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A espera de um milagre
Sim, as células-tronco também podem melhorar a vida de
quem tem Crohn ou Colite. Já há casos que sinalizam um bom resultado

» Por Valquíria Sganzerla

É fácil imaginar que o portador de uma doença crônica esteja entusiasmado com as notícias sobre células-tronco que têm ocupado espaço na imprensa nos últimos meses. “É aprovada a Lei de Biossegurança autorizando a utilização de embriões humanos para pesquisas com células-tronco”, foi a chamada publicada nos jornais brasileiros no último dia 2 de março. “Cegos recuperam a visão com células-tronco”, outra notícia sobre este procedimento usado com sucesso na Inglaterra em sete pacientes. E ainda, “Células-tronco deve evitar amputação”, a respeito de um morador de Campo Grande, no Mato Grosso, que sofreu uma trombose e fez um transplante de células-tronco num hospital em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, para tentar evitar que os médicos lhe tirassem parte da perna, na altura do joelho.

As novidades não param por aí. Praticamente todos os dias se lê ou se ouve uma nova informação sobre essa conquista científica e é difícil para qualquer pessoa ficar indiferente ao que está acontecendo. O termo “células-tronco”, que pouco tempo atrás (menos de três anos) era puramente científico, parece que hoje já se tornou familiar à maioria das pessoas. É verdade que explicar o que são as células-tronco e para que servem, é uma outra história (veja Box). Para entender o seu significado e digerir completamente o assunto, é preciso dispor de um tempo maior do que a leitura do jornal. Mas, pode-se arriscar que os pacientes de doenças auto-imunes, como as inflamatórias intestinais, estão prontos e preparados para advogar em causa própria. Eles podem não saber exatamente qual procedimento seria feito no seu caso, mas que eles querem ser os primeiros da fila para se livrar do fardo de ter uma doença crônica, ah!, isso a grande maioria deles quer, com toda a certeza.

Porém, a pergunta que está no ar é: vai ser possível um paciente se curar de uma doença crônica fazendo um transplante com células-tronco? “A descoberta de células do organismo humano com capacidade de se multiplicar e de formar novas células especializadas tem causado uma revolução na medicina e trazido novas esperanças para portadores de doenças crônico-degenerativas para as quais não se dispõe de terapias eficazes” diz o Dr. Ricardo Ribeiro dos Santos, médico e imunologista, pesquisador titular do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), na Bahia, e Coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual (IMBT). Este Instituto, que é virtual e foi financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, tem como objetivo o estabelecimento no Brasil de capacitação científica e tecnológica para introduzir e desenvolver a medicina regenerativa, que visa o tratamento de pacientes com doenças crônico-degenerativas e traumáticas através de terapias celulares ou teciduais. Resumindo, trata-se de um Instituto que integra todas as pesquisas com células-tronco. “Já temos feito grupos de pacientes com doenças auto-imunes de alta agressão, como diabetes tipo 1, esclerose múltipla e lupus, cujo organismo começa a criar uma resposta imunológica contra suas próprias substâncias”, explica o Dr. Ricardo.

Essa auto-agressão também vale para os pacientes que têm Crohn ou colite ulcerativa? Eles também poderão fazer um transplante com células-tronco? Há médicos apostando que sim, pelo menos no caso dos portadores da doença de Crohn. No Departamento de Medicina da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, foi realizado um estudo envolvendo 12 pacientes de Crohn, com menos de 60 anos, que já não respondiam ao tratamento convencional da doença, incluindo o uso do Infliximabe (o Remicade). O grupo fez o transplante com células-tronco e 11 pacientes tiveram remissão dos sintomas por 18 meses (a notícia informando este prazo foi publicada na edição de março deste ano, da revista Gastroenterology). Somente um deles entrou numa nova crise do Crohn e, mesmo assim, um ano e três meses depois de ter feito o transplante. “A maior experiência que tem no mundo envolvendo pacientes com Crohn é a desse grupo americano de médicos”, diz o Prof. Dr. Júlio Cesar Voltarelli, do Hemocentro Regional e Unida de de Transplante de Medula Óssea da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que já está fazendo uso de células-tronco em pacientes com doenças reumáticas, esclerose múltipla e diabetes tipo I. “Nós também temos planos de fazer com pacientes com Crohn, mas ainda não fizemos”, diz o Dr. Voltarelli.

Tanto no método utilizado nos Estados Unidos quanto nos procedimentos que já foram realizados no Brasil, o transplante de células-tronco se inicia com a retirada da medula do paciente, de onde também são retiradas as células que são auto-reativas. Há anticorpos específicos para acabar com as células que só trazem prejuízo ao organismo, os linfócitos. Sendo assim, ficam somente as células-tronco precursoras de sangue que são congeladas e guardadas. Em seguida, é feita uma imunossupressão no paciente, em que ele passa por uma fase de transgressão com imunodeficiência. “É como se costuma fazer com um computador que tem uma pane e o usuário dá um “boot” no aparelho que depois, volta a funcionar. Para eu reparar este paciente, eu preciso dar uma parada na máquina”, explica o Dr. Ribeiro, da FioCruz. Depois de uma semana, as células que foram congeladas são colocadas de volta no organismo. “O objetivo é a restauração do sistema imunológico do doente”, complementa o Dr. Ribeiro. O médico também explica que, em geral, a imunossupressão é feita em pacientes que não respondem ao tratamento convencional e estão num estágio bem adiantado da sua doença. De qualquer forma, eles precisam dar o seu consentimento para este tratamento que, se por um lado, pode trazer alguma melhora no estado físico do paciente, por outro lado, também tem riscos de infecção, devido à baixa resistência a que fica submetido o organismo.

“A terapia celular com células-tronco representa um grande avanço nas técnicas existentes hoje de transplante de órgãos. Se as pesquisas derem os resultados esperados, deverá ser possível no futuro fabricar tecidos e órgãos, o que significará o fim das longas filas de transplante de órgãos”, comemora a Dra. Mayana Zatz, professora titular de Genética e Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “A esperança é que inúmeras doenças, entre elas as neuromusculares, o diabetes, o mal de Parkinson e as lesões da medula óssea possam ser tratadas pela substituição ou correção de células”, diz a Dra. Mayana. Somente as doenças genéticas ainda são um capítulo à parte nesta terapêutica experimental. É que, nestes casos, o defeito, se é que se pode chamar assim, está presente em todas as células do organismo e, portanto, seria inviável fazer um auto-transplante de células. “Para esses mais de 5 milhões de brasileiros, que têm uma doença genética, somente o uso de células-tronco embrionárias poderia ajudar”, diz a Dra. Mayana, que teve forte participação na campanha para aprovação da Lei de Biossegurança aprovada pela Câmara Federal, em março deste ano, autorizando o uso de células embrionárias em pesquisas.

Sobre a polêmica que este assunto tem causado, a geneticista da USP dá sua opinião: “Alguns grupos religiosos afirmam que usar células-tronco de embriões congelados equivale a um aborto, o que não é verdade. No aborto provocado, a vida de um feto é interrompida dentro do útero da mãe, enquanto que no caso dos embriões congelados, produzidos por reprodução assistida, o embrião é feito em um tubo de ensaio nas clínicas de fertilização. Lá o potencial de vida não existe enquanto não houver a introdução do embrião dentro do útero.” O Dr. Ricardo, da Fiocruz, da Bahia, acrescenta que o uso de células-tronco de origem embrionária em terapias de doenças crônico-degenerativas tem sido mundialmente debatido. A aceitação ou reprovação da utilização destas células depende de vários fatores, como as leis de cada país e as religiões da população. “O momento em que um embrião é reconhecido como um ser vivo varia de acordo com cada religião. Em alguns países onde o aborto é permitido, como a Suécia e a Suíça, vários pacientes com mal de Parkinson se beneficiaram desta terapia. Células embrionárias obtidas de fetos abortados foram injetadas no cérebro destes pacientes, causando uma melhora significativa da doença. Entretanto, esta mesma metodologia não trouxe até o momento nenhum benefício para pacientes com mal de Alzheimer”, diz o médico.

Uma possível fonte para a obtenção de células-tronco embrionárias são os embriões não utilizados em clínicas de fertilizações. “Antes de começarmos os testes clínicos injetando células-tronco embrionárias nos seres humanos, tem os algumas questões fundamentais que devem ser resolvidas”, chama atenção a professora Lygia da Veiga Pereira, chefe do Laboratório de Genética Molecular do Departamento de Biologia, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Desde a década de 1980 se faz pesquisas com células-tronco embrionárias em camundongos. Parece, porém, que a ciência ainda não conhece inteiramente as propriedades das células-tronco embrionárias usadas em seres humanos, tanto em relação à sua capacidade regenerativa de tecidos lesados, quanto ao seu potencial em gerar tumores a partir da diferenciação destas células em tipos celulares indesejados”. Uma outra questão importantíssima diz respeito à compatibilidade entre as células-tronco embrionárias e o paciente. Em qualquer transplante é necessário existir uma compatibilidade entre o doador e o receptor do órgão para que não haja rejeição. O mesmo deve acontecer com um transplante de células-tronco embrionárias. Como garantir que teremos células-tronco embrionárias compatíveis com todos os pacientes? “Uma forma seria criar um banco dessas células, cada uma derivada de um embrião diferente, e torcer para encontrar uma compatível com o paciente”, explica a Dra. Lygia (veja Box). É verdade que as pesquisas estão muito no começo. Os cientistas e os profissionais da saúde estão se esforçando e já sabem muito sobre o assunto das células-tronco, mas ainda faltam informações para eles terminarem de montar o quebra-cabeça para trabalhar de forma tranqüila e segura. Eles ainda não dominam a técnica totalmente, ou seja, precisam saber mais, muito mais. Mas pelo jeito falta pouco... Aos pacientes, seja de que patologias forem, só resta torcer muito para tudo acabar bem.