêmeos univitelinos terem a mesma doença,
no caso Crohn ou colite ulcerativa, são grandes.
Mas há exceções
Por Valquíria Sganzerla
Que
lindos, são gêmeos!
As chances de gêmeos univitelinos terem a mesma doença,
no caso Crohn
ou colite ulcerativa, são grandes. Mas há
exceções
xzz Por Valquíria Sganzerla
É difícil não ficarmos encantados quando
nos deparamos com irmãos gêmeos — ainda
mais se forem bebês! Se forem univitelinos então
(nascidos de um mesmo óvulo)... É sempre surpreendente
ver, ao vivo e não na TV, o clone de alguém.
Até que esse assunto ganhasse a mídia mundial,
quando nasceu a ovelha Dolly e, mais recentemente, quando
a rede Globo exibiu uma novela que tratava do tema, é
provável que ninguém, com exceção
dos médicos, tivesse pensado em gêmeos univitelinos
como clone um do outro. Os gêmeos sempre chamam a
atenção e muitas vezes alimentam a nossa fantasia
de ter filhos iguaizinhos. O que em geral esquecemos de
imaginar é que gêmeos univitelinos têm
chances enormes de desenvolver uma mesma doença.
Enquanto é um resfriado ou uma catapora, não
há problema. Mas se for uma doença mais séria
como diabetes, tuberculose ou um câncer, é
impossível não temer. “Esse tipo de
coisa pode acontecer com gêmeos univitelinos porque
eles têm o mesmo sistema imunogenético”,
diz Thomaz Gollop, livre docente em genética médica
pela Universidade de São Paulo e diretor do Instituto
de Medicina Fetal e Genética Humana, em São
Paulo. “Se um deles desenvolver uma doença,
o risco de o outro desenvolver também aumenta muito.”
Para os leigos é difícil acreditar que isso
possa acontecer. Viver uma situação assim
parece coisa de mau olhado, injustiça divina ou de
um tremendo azar. Mas, infelizmente, acontece — o
que não quer dizer que seja em 99% das vezes. “A
genética não é responsável por
tudo. O genoma do indivíduo interage com o ambiente,
e, por isso, há uma série de fatores que precisam
ser levados em conta”, diz o Dr. Gollop. “Se
o gêmeo de uma pessoa não ingere alimentos
com agrotóxicos, por exemplo, e o outro ingere, o
risco de desenvolver a mesma doença que o irmão
é modificado”. Como diz o Dr. Gollop, a genética
não pode ser a vilã de todos os males físicos
das pessoas que têm o mesmo sistema imunológico.
Além da alimentação, há que
se considerar também diferenças de perfil
psicológico e de comportamento — as oscilações
de humor, a maneira de lidar com as dificuldades da vida,
o fato de a pessoa permitir que o meio ambiente interaja
com seu sistema imunológico são coisas que
interferem na genética.
As irmãs Anna Karina e Karen Cristina Araújo
Facio, 29 anos, conhecem bem essas diferenças. Elas
são gêmeas univitelinas, mas a igualdade vai
parando por aí. O temperamento e o gosto pessoal
de uma não têm nada a ver com o da outra. Karina
é mais nervosa e prefere se vestir de forma discreta,
sem chamar a atenção. Karen, por sua vez,
mostra-se mais desencanada com as coisas, se preocupa somente
com o que não tem como evitar e prefere se vestir
descontraidamente. Karina tem doença de Crohn há
quase oito anos e precisa tomar cuidado com a sua alimentação.
Karen nunca manifestou nenhum sintoma. Come o que quer e
não se preocupa com os males do cigarro e da bebida.
“Minha irmã nunca se preocupou com o fato de
que ela possa vir a ter Crohn, como eu. Sua saúde
é ótima, ela nunca teve nada”, diz Karina,
formada em química, funcionária de uma indústria
em Cotia e divorciada há um ano. “A gente faz
questão de ser diferente em tudo, mas eu tenho uma
ligação muito forte com ela — acho que
até mais do que ela tem comigo”, diz Karen,
que mora sozinha num apartamento no mesmo prédio
da irmã, no bairro da Aclimação, em
São Paulo.
O caso das irmãs Facio mostra que nem sempre a genética
ganha a parada. A ABCD em Foco, depois de consultar uma
dezena de médicos gastroenterologistas, encontrou
um único caso de gêmeas univitelinas com Crohn.
É
melhor concordar com o geneticista Gollop quando ele diz
que “a genética é uma parte mas não
é tudo”. É isso mesmo. Não dá
para ficar esperando o pior ou fazendo conjeturas e estimativas
preocupantes sobre a nossa saúde. A gente tem mais
é que ser feliz!
Olhos:
Em geral, esquecemos de imaginar que gêmeos univitelinos
têm chances enormes de desenvolver uma mesma doença.
Depois
de consultar vários médicos gastroenterologistas,
a ABCD Em Foco encontrou um único caso de gêmeas
univitelinas com Crohn
Legenda:
s Karina (à esq.) e Karen, gêmeas univitelinas:
a igualdade entre elas pára na aparência
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