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É
possível driblar a doença
O relato de Roberto Sarandy dos Santos mostra que abandonar
o tratamento do Crohn quando se está bem é
a mesma coisa
que pedir para entrar em crise |
Por Roberto Sarandy dos Santos
Em 1988, como todo jovem de 25 anos de idade, eu tinha milhares
de sonhos na cabeça. Estava num bom emprego, tinha
me casado há pouco tempo e acabara de ser papai.
Parecia que minha vida seguiria assim, tranqüila e
feliz para sempre. Mas de repente descobri que estava doente
- e passei a viver um drama.
Um dia acordei com diarréia e fortes dores na barriga.
Comi alguma coisa que me fez mal, pensei. Mas os dias foram
passando e eu continuei do mesmo jeito. Passei a emagrecer
rapidamente - e comecei a sentir escapar pelos dedos todos
os projetos que havia traçado para a minha vida e
a da minha família.
Iniciei, então, uma terrível maratona em busca
de um médico que me dissesse o que eu tinha. Passei
por vários - nenhum conseguiu diagnosticar minha
doença. Fui encaminhado para especialistas, e nada.
Fiz uma bateria de exames, pois suspeitavam que o que eu
tinha era AIDS. Meu peso despencou de 64 kg para 42 kg.
Os exames deram negativo, o que me fez ficar feliz por um
lado e mais desesperado por outro. Como é que ninguém
encontrava a resposta para o meu problema se os meus sintomas
eram tão claros e as dores me faziam gritar de desespero?
Na tentativa de atenuar meu sofrimento, tomava soro o dia
inteiro, em casa mesmo, e injeções de Baralgin
na veia a cada 12 horas. Procurei um gastro e dessa vez
tive mais sorte. Ao me examinar, ele disse que não
poderia fazer nada por mim, mas deixou bem claro que se
eu não conseguisse receber um tratamento especializado
rapidamente não sobreviveria por muito tempo. Isso
eu estava mesmo sentindo. Ele logo percebeu que eu não
tinha grandes recursos financeiros, e me encaminhou ao Dr.
Gil Fernandes Salles, no Hospital Clementino Fraga (FUNDAO),
no Rio de Janeiro, onde moro. Fui internado, me viraram
do avesso e finalmente descobriram o que eu tinha: Doença
de Crohn. Novamente eu me vi feliz por um lado, pois já
haviam descoberto qual era o meu problema, mas preocupadíssimo
por outro. Que raio de doença era essa? Nem o nome
eu sabia pronunciar...
Passei a ser tratado e alimentado adequadamente e rapidamente
me recuperei. Meu peso subiu bastante, as dores foram parando
e dez dias depois me deram alta. Durante algum tempo fiz
tratamento ambulatorial, mas depois de quatro meses, como
eu me sentia muito bem, parei com os remédios e voltei
completamente à vida normal. Os anos se passaram.
Tive mais um filho, me formei em administração
de empresas, fiz vários cursos e consegui um excelente
emprego numa multinacional suíça. Até
viajar para o exterior a trabalho eu viajei.
Não que eu não sentisse mais nada. Ao contrário,
as dores e a diarréia de tempos em tempos voltavam.
Mas eu simplesmente fingia que nada estava acontecendo e
ia tocando a vida como dava. Este foi meu grande erro, pois
eu ainda não conhecia direito a doença que
tenho. Em 1996, entrei numa crise bravíssima que
me impediu até de realizar minhas tarefas do dia
a dia, como trabalhar, estudar, passear. Procurei novamente
um gastroenterologista - ele conhecia a doença, mas
nunca a tinha tratado. Decidimos tentar, de qualquer forma.
Comecei a tomar uma medicação à base
de cortizona. No início melhorei, mas logo a seguir
as dores e a diarréia constante voltaram. A dose
do remédio foi aumentada, os efeitos colaterais também,
e cura que é bom, nada. Fiquei nessa situação
por quatro longos anos, até que voltei a perder peso
e piorar muito. Minha aparência denunciava o meu estado
de saúde e eu já não conseguia mais
disfarçar isso no trabalho. Faltava freqüentemente
e quando ia, não conseguia me concentrar por causa
das dores e da diarréia.
Eu tinha subido na carreira. Estava ocupando um cargo importante
- era gerente de logística da empresa. Adorava o
que fazia, mas minhas funções exigiam de mim
muito esforço mental, concentração
e viagens constantes. Comecei a pensar no pior. Caso a doença
se agravasse ainda mais, eu teria que deixar meu emprego
e perderia tudo aquilo que havia conquistado durante anos
de trabalho duro. O padrão de vida mais confortável
que estava dando para a minha família, o bom colégio
dos meus filhos, o curso de inglês, de informática...
tudo iria acabar. Não, eu não poderia permitir
que o Crohn me vencesse!
Pedi muito a Deus que ajudasse a encontrar o caminho para
a solução do meu problema. Assim que amanheceu
decidi voltar ao Hospital do Fundão, aquele onde
finalmente haviam descoberto a minha doença. Já
tinham se passado 12 anos desde aquela minha internação.
Cheguei lá com muitas dores e logo soube que o hospital
estava em greve. Falei com um, falei com outro, procurei
a assistente social, rodei o hospital inteiro, até
que descobri em que prédio e andar ficava a gastro
e fui para lá. Cheguei sem forças, quase caindo.
Uma enfermeira me colocou numa cadeira de rodas, ouviu toda
a minha história e conseguiu que um médico
viesse me atender. Este me encaminhou para o ambulatório
do hospital e eu voltei a ser atendido por profissionais
que conhecem a doença e sabem como tratá-la,
como a Dra. Cyrla Zaltman e equipe. Pude ter contato com
pessoas que também têm Crohn e deixei de me
sentir sozinho nessa situação. Aos poucos
fui conhecendo mais o Crohn e os tratamentos possíveis.
Hoje minha doença está controlada e eu voltei
a ser feliz. Posso afirmar, com segurança, que foi
a fé que tenho em Deus e o apoio que recebi da minha
mulher e da minha família que me deram forças
para suportar todo esse calvário. Procuro ajudar,
de alguma forma, pessoas que estão na mesma situação
que eu estive. Por isso decidi contar aqui a minha história
- meu objetivo é que ela sirva de instrumento para
confortar e mostrar que é possível sim, driblar
a doença e viver de uma maneira saudável e
alegre. n
Roberto Sarandy dos Santos
E-mail: sarandy10@aol.com
"Comecei a sentir escapar
pelos dedos todos os
projetos que havia traçado
para a minha vida"
"Hoje, minha doença está controlada
e eu voltei a ser feliz. Por isso, decidi contar aqui
a minha história"
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