De olho no íleo

Vitamina "B-12" em spray-nasal


Guarde bem este nome:
Nascobal. Trata-se de um medicamento nasal, de origem americana, que substitui as
desagradáveis ampolas injetáveis de vitamina B-12 ou aqueles comprimidos nem sempre fáceis de engolir. Basta uma "sprayzada" deste medicamento uma vez por semana e pronto. São as facilidades do mundo moderno. O problema é que não é fácil ainda encontrar o Nascobal no mercado brasileiro - e sempre que isso acontece, haja bolso para bancar a conta: o remédio custa nada menos que
R$ 500,00. Os portadores de doença de Crohn extensa do íleo terminal, e aqueles que tiveram ressecções importantes desta região, são os que mais vão se beneficiar com esta nova modalidade de reposição vitamínica. É que a vitamina B-12 é absorvida exatamente no íleo, e estes pacientes são obrigados a repô-la com injeções intramusculares quinzenais ou mensais,
já que por via oral a absorção não ocorre. Vamos aguardar uma maior difusão do produto e uma queda do preço para que se torne mais viável.

Um novo imunossupressor
A boa notícia: está sendo estudado mais um medicamento para tratamento da doença de Crohn.
É a thioguanina, um derivado da 6-Mercaptopurina que, por sua vez, é derivado da azatioprina. Esses três medicamentos são imunossupressores e têm efeitos similares. A thioguanina tem várias indicações:
para pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais ou têm dependência de cortisona, para crianças que não podem tomar cortisona devido ao impacto dos seus efeitos colaterais
no crescimento e para os casos de fístulas.
A má notícia: há cerca de um ano não se encontra a thioguanina no mercado.
Nem mesmo nos países onde ela é produzida.
O motivo é uma provável falta de matéria prima.

"Superbonder"para fístulas

Por falar em mundo moderno, está em estudo num hospital em Oxford, na Inglaterra, uma cola superespecial para o tratamento de fístulas perianais de leve e média complexidade, em pacientes de doença de Crohn. A "superbonder" para fechar fístulas é fácil de usar, não compromete outras opções de tratamento nem causa danos às funções dos esfíncteres. Nas primeiras conclusões desse estudo não foi registrada nenhuma vantagem do uso desta cola nos casos de fístulas simples. Mas nos casos mais complexos os pacientes, ao que parece, ficaram mais satisfeitos com a cola do que com o tratamento convencional. Este tipo de tratamento já foi usado no passado e abandonado, mas agora está sendo novamente testado. Vamos esperar para ver se vale ou não a pena.

Multivitamínico balanceado

É comum pacientes de doenças inflamatórias intestinais apresentarem perda de vitaminas e nutrientes, devido às crises com diarréias ou à má absorção na região do íleo. Para repor esses nutrientes, acaba de chegar ao mercado americano o Forvia, um multivitamínico que tem uma dosagem especialmente balanceada para doentes de Crohn ou colite ulcerativa. Produzido pela Inovera, empresa americana sediada na Filadélfia, o Forvia supre a perda de vitaminas com apenas dois comprimidos diários. Por ser novo, o Forvia não chegou ao mercado brasileiro. Quem puder comprar lá fora, vai desembolsar cerca de R$150,00 por uma caixa com 60 comprimidos.


De olho no íleo

Nova estratégia terapêutica para Crohn
Por Mario Geller*

A doença de Crohn é uma condição inflamatória do trato gastrointestinal que acomete um milhão e meio de pessoas no mundo todo, das quais meio milhão só nos Estados Unidos. Quando bem controlada, permite que os seus portadores levem uma vida adequada e de boa qualidade. Tradicionalmente, o tratamento da doença de Crohn consiste na administração de medicamentos imunossupressores para controlar um excesso de atividade imunológica. No dia 9 de novembro de 2002, foi publicado na famosa revista médica inglesa The Lancet, um trabalho fruto de pesquisas feitas na Escola de Medicina da Universidade de Washington, St. Louis, Missouri, Estados Unidos, onde se optou por um tratamento exatamente oposto. Os pesquisadores, Drs. Dieckgraefe e Korzenik do Departamento de Gastroenterologia do Hospital Barnes-Jewish desta Universidade, utilizaram o medicamento Leukine (sagramostin, um fator estimulador das colônias de granulócitos e macrófagos humanos recombinante, o GM-CSF). Este imunoestimulante é uma proteína que já existe no organismo humano e que aumenta o número e a atividade de células do sistema imunológico, também presentes no trato gastrointestinal (neutrófilos, monócitos-macrófagos, e nas células dendríticas). A idéia surgiu a partir da observação feita em duas doenças genéticas com imunodeficiência, onde ocorre uma associação mais freqüente com a doença de Crohn (doença do armazenamento de glicogênio 1B e doença granulomatosa crônica). Nelas o tratamento imunoestimulador também controlou a doença de Crohn associada.

Grande progresso
Foi realizado um estudo aberto em 15 portadores da doença de Crohn de grau moderado-severo, com a administração subcutânea de GM-CSF, e observou-se que em 12 pacientes (80%) houve uma ótima resposta terapêutica: melhoria significativa da qualidade de vida e redução substancial dos sintomas previamente apresentados. Infelizmente, a suspensão do medicamento estava associada à volta destes sintomas, que, no entanto, respondiam novamente bem à reintrodução do GM-CSF. Este novo tratamento imunoestimulador poderia, então, estar indicado para os pacientes que não respondem bem aos clássicos imunossupressores.
No momento, planeja-se, no âmbito internacional, estudos multicêntricos, randomizados e controlados com placebo, com um grande número de pacientes com a doença de Crohn moderada-severa. Há grandes expectativas. Podemos concluir que se abrem novas perspectivas terapêuticas para estes pacientes, principalmente para os que não respondem bem aos imunossupressores tradicionais. Caso comprovada sua segurança e eficácia, haverá um grande progresso no tratamento da doença de Crohn.

*Mario Geller é Presidente do Capítulo Brasileiro do American College of Allergy, Asthma & Immunology PR-Network