Entrevista - Dra. Marise Lazaretti-Castro
Como manter distância da osteoporose
O Crohn, a colite e os medicamentos para tratá-las roubam ossos, enfraquecendo-os silenciosamente. Conheça as armas para neutralizar esses assaltantes
Marise com os filhos Isabela, Paula e Pedro:
"É possível prevenir a osteoporose nos portadores
de Crohn e colite"

Até 2010, o número de homens e mulheres com mais de 70 anos quase dobrará em relação ao de hoje. E crescerá também o número de casos de osteoporose, já um problema de saúde pública nos países desenvolvidos. O alerta é da Organização Mundial de Saúde, OMS, e se justifica: a doença leva à perda progressiva da densidade dos ossos, que enfraquecem e ficam mais sujeitos a fraturas. No Brasil, esse mal afeta aproximadamente três milhões de pessoas, das quais 20% são homens. Pesquisas da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp, revelam: ao redor dos 55 anos, cerca de 20% das mulheres têm osteoporose; acima dos 70, a incidência salta para 57%. Entre os homens com mais de 70, atinge 45%. "Certos medicamentos, doenças e hábitos de vida, inclusive na infância e adolescência, roubam massa óssea, favorecendo a osteporose mais tarde, já que osso perdido não tem retorno", afirma a Dra. Marise Lazaretti-Castro, chefe do Ambulatório de Doenças Osteometabólicas da Unifesp. "A Doença de Crohn e a colite ulcerativa estão nessa lista. Ambas aumentam o risco de osteoporose."
Formada pela Faculdade de Medicina do ABC, com especialização na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, mes-trado, doutorado e pós-doutorado na Unifesp, a Dra. Marise Lazaretti Castro sempre desenvolveu pesquisas na área de metabolismo ósseo. As mais recentes foram em idosos. Paulista de Fernandópolis, Dra. Marise fez toda a sua carreira em São Paulo, onde mora, no bairro do Alto de Pinheiros. Como toda mulher que trabalha fora, ela dedica o tempo livre aos três filhos, Pedro, Paula e Isabela, e ao marido, o também médico Fábio Castro. Nessa entrevista à ABCD Em Foco, a Dra. Marise fala tudo o que os leigos precisam saber sobre osteoporose e a sua relação com o Crohn e a Colite.

Os portadores de doença de Crohn e colite ulcerativa têm mesmo mais osteoporose?
Aparentemente sim, embora os trabalhos nessa área estejam apenas começando. Um estudo feito na Holanda, envolvendo portadores de todas as faixas etárias mostrou que 13% apresentavam osteoporose, e 40% osteopenia, que é um estágio anterior mas onde já há diminuição da massa óssea. Outro dado: 24% já tinham sofrido uma fratura, comprovando a fragilidade óssea.

Há diferença entre a fratura decorrente da osteoporose e a comum?
Há sim. Por causa da osteoporose, às vezes só de espirrar a pessoa pode fraturar uma vértebra lombar. Ou seja, há desproporção com o trauma. É aquela situação em que se diz que a "pessoa caiu da própria altura": estava andando, torceu um pouco o pé e fraturou o colo do fêmur. Por sinal, a fratura de fêmur osteoporótica é a terceira causa de internação hospitalar e segunda de óbito entre americanas e européias com mais de 50 anos.

Afinal, o que causa a osteoporose?
O principal responsável pela doença é a quantidade máxima de osso atingida por cada pessoa - o chamado pico de massa óssea --, que ocorre entre os 18 e 20 anos. A carga genética contribui com 60%; os 40% restantes são ambientais. Isso significa que o pico de massa óssea é determinado geneticamente. Porém, o resultado final é produto do equilíbrio entre fatores formadores e depletores, o que, entre amigos, podemos chamar de ladrões de ossos.

Por favor, explique melhor.
O osso é um órgão extremamente vivo e ativo. Ao longo da vida, todos nós formamos e perdemos osso o tempo inteiro. Com uma diferença: no início da vida, a aquisição de osso supera a perda. Depois, ocorre o inverso. Ao entrarem na menopausa, entre os 45 e 50 anos, as mulheres perdem anualmente mais de 2% da massa óssea devido à redução dos estrógenos, os hormônios femininos. Nos homens, essa redução acontece por volta dos 65, 70 anos, e não de forma tão drástica. Resultado: até a velhice é absolutamente normal perder-se quase metade do esqueleto, em especial as mulheres.

Podemos dizer então que os ossos são como um caminhão de areia - é preciso enchê-lo bastante no começo do percurso porque o material será descarregado aos poucos até o final da viagem?
Exatamente. Se a pessoa não fizer isso direito e na hora certa, a carga acaba antes. É a osteoporose.

A infância e a adolescência são, então, cruciais para os ossos?
Sem a menor dúvida. Dos 10 aos 18 anos é o período em que se ganha osso com maior velocidade. Ao redor dos 20 a 25, atinge-se o patamar máximo. Nessas fases, os ladrões podem impedir o caminhão de alcançar a carga ideal, arriscando o futuro ósseo. Da maturidade até a velhice, podem esvaziá-lo mais cedo.

De que forma a doença de Crohn e a colite ulcerativa podem favorecer a osteoporose?
Antes de mais nada, é preciso que fique bem claro que esse risco não é exclusividade da doença de Crohn e da colite ulcerativa. Inúmeras moléstias estão associadas à osteoporose. Diabetes, asma, insuficiência renal, certos problemas pulmonares, artrite reumatóide, lupus eritemoso, câncer e aids estão na lista de ladrões de ossos.

Como o Crohn e a colite podem roubar ossos?
Vários fatores parecem contribuir, a começar pelas próprias doenças. A reação inflamatória provocada no intestino libera na circulação várias substâncias chamadas citoquinas. Há indícios de que tenham ação direta nos ossos, aumentando a perda óssea. Isso foi observado mesmo em pacientes que não usaram corticosteróides.

Que outro fator pode contribuir?
A deficiência de cálcio e de vitamina D, ambos vitais para a formação do osso. O cálcio é um mineral e vem basicamente do leite, queijo e iogurte, e sem essas fontes é difícil atingir as doses recomendadas. A vitamina D é encontrada em óleos de peixe, como atum e salmão, mas é principalmente sintetizada no organismo pela pele com ajuda da exposição ao sol.

De que forma a deficiência de cálcio e vitamina D interfere?
O osso é basicamente "cartilagem", como a orelha e o nariz. O cálcio é que lhe dá sustentação - ele é depositado nesse tecido, que aí endurece e fica resistente. Isso acontece graça à ação da vitamina D, secretada na bile. É a vitamina D que faz com que o cálcio seja absorvido (principalmente no duodeno) e se deposite no esqueleto. Assim, por ingestão inadequada de cálcio (por exemplo, pacientes que têm concomitantemente intolerância a leite e derivados) ou por má absorção de nutrientes (entre os quais a vitamina D), portadores de Crohn e colite acabam tendo mais risco de osteoporose.

Quando pode ocorrer a deficiência de vitamina D?
Especialmente nas fases de crise. A vitamina D é secretada pela bile e depois absorvida no intestino delgado junto com as gorduras. Nas crises, porém, o intestino não absorve as gorduras. Conseqüentemente, deixa de absorver também os nutrientes ligados a elas. Entre eles, a vitamina D.

Entre os medicamentos para tratar Crohn e colite estão os corticosteróides e os imunossupressores, como a ciclosporina. Eles também roubam osso, certo?
Usados por tempo prolongado, sim. No caso do corticosteróide prednisona, por exemplo, considera-se prolongado o uso de 7,5 mg diários por mais de seis meses.

Como os corticosteróides e os imunossupressores atuam nos ossos?
Ambos agem nas duas pontas: diminuem a regeneração do osso e aumentam a perda óssea. Portanto, pioram o osso mesmo. E isso, com freqüência, leva a fraturas.

Isso significa que quando se usa corticosteróides ou imunossupressores por vários meses é preciso pensar também na osteoporose?
Sempre. É obrigatório.

Há outros ladrões de ossos?
Vários. Por exemplo, imobilização por acidente, cirurgia ou outra razão qualquer. Ao ficar imóvel, o organismo entende que não precisa de muito osso e de músculo para manter a estrutura do corpo. Vai, então, atrofiando, jogando cálcio fora. Não é à toa que o sedentarismo é um superinimigo. É ruim para o osso de qualquer pessoa e em qualquer fase da vida. Fumo é outro ladrão. Trabalhos sugerem que o fumo tem ação tóxica sobre os osteoblastos (células formadoras de osso), acelerando o metabolismo ósseo. Alimentos embutidos, enlatados e refrigerantes à base de cola, como Coca-Cola e Pepsi-Cola, em excesso podem ser prejudiciais. São muito ricos em fosfato, que não deixa o cálcio ser absorvido.

É possível prevenir a osteoporose nos portadores de Crohn e colite?
Claro que sim. A receita é obter e manter ossos fortes, da infância à terceira idade, neutralizando o máximo possível a ação desses ladrões de esqueletos.

E quais são os ingredientes dessa receita preventiva?
Ainda não existe uma proposta específica de prevenção da osteoporose para os portadores de Crohn e colite ulcerativa. Porém, tomando por base outras doenças crônicas, recomenda-se:
1. Usar corticosteróides e imunossupressores na menor dose possível e pelo menor tempo possível, sempre segundo critério médico.
2. Fazer alguma atividade física regularmente, pois isso estimula a formação óssea e a musculatura.
3. Procurar ter uma alimentação balanceada e saudável, incluindo a ingestão adequada de cálcio (veja tabela).
4. Quem tem intolerância ou não gosta de leite e derivados, tem que repor cálcio nas doses preconizadas (veja a tabela). A reposição de cálcio é fundamental também quando o Crohn ou a colite estão em atividade ou durante o uso de corticosteróides ou imunossupressores. A vitamina D também pode ser reposta.

E como o portador de Crohn ou de colite pode saber se está tendo aporte adequado de cálcio e vitamina D?
Pelo grau de atividade da doença, por exemplo. Sempre que estiver tendo muita diarréia é provável que não esteja absorvendo direito esses nutrientes. Nessa fase, então, é importante repor de alguma forma o cálcio e a vitamina D. A suplementação é feita com tabletes ou comprimidos.

O que mais?
Fazer uma densitometria óssea, independentemente da idade, é sempre bom. Esse exame mostra se a pessoa está perdendo ou conseguindo manter a massa óssea. Pode-se cercar ainda a prevenção com outros exames, como a dosagem de vitamina D no sangue e de cálcio na urina de 24 horas.

Com que freqüência a senhora recomenda esses exames?
Se o Crohn ou a colite ulcerativa estiver sob controle, a cada seis meses é suficiente. Se não estiver, o ideal é que sejam feitos com maior freqüência. E caso a osteoporose se instale, é preciso iniciar um tratamento com medicação específica.

As medidas preventivas valem também para crianças e adolescentes com Crohn ou colite ulcerativa?
Seguramente sim. Acompanhando o raciocínio de asma, diabetes, insuficiência renal e outras doenças crônicas que acontecem nessa faixa etária, é bem provável que o Crohn e a colite prejudiquem a aquisição do pico de massa óssea, deixando essas crianças e adolescentes mais sujeitos à osteoporose no futuro. Por isso, monitorizar a perda óssea e repor o cálcio são coisas fundamentais para a prevenção da osteoporose.

Em se tratando de osteoporose o melhor caminho, então, é investir na prevenção?
Sempre. Da infância à velhice, independentemente de se ter ou não Crohn ou colite ulcerativa.


O cálcio de cada dia
O cálcio que consumimos vem basicamente do leite, do queijo e do iogurte, e sem essas fontes é difícil atingir as doses recomendadas, avisa a nutricionista Celeste Elvira Viggiano, da Salute Consultoria Nutricional, de São Paulo. Confira as necessidades diárias de cada faixa etária e a quantidade de cálcio presente nas principais fontes do mineral.
Faixa etária mg
Até 6 meses de idade 360
De 6 meses a 1 ano 540
De 1 ano a 10 anos 800
De 10 a 18 anos 1.200
Acima de 18 anos 800
Acima de 50 anos 1.200
Grávidas ou amamentando 1.200
Fontes preciosas
Leite, queijos e iogurtes integrais têm quase o mesmo teor de cálcio que os light. Manteiga e creme de leite não são boas fontes, pois contêm altos teores de gordura e pouco cálcio.

Alimentos Cálcio (mg)
1 copo de leite desnatado 248
1 copo de leite integral 246
1 copo de iogurte desnatado 240
1 copo de iogurte integral 240
1 fatia média de queijo fresco* 205
1 fatia média de queijo-de-minas semicurado* 190
1 fatia média de queijo prato* 126
1 fatia média de gorgonzola* 129
1 fatia média de queijo fundido* 171
1 colher (sopa) de requeijão integral 47
1 colher (sopa) de queijo parmesão ralado 80
· Equivalente a 30 gramas/Fonte: Celeste Elvira Viggiano, Salute Consultoria Nutricional (SP)

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