Minha História

Como é crescer com o Crohn
Conheça a história de Thereza, que tem Crohn desde bebê
Thereza Priscila: feliz, longe dos preconceitos

Ela é tão doce, divertida e expansiva que nem parece uma jovem de 12 anos de idade. Em geral, nessa fase os adolescentes não costumam falar muito com adultos, menos ainda com adultos estranhos. Com Thereza Priscila, que mora na cidadezinha de Crato, no interior do Ceará, e que no dia 1º de novembro fará 13 anos, não é assim. Simpática e educada, ela conta com tanta serenidade a sua história como paciente de Crohn, que é difícil acreditar que é verdade. Mas o que mais surpreende é que ela teria todos os motivos para ser uma jovenzinha revoltada e agressiva, dessas que não quer papo com ninguém. Ela pode até parecer infantil demais para uma garota da sua idade, pois não tem namorado nem se interessa por computador, MSN ou hotmail. Mas diante do que já passou, essas coisas não fazem mesmo nenhuma diferença. O leitor já vai compreender por que.

Thereza nasceu prematura, no 8º mês de gestação. Seus pais, em vez de se assustarem, ficaram felizes, pois não viam a hora de estar com a filha nos braços. É que dois anos antes eles haviam perdido o primeiro filho, com apenas dois meses de vida. O susto mesmo veio depois do nascimento, quando ela estava com quase cinco meses de vida. “Ela perdia muito sangue pelas fezes e tinha muitas cólicas”, conta sua mãe, Antonia Rejane. “Quando ela estava com um ano e nove meses, eu a levei a um gastro em São Paulo, que fez uma colonoscopia e diagnosticou doença de Crohn, já muito avançada”. Se Rejane não entendeu muito bem o que o médico quis dizer sobre este diagnóstico, o qual sequer conhecia ou tinha ouvido falar, ela tampouco pensou que coisas muito ruins pudessem acontecer à filha. O Crohn de Thereza é extremamente agressivo. Tão agressivo que não é comum. O Crohn de Thereza não é - é melhor repetir: não é -, nem de longe, exemplo desta patologia. A doença exigiu (e continua exigindo) da sua mãe e dela própria muita paciência e coragem.

Para não entrar nos detalhes deste triste caso, vamos ao resumo da história: Thereza só conseguiu andar aos três anos de idade, porque foi uma criança muito fraquinha. Fez 11 cirurgias (a última há cinco anos), tirou parte do intestino grosso e foi colostomizada com apenas dois anos de idade, o que a obrigou a crescer e conviver com uma bolsinha a tiracolo para colher as fezes. Há quatro anos Thereza vem a São Paulo de dois em dois meses para tomar Remicade. “As enfermeiras do hospital me conhecem e têm muita amizade por mim”, diz a menina, que se sente completamente à vontade nessas ocasiões. “Já estou acostumada com a picada da agulha, isso não me incomoda mais.”

O que a jovem mais gosta é de estar com seus muitos primos. São 50 ao todo, de 14 a 20 anos de idade. Todos moram em Crato, para onde Thereza se mudou com uma babá, em dezembro do ano passado, e onde freqüenta as aulas no mesmo colégio que eles (ela está na 3ª série do Ensino Médio). Suas outras diversões são brincar de videogame e passear no shopping center. “Quando a minha filha está feliz, fazendo o que gosta, a doença fica em equilíbrio”, explica a mãe, que se divide entre a sua casa em Crato e a de Fortaleza, onde mora o pai da garota.

Aparentemente, Thereza demonstra não ter constrangimento algum por fazer cocô de um jeito diferente das outras pessoas. “É uma menina que tem muitas amigas, se troca na frente delas, usa biquíni e até já fez natação”, diz sua mãe. “Ela só não pergunta nada sobre a bolsa que usa para evacuar”, completa Rejane, que procurou criar a filha longe dos preconceitos e vergonhas que os seus problemas de saúde poderiam gerar e que ela própria experimentou na sua vida. “Eu tenho uma certa deformação nos pés e quando era criança minha mãe me deixava trancada no quarto para não expor o meu problema”, conta Rejane, 40 anos, ex-bancária que largou tudo para cuidar da filha. “Eu fiz justamente o contrário com a minha filha porque acho que é melhor expor o problema para aprender a lidar com ele”, explica. Não é uma lição de vida?