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A
caminho da cura do
Crohn e da Colite Ulcerativa
Um médico belga superespecialista
em DII diz que gradualmente a origem da doença está
sendo descoberta, e isto poderá levar à sua cura
Dr. Gert Van Assche
O
Dr. Gert Van Assche, professor de Medicina da Universidade de
Leuven, na Bélgica, tem um currículo extenso: depois
de passagens por Belfast, no Reino Unido, e por Paris, na França,
fez parte da sua pós-graduação no programa
realizado no Canadá, na Universidade McMaster, sob supervisão
do professor Stephen Collins, no departamento de pesquisas de
doenças intestinais. Recebeu o grau de doutor em medicina,
em 1998, com um trabalho de tese sobre receptores de peptídeos
gastrintestinais e sua importância na inflamação.
Em 2000, após aprovação em todos os exames
para especialistas, entrou para o grupo de gastroenterologia do
Hospital Universitário de Leuven. Seu foco principal, em
clínica e pesquisa, é a doença inflamatória
intestinal, onde trabalha com o professor Paul Rutgeerts, uma
das maiores autoridades do assunto no mundo. É também
revisor de vários jornais médicos internacionais,
secretário da Associação Flemish de Gastroenterologia
e conselheiro da secção de Imunologia e Microbiologia
em Doença Inflamatória Intestinal da Associação
Americana de Gastroenterologia(AGA).
O ocupado médico, que hoje está envolvido em numerosas
pesquisas com novos agentes biológicos e moléculas
pequenas para o tratamento de doença de Crohn e colite
ulcerativa, mora numa zona rural próxima à cidade
de Leuven com sua mulher Karen, que é engenheira civil,
e os três filhos do casal (duas meninas e um menino), todos
em idade pré-escolar. Com este background, que a princípio
pode sugerir o perfil de uma pessoa extremamente séria
e sisuda, o Dr. Assche é, ao contrário, uma pessoa
alegre e comunicativa. Entre um trabalho e outro, ele conseguiu
tempo para responder a algumas perguntas para a ABCD em Foco.
Leia a seguir:
•
Na sua opinião, quais são
os fatores responsáveis pela demora no diagnóstico
da Doença Inflamatória Intestinal?
Apesar
de nas últimas décadas as Doenças Inflamatórias
Intestinais (DII) terem estado relativamente presentes tanto nos
EUA quanto na Europa Ocidental, vários fatores acarretam
a demora de um diagnóstico firme em muitos pacientes. São
eles: Primeiro, os sintomas iniciais das DII são freqüentemente
inespecíficos. Perda de peso, artralgia, dor abdominal
e até diarréia são ocorrências comuns
na vida humana. Segundo, os pacientes podem se sentir envergonhados
para falar sobre evacuações. Terceiro, a Síndrome
do Intestino Irritável e a perda de sangue por hemorróidas
ainda são mais comuns que a DII e acabam sendo responsabilizadas
pelos sintomas como um diagnóstico plausível, ao
invés do Crohn e da colite ulcerativa.
Saindo dos Estados Unidos e da Europa Ocidental e indo para partes
do mundo onde doenças infecciosas intestinais são
muito mais comuns, a gastroenterocolite aguda e as doenças
parasitárias acabam por dificultar o diagnóstico,
principalmente quando o paciente procura o clínico geral.
O atraso no diagnóstico de DII num adulto, sem complicação
da doença, resulta apenas em frustração -
mas na criança pode prejudicar o desenvolvimento, algumas
vezes de forma irreversível. Um aumento da conscientização
na comunidade médica em geral (clínicos, gastroenterologistas,
pediatras, cirurgiões, etc.) sobre o Crohn e a colite ulcerativa
pode diminuir a resistência à colonoscopia e favorecer
o diagnóstico. Além disso, organizações
como a ABCD podem alertar a população sobre a DII.
•
O número de casos de DII está
aumentando na Europa?
A
incidência e prevalência da DII na Europa são
geograficamente distribuídas. Na Europa Ocidental (Escandinávia,
Reino Unido, Países Baixos e Alemanha) tem havido um aumento
de incidência da doença de Crohn, enquanto os casos
de colite ulcerativa permanecem estáveis nos últimos
20 anos. Mesmo que exista uma maior conscientização
médica que possa ter contribuído maior incidência
de Crohn, parece haver um aumento real dos casos. Nos últimos
anos, a incidência do Crohn tem se estabilizado nos países
do Norte, mas a mesma evolução pode ser verificada
atualmente no Sul da Europa, como Grécia e Portugal. A
razão exata para estas mudanças ainda não
é clara, mas alterações de hábitos
dietéticos e conservantes alimentares são fatores
prováveis.
•
E a incidência de DII ao redor do
mundo?
A
incidência da doença de Crohn tem aumentado primeiramente
em países como Austrália e África do Sul,
mas evolução similar vem ocorrendo na América
Latina e países do Centro-Oeste Europeu. As razões
exatas para este quadro de mudanças na incidência
da DII são obscuras, mas parece que os fatores ambientais
têm grande responsabilidade, maior até que as influências
genéticas. Nos países de clima tropical, a DII tem
aparecido com maior freqüência em áreas urbanas,
o que reforça a idéia de mudanças do estilo
de vida como fator predisponente para a patogênese destas
doenças.
•
O senhor vê alguma relação
entre “junk food” e DII?
Apesar
de a ingestão de alimentos ricos em açúcar
na infância ter sido relacionada hipoteticamente com a patogênese
da doença de Crohn, uma associação direta
entre fast food e o surgimento de uma DII nunca foi demonstrada.
Mesmo que não se possa excluir completamente uma relação
causal, parece que a introdução deste tipo de alimento
nos hábitos da população é uma indicação
da mudança do estilo de vida e dos hábitos de higiene
e alimentação.
•
Como o senhor aconselha os pacientes sobre
o uso de medicamentos fortes por períodos prolongados?
Para
a maioria dos tratamentos de longo prazo para a doença
de Crohn, há um preço a pagar pela sua eficácia.
Os efeitos colaterais são uma realidade e os pacientes
devem ser convencidos de que estes tratamentos trarão benefícios.
Pacientes com sintomas debilitantes ou com complicações
da doença, freqüentemente apresentam melhora marcante
na sua qualidade de vida e a manutenção do tratamento
médico é aceito de forma fácil. Para aqueles
com crises esporádicas de colite ulcerativa ou com doença
de Crohn ileal, com pouca atividade inflamatória, é
mais difícil ver vantagens em tomar várias pílulas
diárias por décadas. Mesmo que a medicina baseada
em evidências possa determinar todas as nossas decisões,
os pacientes precisam de argumentos mais personalizados para serem
convencidos do benefício do tratamento de longo prazo.
A prevenção de ressecções intestinais,
a cicatrização de fístulas e a boa qualidade
de vida no trabalho e na família são os pontos de
maior relevância para os pacientes.
•
As pesquisas que estão sendo realizadas
atualmente poderão trazer novas e eficazes drogas terapêuticas?
Na
era atual de medicina baseada em evidência as pesquisas
são necessárias para dar suporte à indicação
de uma nova droga e mostrar que sua toxicidade tem perfil tolerável.
Estudos controlados, randomizados, têm possibilitado aos
médicos cuidar de portadores de DII com drogas poderosas,
como o anticorpo anti-TNF, o Infliximabe. Este composto também
tem mostrado eficácia no tratamento de alguns casos de
colite ulcerativa refratária. Mesmo que o advento de agentes
biológicos tenha revolucionado o tratamento da DII refratária,
ensaios clínicos serão necessários no futuro,
para desenvolver pequenas moléculas com boa eficácia
e simples administração por via oral. O desenvolvimento
de drogas é sempre uma aventura arriscada. A eficácia
não é o único critério para o sucesso
de um novo composto. A toxicidade inesperada pode interceptar
sua liberação no arsenal terapêutico. O Natalizumabe
(Tysabri), um inibidor seletivo de adesão molecular, pareceu
ser eficaz na doença de Crohn, mas três casos de
uma rara e potencialmente letal alteração cerebral
frearam o seu prosseguimento.
•
Como lidar com o estresse emocional e a
depressão em pacientes de DII?
Na
metade do último século, quando a percepção
das DIIs como um problema clínico foram descobertas, estas
doenças crônicas foram classificadas como desordens
psiquiátricas. A evolução de nosso conhecimento
sobre o sistema imune mostrou que um distúrbio imunológico
de base tem envolvimento na patogênese, mas o estresse e
distúrbios emocionais ainda são considerados responsáveis
por numerosas crises de atividade da colite ulcerativa. Por outro
lado, assim como em qualquer outra doença crônica,
as DIIs por si só podem levar a distúrbios emocionais
e mesmo à depressão secundária.
É missão do médico dar suporte ao paciente,
oferecendo alguma solução para seus problemas individuais.
A melhoria da qualidade de vida deve sempre ser o objetivo primordial
do tratamento. Se houverem mudanças severas do humor e
sinais de depressão evidentes, os pacientes devem ser encaminhados
a um aconselhamento psiquiátrico para serem avaliados e
ficar esclarecido se são exclusivamente relacionadas com
o fato de conviverem com uma doença crônica. Grupos
de auto-ajuda têm um papel importante ao oferecerem informação
correta sobre a DII e sugerirem estratégias de melhor convívio
para o estresse emocional. Isto se torna ainda mais importante
para os adolescentes, que têm que lidar com sua doença
no momento em que sua vida sofre as revolucionárias mudanças
acarretadas pela puberdade.
•
O transplante de células-tronco poderá
ajudar os pacientes de DII?
Alguns
pacientes com doença de Crohn e colite ulcerativa ainda
não respondem a qualquer tratamento existente, mesmo os
biológicos mais avançados. Portanto, as opções
terapêuticas oferecidas para estes casos têm sido
cada vez mais invasivas. Relatos recentes de ablação
da medula óssea e transplante autólogo de medula
óssea em pacientes com doença de Crohn, levantaram
a discussão do quão longe devemos ir para tentar
erradicar a doença. Partindo do princípio de que
a base do mecanismo patogênico da DII parece ser a perda
da tolerância à microflora residente, soa lógico
olhar para uma população de células-tronco
que possa maturar-se em células dendríticas, que
não mais disparariam o gatilho da resposta imune contra
estas proteínas bacterianas. Entretanto, devemos perceber
que o conhecimento que temos da população de células-tronco
no intestino é muito preliminar e anos de pesquisa serão
necessários para que esta terapêutica seja ofertada
aos doentes refratários.
•
Conseguiremos alcançar a cura da
DIIs e teremos capacidade de prevenir estas doenças?
Enquanto
não conhecermos o gatilho envolvido na perda da tolerância
do sistema imune que resulta numa reação inflamatória
descontrolada, não poderemos curar a doença de Crohn
ou a colite ulcerativa. Entretanto, estamos descobrindo, gradualmente,
os mecanismos básicos da origem da doença e isto
poderá nos levar a promover a cura das DIIs. Se conseguirmos
identificar porque o sistema imune perde sua tolerância
às bactérias da flora intestinal residente, e se
conseguirmos restabelecer esta tolerância permanentemente,
as DIIs estarão, a meu ver, curadas. Quando tivermos estes
conhecimentos estaremos aptos a prevenir a doença em indivíduos
suscetíveis. No momento, todas as terapias médicas
e cirúrgicas têm como objetivo final a indução
de uma remissão de longo prazo com boa qualidade de vida.
A única cura que podemos oferecer é a colectomia
total com anastomose íleo-anal, em casos de colite ulcerativa.
Entretanto, em razão de a anastomose com bolsa íleo-anal
poder levar a certos inconvenientes a longo prazo, que podem interferir
com a qualidade de vida em alguns pacientes, as alternativas de
tratamento clínico sempre devem ser consideradas inicialmente
desde que não haja risco de toxicidade severa para os pacientes.
•
Qual o seu conselho para as pessoas que
têm DII?
As
doenças inflamatórias intestinais (DII) são
crônicas, recidivantes, com sintomas que podem debilitar,
embora nem sempre estes sintomas sejam respeitados pelas outras
pessoas. Os pacientes devem saber que todos os dias milhares de
pesquisadores e profissionais da área da saúde estão
batalhando para melhorar o seu cuidado. Desde o trabalho básico
de sustentação no laboratório até
o desenvolvimento clínico da droga e times de suporte ao
paciente, nenhum esforço é poupado para encontrar
soluções seguras e eficazes. Neste meio tempo, eu
encorajaria cada paciente a manter uma atitude positiva frente
a sua doença e a viver uma vida o mais normal possível.
Fazendo isto, eles serão modelos para aqueles recém
diagnosticados, que estão confusos por uma série
de questões que afloram suas cabeças, a respeito
do seu futuro. Finalmente, ter informações é
a chave, e pacientes devem estar cientes de que os médicos
estarão sempre ao seu lado para responder às suas
questões. A boa relação médico-paciente
tem provado ser um prenúncio de uma melhor evolução
para os pacientes com doença inflamatória intestinal.
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