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As armas terapêuticas para Crohn e colite são
semelhantes. Descubra quando cada uma delas deve entrar
em ação
Por Conceição Lemes
A chegada do Remicade ao mercado significa o fim da linha
para os outros remédios? Quem está fora de
crise já há um bom tempo pode parar o tratamento?
É possível tratar Crohn ou colite ulcerativa
com apenas um remédio?
Essas são apenas algumas das muitas dúvidas
sobre medicamentos que de tempos em tempos assolam a cabeça
de quem tem Crohn ou colite ulcerativa. Por se tratarem
de doenças que exigem tratamento para o resto da
vida, fala-se muito, e com muita esperança, sobre
as novas armas terapêuticas existentes no mercado.
Às vezes parece que elas são indicadas para
todos os doentes de DII (Doença Inflamatória
Intestinal) e que vão resolver tudo. Infelizmente,
não é bem assim. Veja o exemplo do infliximab
(Remicade), a mais comentada no momento. "O infliximab
não é milagroso, não", diz o gastroenterologista
Aytan Sipahi, professor da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo, FMUSP. "Só deve ser indicado
quando o arsenal terapêutico tradicional para Crohn
não funciona."
Contra o chefe da vigilância, os anti-TNF
O infliximab é o primeiro membro (há outras
drogas a caminho) da família dos anticorpos contra
o fator de necrose tumoral. Conhecidos pela sigla anti-TNF,
resultam da descoberta do envolvimento do sistema imunológico
nas doenças inflamatórias intestinais. Mais
precisamente, nas que são causadas por uma desregulação
no mecanismo de tolerância. Vamos explicar. Certas
bactérias moram no intestino sem causar qualquer
problema. É como se o órgão fosse um
condomínio superpovoado, com todo mundo convivendo
numa boa. Sempre que alguém novo chega, o sistema
imunológico cadastra o visitante e guarda todos os
seus dados na memória. Tanto que, se for do bem,
nas próximas entradas será reconhecido pelo
esquema de segurança e passará tranqüilamente
pelas guaritas. E, assim, a maioria das pessoas desenvolve
no decorrer da vida uma convivência pacífica
com a sua flora intestinal.
Porém, quem tem doença de Crohn ou retocolite
ulcerativa, não. O mecanismo de tolerância
está desregulado e o intestino responde de forma
exagerada: em vez de os moradores habituais ganharem um
"olá" ou "bom dia" nos contatos
do dia-a-dia, são recepcionados até com paus
e pedras pela equipe de vigilância. "O fator
de necrose tumoral (TNF) é o chefe. Ele dá
a ordem para os integrantes do sistema de defesa agirem,
produzindo o processo inflamatório no intestino",
compara dr. Aytan Sipahi. "O infliximab, que é
um anticorpo contra o TNF, neutraliza o efeito do chefe
da segurança imunológica."
Casos graves de doença de Crohn e fístulas
Sem a menor dúvida, os anti-TNF são um avanço
importante que está mudando para melhor a história
natural da doença de Crohn. Comprovadamente, o infliximab
diminui o número de internações e o
de transfusões de sangue por anemia. Além
disso, funciona com rapidez - em quatro semanas já
se notam seus benefícios. Mas há um obstáculo:
como entram proteínas de camundongo na composição,
o organismo, após a primeira dose, tende a criar
anticorpos contra o medicamento. Em conseqüência,
ele às vezes causa reações alérgicas
nas doses seguintes. Os anticorpos podem até neutralizar
o efeito da medicação.
Por que, então, não se vê tantos portadores
de Crohn com esses problemas? É porque muitos doentes
tomam também drogas imunossupressoras: azatioprina
(Imuram, Imunem), mercaptopurina (Puri-Nethol) metrotexato
(Metrotex, Cytosafe Metotrexato) ou ciclosporina (Sandimmum,
Sigmasporin, Cyclosporin, Gengraf). Como essas drogas diminuem
as defesas imunológicas, elas acabam bloqueando a
rejeição ao infliximab. Ou seja, na prática,
uma mão lava a outra. "O infliximab é
uma arma de retaguarda, que deve ser reservada para situações
especiais", defende o dr. Aytan Sipahi. Essas situações
especiais são, basicamente: casos graves de Crohn;
doença moderada em que o paciente não se adapta
à terapêutica tradicional; tratamento de fístulas
- fecha 55% a 60%. Isso significa que quem tem colite não
pode usar Remicade? Por enquanto, os estudos não
deram uma resposta definitiva sobre o uso das drogas anti-TNF
na retocolite ulcerativa. Mas há indícios
de que possam ser úteis nos casos graves da doença.
Nas crises, os corticosteróides imperam
Na verdade, o arsenal terapêutico é semelhante
para as doenças inflamatórias intestinais.
O corticosteróide, por exemplo, é a droga
mais utilizada no mundo para tirar das crises os portadores
de Crohn e de retocolite ulcerativa. Dependendo da gravidade
e extensão do processo, utiliza-se a prednisona oral
(Meticorten, Predicorten) ou a hidrocortizona na veia (Flebocortid
injetável, Hidrocortex, Solu-Cortef). Particularmente
nas crises de casos leves, pode-se substituir a prednisona
oral pela budenosida (Entocort). A grande vantagem é
que, enquanto a prednisona oral atua em todo o organismo,
o corticosteróide das cápsulas de budesonida
é liberado na região afetada, agindo apenas
localmente. Ou seja, provoca menos efeitos colaterais.
A propósito, embora os corticosteróides sejam
bastante eficazes para tratar doença de Crohn e colite
ativas, as reações adversas são bastante
comuns. Insônia, alterações de humor,
suor noturno, aumento do apetite e aumento das taxas de
glicose no sangue podem se manifestar logo no início,
especialmente quando as doses são elevadas. O uso
prolongado, mesmo em baixas dosagens, pode provocar desde
acne, arrendondamento do rosto (cara de lua) e crescimento
excessivo dos pêlos até fraqueza muscular,
catarata e hipertensão arterial.
Para controle, 5-aminossalicilatos
e imunodepressores
Nas doenças inflamatórias intestinais, o arsenal
terapêutico do tratamento de manutenção
também assemelha-se. A prova é que, na doença
leve de Crohn e na retocolite ulcerativa leve e moderada,
as drogas de eleição são as mesmas:
os 5-aminossalicilatos, que controlam bem a maioria dos
casos. Eles fazem parte da família de velhos conhecidos
de quem tem DII - a sulfassalazina (Azulfin, Salazoprin)
e a mesalazina (Asalit, Pentasa), ambas derivadas de sulfas.
A sulfassalazina, especificamente, é uma associação
de sulfapiridina (uma das primeiras sulfas) com o 5-aminossalicílico
(mesalazina).
Já nas colites que não melhoram com esses
medicamentos, é necessário utilizar também
drogas imunossupressoras, normalmente usadas após
transplantes de órgãos para evitar a rejeição:
azatiopriona, mercaptopurina, metotrexato e até ciclosporina
nos casos agudos. "Na retocolite ulcerativa, quando
o paciente chega ao ponto de utilizar a cicloscoporina,
que é um imunossupressor maior, uma alternativa é
a cirurgia", diz o Dr. Aytan Sipahi. Todo o cólon
é tirado e feita uma bolsa com o intestino delgado,
que é ligada direto ao reto.
Na doença moderada e grave de Crohn, é necessário
também acrescentar drogas imunossupressoras no tratamento
de manutenção. A finalidade é fazer
com o que o sistema imunológico do intestino não
reaja tanto à flora bacteriana normal. "Funcionam
em 75% dos portadores de Crohn, mas levam de três
a seis meses para agir", observa o Dr. Aytan Sipahi.
"É comum os pacientes tomarem junto ciprofloxacina
e metronidazol, antibióticos que ajudam a controlar
os processos inflamatórios."
Quando esses recursos terapêuticos falham e o portador
de Crohn sofre crises agudas constantes, lança-se
mão do infliximab. A ação é
rápida - em quatro semanas a doença entra
em remissão, como é dito no jargão
médico. Ou seja, sai-se do sufoco. Há situações
em que uma única dose basta, permitindo que se controle
o Crohn com azatioprina, por exemplo. Porém, há
casos mais graves, que exigem quatro, dez e até doze
doses de infliximab.
"Coquetéis" de drogas, a tendência
dos tratamentos
A esta altura é provável que os doentes de
DII já estejam se perguntando se o fato de tomarem
Remicade não os livra de outros remédios.
Ou, então, se podem tirar as drogas do tratamento
de manutenção quando entram em crise. Vamos
por partes. A resposta para a primeira questão é
depende. Se você não teve qualquer benefício
com a azatioprina, por exemplo, é claro que o seu
médico não deve dá-la de novo. Mas
se o seu organismo respondeu de alguma forma favoravelmente,
a azatioprina deve ser mantida, sim. Isso vale para os demais
remédios que esteja usando. A orientação
geral é a seguinte: toma-se a dose de manutenção
para controlar a doença, e introduz-se o anti-TNF
quando o processo inflamatório entrar em crise e
não responder às drogas tradicionais.
A resposta para a segunda questão é não
- as drogas do tratamento de manutenção não
podem ser retiradas quando se entra em crise, a menos que
a pessoa esteja muito ruim. Nesse caso sim, se tira um ou
outro remédio. Isso vale tanto para Crohn quanto
para retocolite ulcerativa. Durante as crises, a regra é
não suspender o tratamento de manutenção,
mas acrescentar outros medicamentos, como os corticosteróides.
Tudo isso quer dizer que não dá para tratar
Crohn e colite só com um remédio? Novamente,
depende. Em certos casos dá sim. Em alguns, é
possível até manter a doença sob controle
sem nenhum medicamento. Mas, de forma geral, é preciso
usar mais de uma droga. A tendência, aliás,
é tratar as doenças inflamatórias com
associações de várias drogas. São
os chamados "coquetéis", já adotados
com sucesso na aids. A razão é a própria
natureza das doenças inflamatórias intestinais.
Como vários mecanismos estão envolvidos, a
combinação de drogas permitiria agir nos diversos
responsáveis pelos processos inflamatórios.
Outra propensão dos especialistas é adotar
os probióticos como tratamento adjuvante para todos
os casos de Crohn e de colite. Os probióticos são
lactobacilos em altas doses. Como se tratam de um exército
de bactérias do bem, ajudariam a diminuir o poder
de fogo dos elementos da flora intestinal normal, que são
exatamente os inimigos mortais dos portadores de Crohn e
retocolite ulcerativa. Os probióticos, porém,
têm dois inconvientes: custam caro e devem ser tomados
sempre.
Medidas úteis para todos que têm Crohn ou
Colite
É evidente que o ideal é a cura. Ou, pelo
menos, que a curto prazo seja possível controlar
o processo inflamatório intestinal de maneira eficaz
e sem tantos efeitos colaterais de algumas das drogas usadas
atualmente. Mas há algumas medidas que podem ajudar
todos os portadores de Crohn e de retocolite ulcerativa
a partir de agora. Vamos a elas:
l Procure ter - e manter - um bom vínculo com o seu
médico. Essas doenças são crônicas
e um bom relacionamento entre médico e paciente é
importantíssimo para o sucesso de qualquer tratamento.
l Entre imediatamente em contato com ele caso sinta ou tenha
alguma coisa diferente - febre, vômitos, náuseas,
piora da diarréia. A interferência precoce
na evolução natural da doença às
vezes evita complicações maiores.
l Siga à risca o tratamento de manutenção.
Não é fácil mas o lado bom compensa:
tem menos crises quem faz corretamente.
l Faça o seguimento periódico da doença,
de acordo com as orientações do seu médico.
Algumas vezes, basta uma consulta a cada dois, três
meses. Em outras, precisam-se mais visitas.
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