De olho no íleo

Quanto pode custar sua doença?

Sempre que temos que acertar as contas de um tratamento médico a vontade que dá é de sair correndo. Além de estarmos fragilizados por causa do problema de saúde, ainda por cima temos que rebolar para conseguir equilibrar o orçamento. Isso acontece com a imensa maioria da população, que não tem dinheiro sobrando mas sim faltando, e nem sempre pode ficar a mercê da burocracia e ineficácia dos serviços públicos de saúde. Para os portadores de doenças inflamatórias intestinais (DII) a conta costuma ser realmente dolorosa — essas doenças são crônicas, na maior parte das vezes requerem o uso prolongado de medicamentos e quase todos são extremamente caros. Quanto custa sustentar a retocolite ulcerativa ou a doença de Crohn? Os tratamentos mais sofisticados chegam a custar até R$5.000 por mês e os mais simples dificilmente custam menos que R$300,00 mensais (R$100,00 a mais que o valor do salário mínimo).
“Os gastos com medicamentos são muito variáveis, pois dependem do diagnóstico, da extensão da doença, da gravidade do quadro e de eventuais complicações que requerem tratamento especial”, diz o gastroenterologista Flavio Steinwurz, presidente da ABCD. Além do gasto com remédios, há também despesas com exames e consultas, que podem fazer qualquer previsão financeira ir para o espaço. De qualquer forma, é preciso encarar o tratamento pois a opção contrária pode custar muito mais. “Em geral, é mais barato tratar a doença clinicamente e assim controlá-la, do que não tratar e ter que arcar depois com gastos mais altos em função de uma piora do quadro e até de uma eventual cirurgia”, alerta o Dr. Flavio. É claro que em certos casos a cirurgia é inevitável e, conforme a evolução da doença, acaba sendo mais barata do que o tratamento clínico. “Mas para optar por este procedimento o paciente tem que ter uma indicação precisa”, lembra o médico.
No final do ano passado, o Ministério da Saúde acenou com uma ótima notícia para toda a comunidade de portadores de DII, ao liberar uma portaria que determina a distribuição gratuita, pelo SUS, da maior parte dos medicamentos utilizados na doença de Crohn e na retocolite ulcerativa. Algumas Secretarias de Saúde já estão oferecendo este serviço, enquanto outras ainda estão se ajustando para cumprir o regulamento. “Esta louvável atitude do governo possibilita que as pessoas que não têm condições possam se tratar direito”, diz o presidente da ABCD. Só é preciso torcer para que esse benefício se torne disponível, na prática, em todo o Brasil. Enquanto isso não acontece, a única saída para baratear um tratamento é conseguir remédios e exames com desconto nos laboratórios e farmácias, conveniados da ABCD.

Luta de Crohn na TV
Por mais incrível que pareça, o programa Big Brother de vez em quando traz ao telespectador algo de bom. Apesar de chato, sem graça e do baixíssimo nível do seu conteúdo de intrigas e fofocas, pode contribuir com informações sobre saúde. Na edição brasileira do programa, há quase um ano, o público viu o caso da garota bonita e sarada que fazia todas as peripécias possíveis para esconder seu problema de bulimia. Na época, isso gerou uma série de notícias esclarecedoras sobre esta doença — ou seja, o programa conseguiu ser útil, ainda que sem querer. Recentemente, foi a vez do jovem Peter Timbs, de 29 anos, revelar no Big Brother da Austrália que é portador de Crohn desde os 16 anos. Nessa época de adolescente, ele chegou a perder 10 quilos numa só semana. “Até a quinta semana de programa eu estava bem, mas depois entrei numa crise, comecei a perder sangue e muito peso e não deu para esconder da minha namorada na casa, nem dos outros participantes”, conta Peter, que saiu tremendamente frustrado, como é natural.
Por ter tornado a sua doença pública, o rapaz acredita que possa ter ajudado pessoas com esse mesmo diagnóstico a lidar melhor com a doença. “Você tem que aprender a conviver com o Crohn em vez de viver com vergonha por ter essa doença”, diz Peter. “Não dá para ficar sentado esperando uma nova crise. A gente tem que tomar conta da vida da gente”. Recentemente, a mãe de Peter foi diagnosticada com Crohn. Há uma estimativa, aliás, de que esta doença afeta mais de 10 mil australianos. Até que Peter merecia um prêmio de consolação da produção do programa pela iniciativa, não?

Crohn é destaque
em Malhação
Por falar em televisão, dias atrás a personagem principal da série Malhação, exibida pela TV Globo, Júlia, ficou doente. Teve dor na região do estômago, febre e, depois de procurar o médico, recebeu o diagnóstico de doença de Crohn. “Ela teve uma inflamação no tubo digestivo, causada por stress. Trata-se de uma doença grave mas que, se for tratada da forma correta, não impede que a pessoa tenha uma vida normal”, disse seu pai na história. Através de seus personagens, esta série da TV Globo procura abordar problemas comuns na vida dos jovens. Perda da virgindade, Aids, gravidez na adolescência, erros médicos, homossexualismo e superdotados são alguns dos inúmeros assuntos que já foram tratados pelo programa, que está em seu 7o ano de exibição. “A personagem principal precisava ter uma doença séria, mas nós queríamos que ela ficasse bem”, diz Andréa Maltarolli, integrante do time de criadores da série. “Quando soubemos que uma amiga de uma das autoras de Malhação tem Crohn, pesquisamos o assunto e decidimos que essa doença vinha ao encontro do que precisávamos”. De qualquer forma, infelizmente, a doença de Crohn não será mais citada no seriado. “Foi uma coisa circunstancial e esse tema não entrará mais na história”, diz Andréa.

Mais um exame estratégico para a DII
Algumas vezes as pessoas precisam fazer exames clínicos muito desagradáveis. Alguns assustam simplesmente por sua nomenclatura. A imunocintilografia é um deles. Para sorte dos pacientes, no entanto, trata-se de um exame indolor, que não passa de mais uma ferramenta para investigar um diagnóstico clínico. Nos casos de pacientes com doenças inflamatórias intestinais, este exame pode detectar exatamente qual parte do seu intestino está afetada. “O exame de imunocintilografia é o que se tem de mais sofisticado para detectar, por imagem, a presença de leucócitos no intestino”, diz o Dr. Carlos Alberto Buchpiguel, professor associado, livre docente, do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da USP. “Tanto no caso da retocolite quanto da doença de Crohn, este exame revela se houve migração de células brancas (os leucócitos) para o interior da parede intestinal, confirmando a presença de inflamação”, explica o médico.
Trocando em miúdos, o exame ocorre da seguinte forma: um líquido (agente monoclonal) é injetado no paciente para obter o efeito de contraste e fazer o rastreamento da parte do intestino que está comprometida. O exame só não é simples como fazer um raio-X porque são necessárias duas etapas: a primeira, de duas a quatro horas após a administração do líquido na corrente sanguínea do paciente. A segunda, 24 horas após este procedimento. Agora vai a má notícia: o exame de imunocintilografia ainda não é feito no Brasil de forma corriqueira. A classe científica não ficou muito animada em avançar os estudos sobre ele em função do seu custo/benefício — só as pessoas privilegiadas financeiramente é que podem arcar com as despesas de importação do material necessário para a sua aplicação. Em tempo: nos Estados Unidos, este exame custa cerca de 1.500 dólares.