A
dama de ferro
O
que tem a dizer uma das médicas mais respeitadas
do Brasil sobre cirurgia em casos de Crohn e Colite
Ninguém
sente prazer em passar por uma cirurgia. Mas, se ela é
mesmo necessária, pode-se dizer que ser operado
pela doutora Angelita Habr-Gama é um privilégio.
Ela é ótima no que faz, decidida, dedicada,
segura e, o que é mais importante, dificilmente
erra. Para o paciente, que além de ser leigo fica
entregue ao cirurgião, poucas coisas dão
mais tranqüilidade do que saber que está em
mãos competentes. Não faça, no entanto,
a bobagem de confundir a delicadeza da doutora Angelita
com falta de firmeza. Quem desobedece a uma ordem dela
nunca mais se esquece do que ouve em seguida. Ela é
elegantíssima, mas não tem papas na língua.
Respeitada pela maioria dos seus colegas por sua capacidade
profissional, a doutora Angelita vem colecionando, ao
longo dos seus 42 anos de xperiência prática,
os mais diversos títulos. Os mais recentes de seu
currículo são:
> Professora titular do Departamento de Gastroenterologia
da Faculdade de Medicina da USP, desde 1998
> Chefe do Departamento de Gastroenterologia da FMUSP,
desde 1997
> Chefe da Disciplina de Coloproctolgia da Faculdade
de Medicina da USP, desde 1995
Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, a doutora
Angelita é casada ( por opção, nunca
teve filhos). Apesar de morar em frente ao Clube Pinheiros,
em São Paulo, não consegue aproveitá-lo-
ela se dedica em tempo integral aos seus pacientes. No
começo de fevereiro, abriu um espaço em
sua agenda para dar a ABCD Em Foco a seguinte entrevista:
A
senhora opera muitos pacientes portadores de Doença
de Crohn e de Colite Ulcerativa? Qual a porcentagem dos
seus pacientes que têm essas doenças?
Sim, eu opero muitos pacientes com Doença de Crohn
e Retocolite Ulcerativa. Eles correspondem a cerca de
10% de todas as cirurgias que faço.
Em
que casos é aconselhada a intervenção
cirúrgica em pacientes com Doença de Crohn?
E com Colite?
Em caráter eletivo, o tratamento cirúrgico
na Doença de Crohn é indicado para solucionar
complicações como estenoses, fístulas,
lesões anoperineais ou intratabilidade clínica.
Na Retocolite Ulcerativa, a cirurgia é indicada
principalmente na falta de resposta ao tratamento medicamentoso
(persistência da diarréia, do sangramento,
do comprometimento das condições gerais,
retardo do crescimento, gravidade das manifestações
extra-intestinais). O tratamento de urgência é
imperativo, em ambas as doenças, nos quadros agudos
fulminantes com megacólon tóxico, perfuração
ou hemorragia persistente
Quais
os tratamentos que a senhora indica para os casos de Crohn
e Colite que não requerem cirurgia?
Para a Doença de Crohn o tratamento medicamentoso
é geralmente iniciado com corticóide (prednisona
e metilprednisona). Sua ação é mais
eficaz quando a doença é de intestino delgado.
Quando a atividade da doença diminui, o tratamento
é gradualmente interrompido. Mais recentemente,
quando disponível ou possível, passamos
a prescrever a budesonida, que tem se mostrado tão
eficaz quanto a prednisona, porém com efeitos colaterais
bem reduzidos. Para as formas mais moderadas da Doença
de Crohn do íleo terminal, ou do cólon,
bem como para a manutenção dos períodos
de remissão da doença, principalmente após
cirurgia, temos indicado o uso da mesalamina.
Para as formas graves ou refratárias das doenças
inflamatórias, é importante a associação
de imunossupressores, como azatioprina, 6-mercaptopurina
ou, eventualmente, ciclosporina. Para as formas anoreto-perineias,
o uso do metronidazol ou da ciprofloxacina tem sido eficaz.
Para a Retocolite Ulcerativa, o medicamento mais empregado
continua sendo a sulfasalazina; essa droga, entretanto,
pode ser substituída, com vantagens, pela mesalamina,
que apresenta menor incidência de efeitos colaterais.
Como
está o Brasil em termos de recursos em relação
ao tratamento dessas doenças?
Os medicamentos mais modernos estão disponíveis
no Brasil. Entretanto, custam muito caro, e por isso ainda
é pequena a parcela de doentes que podem usufruir
as vantagens do seu uso.
Os
médicos brasileiros estão familiarizados
com a Doença de Crohn e a Colite Ulcerativa? Estão
capacitados para tratá-la?
Atualmente os nossos médicos já estão
mais familiarizados com essas doenças. Boa parte
deles está, sim, capacitada para tratá-las.
É
comum no Brasil que pacientes tenham diagnóstico
errado dessas doenças? Por que isso acontece?
As formas iniciais das doenças inflamatórias,
principalmente a Doença de Crohn, podem Ter início
insidioso. A variedade das manifestações
possíveis (por exemplo, apenas uma fissura ou uma
fístula anal, surtos periódicos de diarréia,
etc) pode retardar o diagnóstico. Entretanto, com
a divulgação do conhecimento, os médicos
estão cada vez mais informados e aptos ao diagnóstico
precoce dessas doenças.
Existe
no Brasil algum centro especializado em Doença
de Crohn e Colite Ulcerativa?
No Brasil há vários centros especializados
no atendimento de portadores de doenças inflamatórias
dos intestinos, tanto nos hospitais universitários
como em institutos de gastroenterologia ou de coloproctologia.
Imagina-se
que a colectomia total seja sempre o último recurso.
Em que casos a senhora opta pela colectomia total? E pela
parcial? Os portadores de Doença de Crohn e de
Colite Ulcerativa correm o risco de Ter que fazer isso?
A colectomia total, com anastomose íleo-anal e
bolsa ileal, é uma técnica moderna de tratamento
cirúrgico para a Retocolite Ulcerativa. É
uma operação que tem resultados satisfatórios,
devendo ser indicada como boa alternativa para as formas
refratárias ao tratamento clínico. Confere
melhor qualidade de vida aos doentes. Na Doença
de Crohn, a colectomia, parcial ou total, tem indicação
mais rara, pois os riscos de recidiva da doença
pós-cirurgia são altos. Com frequência,
quando a doença acomete o intestino grosso, o tratamento
cirúrgico requer a realização de
ileostomia de caráter definitivo. Entretanto, apesar
do inconveniente da derivação intestinal,
essa cirurgia, quando bem indicada e bem realizada, confere
ao doente vantagens sobre o tratamento clínico
prolongado e dispendioso quando este se torna ineficaz.
Como
a senhora vê a criação da ABCD?
Acho uma ótima iniciativa. Oferece aos doentes
a oportunidade de Ter informações corretas
sobre a natureza e o curso de sua doença e sobre
como viver com doença crônica, de tratamento
prolongado, que requer exames repetidos, intervenção
e conseqüentes alterações na qualidade
de vida.